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Filme|24 de março de 2019

Nós é a nova obra-prima intrigante do diretor de Corra!

O comediante Jordan Peele achou inspiração no terror para virar diretor. E não veio para brincar. Em “Corra!” (2017), começa sua história de forma convencional, usa um ou outro clichê, mas somente para capturar a atenção do espectador até finalmente puxar a cortina que divide a realidade da fantasia e mostrar algo que nunca vimos antes. Seu novo trabalho, “Nós”, anda nos mesmos trilhos.

Ambos exploram um horror social enraizado na América, que explora a verdadeira natureza do ser humano. Em “Corra!”, o mal é representado pelo racismo. Em “Nós”, a discussão está voltada para as diferenças entre classes e como tratamos os outros. Só que, apesar desse dialogo temático, os dois filmes são completamente diferentes e igualmente brilhantes.

Assim como “Corra!”, “Nós” tem um prólogo. Em 1986, acompanhamos uma garotinha, Adelaide, entrando numa sala de espelhos, atração de um parquinho numa praia de Santa Cruz, Califórnia (a mesma dos vampiros de “Os Garotos Perdidos”). Lá, ela se depara com um trauma que carregará pelos próximos 30 anos.

É com esse salto no tempo que passamos pelos créditos iniciais e conhecemos Adelaide adulta (Lupita Nyong’o) ao lado dos filhos, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex), e do marido Gabe (Winston Duke). Eles decidem aproveitar o sol nas areias da mesma Santa Cruz, onde encontram um casal de amigos ricos e esnobes (e suas filhas). Mais tarde, relaxando na casa de praia, recebem a visita de uma família praticamente idêntica a eles próprios (com a diferença de suas aparências mais desgastadas), vestindo roupões vermelhos e trazendo imensas tesouras douradas em mãos. Enfim, sinal de boa coisa não é.

Se você pensa que virá algo parecido com “Os Estranhos” ou “Uma Noite de Crime”, esqueça. Jordan Peele é um cineasta que tem coragem de expor a teoria das sombras, trazendo à luz atitudes doentias que escondemos, mas que se manifestam às vezes, mesmo que de forma inconsciente, quando julgamos, desdenhamos, ignoramos ou até mesmo maltratamos algumas pessoas simplesmente porque não as consideramos do mesmo nível que o nosso.

O elenco estupendo contribui para gerar o resultado aterrador. Principalmente, Lupita Nyong’o na melhor atuação de sua vida, em dois papéis poderosos, que ora se separam, ora se completam. Ideia que reflete no jogo de espelhos proposto pelo diretor durante todo o filme para demonstrar como não conhecemos profundamente diversas pessoas, incluindo membros de nossas famílias. Segundo o diretor, somos heróis e vilões alternando cada face na velocidade de uma dança.

Numa impressão inicial, parece que nem tudo é o que parece. Mas nenhuma cena é colocada no filme à toa (como a primeira delas, que leva ao final).

Hitchcock é a grande referência. O mestre que em “Psicose” e “Um Corpo que Cai” conduz o público a acreditar que o mistério ultrapassará a fronteira do território sobrenatural, sempre acabava trazendo uma explicação com os dois pés fincados no mundo real. Peele flerta com o mesmo conceito, porém adicionando elementos de ficção científica – tanto em “Corra!” quanto em “Nós” – , sem assumir o horror sobrenatural, mas deixando entrelinhas de sua mitologia para a imaginação do público.

E é nisto que “Nós” tende a dividir opiniões entre os que amaram e os que “não acharam tudo isso”. É um risco, porque Peele não tem receio de pisar no freio do terror.

O importante, porém, não é saber se “Nós” é melhor ou não que “Corra!”. É aproveitar um espetáculo de horror contemporâneo, que não cai na tentação dos sustos fáceis de hoje em dia, fazendo brotar o medo do ambiente e da sensação de impotência, diante da falta de controle em uma situação fora do comum.

Além disso, dá para cansar de procurar significados dentro dessa obra-prima intrigante, que expande temas explorados em “Corra!” numa escala bíblica e com fôlego para ser discutido pelos próximos anos.

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Otávio Almeida

Otávio Almeida é formado em Publicidade e Propaganda e Jornalismo. Nasceu no Rio de Janeiro, mora em São Paulo, mas sempre torcerá pelo Flamengo. É fã de Star Wars, Steven Spielberg, Stanley Kubrick, Blade Runner, Martin Scorsese, Indiana Jones, Frank Capra, Billy Wilder, John Ford, Clint Eastwood, O Senhor dos Anéis, Woody Allen, George Lucas, Lawrence da Arábia, Quentin Tarantino, Rocco e Seus Irmãos, James Cameron e Chinatown. Além de editor do Hollywoodiano, escreve sobre cinema como colaborador da revista Preview.

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