Doris Day (1922 – 2019)



A lendária atriz Doris Day, que estrelou dezenas de comédias clássicas, morreu nesta segunda (13/5) em sua casa, em Carmel Valley, na Califórnia, cercada por amigos. No último dia 3 de abril, ela havia completado 97 anos.

“Ela estava com saúde física excelente para sua idade, até recentemente contrair um caso sério de pneumonia”, informou um comunicado da fundação Doris Days, que a atriz criou para defender animais.

Uma das estrelas de cinema mais adoradas de todos os tempos, Doris Day ficou marcada por papéis sempre otimistas e pelo charme inocente. Daí, veio seu apelido de “A Rainha Virgem”, pela pureza de seus papéis. Mas ela também era referida como “A Garota da Vizinhança”, por representar mulheres trabalhadoras nas telas, e não beldades glamourosas.

Nascida Mary Ann Von Kappelhoff, Doris era filha de um músico talentoso e professor de canto, mas sonhava em seguir carreira como dançarina. O destino lhe reservou outro caminho. Aos 12 anos, ela se envolveu em um acidente de carro quase fatal e passou muitos meses entrando e saindo de hospitais, interrompendo sua vontade de dançar.

Durante sua convalescença, ela começou a cantar, logo se apresentando no rádio e em clubes com um nome artístico emprestado de sua música favorita, “Day by Day”.

Doris não demorou a se destacar como cantora, atraindo a atenção dos músicos Bob Crosby (irmão de Bing) e Les Brown. Ela excursionou o país por cerca de oito anos com cantora de big bang e, aos 23 anos, gravou seu primeiro grande hit com Brown, “Sentimental Journey”. A canção se tornou uma das favoritas dos soldados americanos durante a 2ª Guerra Mundial e atingiu o 1º lugar nas paradas de sucesso em 1945.

Sua carreira musical acabaria ofuscada pela cinematográfica, mas ela recebeu reconhecimento com um Grammy especial por sua discografia em 2008.

A transição para o cinema aconteceu em 1948, quando foi convidada a fazer um teste para a Warner Bros. O diretor Michael Curtiz ficou tão impressionado que a escolheu como substituta de última hora de Betty Hutton no musical “Romance em Alto-Mar” (1948).

O sucesso da produção a transformou em estrela de Hollywood, levando-o a filmar em média três títulos por ano. Já em seu quinto filme, “No, No, Nanette” (1950), seu nome passou a ter o maior destaque nos cartazes. Além disso, seu par romântico naquele longa, Gordon McRae, se tornou seu primeiro grande parceiro nas telas. Os dois contracenaram em mais quatro produções.

Ela era uma artista completa, capaz de interpretar e cantar. E sua interpretação de “Secret Love” no musical “Ardida como Pimenta” (1953), em que viveuu a pistoleira Jane Calamidade, rendeu seu primeiro Oscar de Melhor Canção – um prêmio destinado apenas aos compositores, embora o maior atrativo fosse sua voz na gravação.

Após contracenar com Frank Sinatra em “Corações Enamorados” (1954), Doris partiu para a MGM, onde estrelou “Ama-me ou Esquece-me” (1955), uma versão romanceada da vida da cantora de jazz Ruth Etting. Cheio de canções memoráveis, o filme se tornou o favorito da atriz.

Mas ela não se acomodou como estrela de musicais. Também viveu personagens dramáticas, com destaque para sua participação em “Dilema de uma Consciência” (1951), que denunciava a violência racial da Ku Klux Klan. Isso chamou a atenção de ninguém menos que Alfred Hitchcock, que cinco anos depois a escalou como esposa de James Stewart no famoso suspense “O Homem que Sabia Demais” (1956).

Ironicamente, o filme de Hitchcock rendeu à Doris sua música mais conhecida, “Que Sera, Sera”, que venceu o Oscar.



Em 1957, ela retomou seu antigo prazer de dançar, ao trabalhar com o renomado coreógrafo Bob Fosse em “Um Pijama para Dois” (1957), adaptação de um sucesso da Broadway, em que interpretava a líder sindical de uma fábrica de pijamas. A obra virou um de seus maiores sucessos, repletos de hits musicais e coreografias inesquecíveis. E também serviu de padrão para os filmes seguintes, em que Doris sempre vencia, com doçura, as artimanhas masculinas.

A partir daí, a atriz se especializou em comédias românticas, contracenando com Clark Gable em “Um Amor de Professora” (1958), Richard Widmark em “O Túnel do Amor” (1958), Jack Lemmon em “A Viuvinha Indomável” (1959) e David Niven em “Já Fomos tão Felizes” (1960).

Mas foi em “Confidências à Meia-Noite” (1959) que ela encontrou seu principal par. A comédia em que se apaixona por um mulherengo, vivido por Rock Hudson, forjou um dos mais célebres casais românticos de Hollywood. Doris Day acabou recebendo sua única indicação ao Oscar como atriz por esse filme.

Os dois voltaram a contracenar em “Volta Meu Amor” (1961). Mas os produtores de Hollywood sabiam de um segredo que o público desconhecia. Hudson era gay. E, assim, Cary Grant apareceu como o mulherengo da vez em “Carícias de Luxo” (1962), sucedido por James Garner em “Tempero do Amor” (1963) e “Eu, Ela e a Outra” (1963).

O público, porém, queria mais Doris e Rock Hudson. Tanto que a volta da parceria em “Não me Mandem Flores” (1964) estourou as bilheterias da época.

Doris Day já tinha mais de 40 anos e ainda mantinha sua distinção como protagonista de comédias românticas, num período em que Hollywood supervalorizava juventude e beleza. Por isso, ela se esforçava em acompanhar os modismos da época, das sátiras de 007 em “A Espiã de Calcinhas de Renda” (1966) às paródias de Hitchcock em “Capricho” (1967). Ela até voltou a seus dias de pistoleira no western “A Indomável” (1967).

Contudo, depois de aparecer como mãe de filhos bem crescidos em “Tem um Homem na Cama da Mamãe” (1968), sua carreira cinematográfica acabou.

Em 1968, ela fez sua transição para a TV, estrelando “The Doris Day Show”, sitcom que a trazia como uma viúva de cidade grande decidida a viver no campo com os filhos.

A série foi muito importante para a atriz, pois, após anos interpretando uma viuvinha alegre, seu marido Marty Melchen morrera de verdade. Ela também descobriu que estava falida, abrindo – e vencendo – um processo contra seu ex-advogado e empresário por negligência. A produção televisiva lhe deu um objetivo e ajudou-a a recuperar suas finanças.

“The Doris Day Show” durou cinco temporadas, até 1973. Depois disso, ela ainda apresentou “Doris Day’s Best Friends” num canal evangélico, em 1985.

Mas queria fazer mais. Em seu discurso de agradecimento ao prêmio Cecil B. DeMille por sua carreira, no Globo de Ouro de 1989, ela disse: “Eu estive longe por muito tempo” e “o melhor ainda está por vir, eu quero fazer mais”.

Ela só fez mais um disco, em 2011.

Longe da mídia, Doris passou seus últimos anos como ativista dos direitos dos animais, à frente de sua fundação.


Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



Back to site top
Change privacy settings