Divulgação/Netflix

Cidade Invisível é acusada de apropriação cultural

Elogiado pela crítica internacional e alvo de tuites apaixonados em várias línguas, a série brasileira “Cidade Invisível” alterna seu sucesso atual com a acusação de cometer apropriação cultural.

“Cidade Invisível” rendeu controvérsia pela falta de representatividade indígena em sua produção, na frente e atrás das câmeras. Como os personagens do folclore brasileiro apresentados na atração se baseiam em lendas e crenças nativas, chamou atenção a quantidade de intérpretes, produtores e roteiristas brancos envolvidos no projeto, entre eles o cineasta Carlos Saldanha (diretor das animações “Rio” e “O Touro Ferdinando”) em contraste com a completa ausência de representantes da cultura retratada. Até o Boto-Cor-de-Rosa, chamado de Manaus, é interpretado por um ator branco, enquanto Iara, a sereia de nome tupi, emerge quase Iemanjá com a pele negra em streaming.

Entre vários outros, Fabrício Titiah, ativista da tribo Pataxó HãHãHãe, exaltou a qualidade da produção da Netflix, mas isso só teria tornado maior a oportunidade perdida. “É uma grande produção nacional, uma pena que erraram. Faltou estudar mais e ser respeitoso. Eu e outros parentes podemos contar a história que realmente representa as tradições originárias, a representatividade já começa aí”.

“Há uma diferença muito grande entre exaltar uma produção nacional e colaborar para a venda da imagem de um Brasil onde a cultura sagrada de um povo é tratada como uma fantasia exótica. Reforçando pensamentos equivocados que os gringos tem sobre nossa cultura”, ele continuou, no Twitter. “Para nós que já vimos e sentimos a Mãe D’água e a Dona da Mata (Kaapora), ver como a série retratou nossos protetores foi agoniante. E ainda sem nenhum protagonismo indígena”, completou.

A comunicadora Alice Pataxó também reclamou no Twitter que “é uma grande problemática tratar de ‘folclore’ Br, crenças e culturas indígenas sem protagonismo Indígena”. E exemplificou porque os equívocos são inevitáveis sem a participação nativa na construção de histórias de sua própria cultura. Porque os roteiristas brancos ao fazer “a apresentação dessas divindades, falam de seres e culturas que desconhecem, ou como em outras obras, se baseiam na Wikipedia”.

“Até quando se trata de nós, somos os últimos a sermos lembrados e procurados, essa poderia ter sido uma oportunidade incrível de indígenas nas telinhas, mas a apropriação virou primeira opção”, ela refletiu.

Apesar de manifestações mais radicais — como protestos por o Saci refletir o garoto negro eternizado pela literatura de Monteiro Lobato e não o mito indígena — , as reclamações apontam um problema recorrente nas produções brasileiras, que precisa ser escancarado e enfrentado, e nesse sentido é mais que válida, necessária mesmo, a pressão das redes sociais. Basta lembrar que a falta de representatividade chegou ao ponto de, no ano passado, uma roteirista branca ter ficado à frente de um especial em homenagem ao Dia da Consciência Negra.

Infelizmente, produtores e executivos de canais e plataformas não parecem dar importância para estes “detalhes” no país em que muitos dizem não existir racismo e sim militância de esquerda. Mas oportunidade, representatividade e correção cultural não são apenas slogans. São emprego, visibilidade e educação.