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Filme|15 de dezembro de 2019

O Juízo oferece suspense sobrenatural para refletir e deslumbrar

“O Juízo” é uma incursão do cinema brasileiro no gênero suspense, terror. Assim como outras tentativas bem sucedidas realizadas anteriormente, ele contribui para ampliar o alcance do nosso cinema para além dos documentários, comédias e dramas que têm marcado a produção nacional crescente.

Considerado um suspense sobrenatural, é, na verdade, um filme que crava na trama as marcas da história brasileira, do extrativismo à escravidão, que deixaram uma dívida que remonta a séculos e está na construção da vergonhosa desigualdade, preconceito e racismo, que vivemos até hoje. Mérito, claro, do talento de escritora da roteirista Fernanda Torres que, infelizmente, não participa do filme de seu marido, Andrucha Waddington, como atriz. Em compensação, Fernanda Montenegro, sua mãe, está lá, brilhante como sempre. O filme tem mesmo uma característica familiar. Joaquim Torres Waddington, filho do diretor e da roteirista, estreia no cinema como ator neste filme. Para além das relações familiares, o elenco tem Felipe Camargo, Carol Castro e Criolo, em papeis centrais e o grande Lima Duarte em participação especial.

O que mais entusiasma em “O Juízo” nem é a sua história, muito boa, ou seu superelenco, mas seu apuro visual. Enquadramentos belíssimos, do alto, na água, nos caminhos molhados (o filme é quase todo passado na chuva), nos ambientes de uma fazenda, supostamente mineira, na verdade filmada no Estado do Rio. Uma fotografia esmaecida, esfumaçada, escurecida, concretiza uma narrativa que remete a trevas, com grande beleza e explora também com eficiência a luminosidade do fogo. Ótimo trabalho do diretor de fotografia Azul Serra. Destaque também para a direção de arte de Rafael Targat. Um trabalho de equipe muito bem coordenado por Andrucha Waddington.

O enredo remete a uma família, Augusto (Felipe Camargo), Tereza (Carol Castro) e o filho Marinho (Joaquim Torres Waddington), que vão em busca de colocar a vida em ordem, resolvendo problemas econômicos e do alcoolismo de Augusto, assumindo morar numa fazenda isolada e abandonada, herdada do avô. A propriedade, porém, traz o carma de uma traição, envolvendo um homem escravizado, Couraça (Criolo) e sua filha, uma dívida ancestral. Diamantes estão envolvidos na história, colocando a cobiça como parte integrante e trágica da narrativa.

Mais suspense que terror, fantasmagórico, mas realista e indutor de reflexão, “O Juízo” é um filme que se vê com prazer, com destaque para o esmero visual, que merece ser apreciado com atenção.

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Antonio Carlos Egypto

Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio

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