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Divulgação/Warner Bros.

Etc|2 de junho de 2022

Errol Flynn foi precursor de Johnny Depp, ao vencer “mentirosas” há 80 anos

Johnny Depp não foi o primeiro “pirata” famoso de Hollywood a enfrentar acusações de violência contra mulheres, ir a julgamento, contar com o apoio de fãs que não acreditaram nas “mentiras” e sair vencedor do tribunal, em meio a uma onda de misoginia explícita.

Faz quase 80 anos que Errol Flynn transformou um julgamento de abuso numa plataforma para aumentar sua popularidade.

O ator australiano era conhecido por seus papéis de herói espadachim nos filmes de Hollywood e por seu estilo de vida playboy. Considerado galã, assinou com a Warner Brothers Studio nos anos 1930 e se tornou uma celebridade instantânea após o lançamento de seu primeiro filme americano, a aventura de pirata “Capitão Blood”, de 1935, em que viveu o papel-título.

Ele se naturalizou cidadão americano em 1942, mesmo ano em que duas adolescentes menores de idade, Betty Hansen e Peggy Satterlee, o denunciaram por agressão e estupro, em ocasiões separadas. O escândalo foi um dos maiores de sua época e muitos dos fãs do ator se recusaram a aceitar que as acusações eram verdadeiras.

Durante o julgamento, que ocorreu em janeiro e fevereiro de 1943, Flynn se portou de forma irônica, debochando das perguntas da acusação. “Quem se aproxima de uma namorada em potencial pedindo que ela pegue sua certidão de nascimento, ou carteira de motorista, ou mostre uma carta de sua mãe?”, foi sua resposta quando questionado se sabia que as duas eram menores de idade.

Para piorar, Satterlee testemunhou que Flynn manteve seus sapatos durante o encontro, o que virou piada, já que o filme do galã “They Died with Their Boots On” (Eles morreram com suas botas, em tradução em português, mas lançado nos cinemas brasileiros como “O Intrépido General Custer”) tinha acabado de estrear.

Flynn se disse indignado com as acusações, que estavam prejudicando sua carreira, e acabou absolvido depois que o advogado de defesa atacou a moral e o caráter das denunciantes, afirmando que elas já tinham tido relacionamentos sexuais anteriores e, por isso, estavam mentindo. Satterlee, vejam só, era uma atriz iniciante que buscava visibilidade acusando um homem famoso.

Após a sentença, a fama de mulherengo do ator virou elogio. Ser “in like Flynn” tornou-se gíria para aclamar quem se dava bem com as mulheres.

O ator continuou fazendo filmes e se envolveu com outra menor de idade, Beverly Aadland, com quem contracenou em seu último longa, “Cuban Rebel Girls” (1959). Já Peggy Satterlee e Betty Hansen, que fizeram as acusações, saíram do tribunal chorando, sob gritos obscenos e acusadas de aborto ilegal e crimes contra a natureza.

Em sua biografia, Flynn revelou que o caso fez bem para sua vida sexual. As mulheres passaram a procurá-lo, batendo em sua porta “como gotas de gelo em uma tempestade de granizo”.

No mesmo livro, ele também admitiu que era “culpado como o inferno – ao menos, sob a lei”. “Mas no mundo do senso comum cotidiano… todo mundo sabia que as garotas pediram por isso”, acrescentou, ressaltando seu machismo.

A trajetória de Errol Flynn é precursora da carreira de Johnny Depp em muitos outros detalhes. Os dois são identificados como rebeldes, que cativaram o mundo com um estilo de vida de extremos – o problema de Flynn era principalmente a bebida, além das mulheres – e repleto de masculinidade tóxica. Mesmo assim, viveram heróis nas telas e se tornaram ídolos de multidões. Ambos também perderam suas fortunas numa nuvem de álcool e narcóticos.

Flynn, entretanto, deixou uma bomba agendada para explodir após sua morte. Sua autobiografia, “My Wicked, Wicked Ways”, foi lançada postumamente em 1959 e chocou até os fãs mais apaixonados com várias revelações – e a admissão de culpa no estupro.

“É de fato tão franco quanto dizem ser”, admitiu seu amigo Noël Coward, “mas com uma espécie de franqueza que gela o sangue. Uma riqueza de vulgaridade desnecessária.”

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