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Filme|3 de fevereiro de 2019

Cancelamento de Boy Erased no Brasil gera suspeita de censura por filme denunciar cura gay

Previsto para estrear no Brasil na última quinta (31/1), o filme “Boy Erased: Uma Verdade Anulada” teve sua estreia cancelada em cima da hora. O drama, que conta a história real de um jovem que se submete a um tratamento de “cura gay” nos EUA, sairá agora diretamente em VOD no país.

A decisão repentina causou revolta na internet. Após um tuíte do estúdio Universal confirmar o cancelamento, diversos internautas consideraram se tratar de censura, relacionando o fato ao avanço da direita evangélica no governo federal.

Os rumores se intensificaram após o autor do livro, Garrard Conley, lamentar o cancelamento em seu perfil no Twitter. Além dele, o ator Kevin McHale, famoso pela série “Glee”, usou o Instagram para reclamar, fazendo a conexão que os brasileiros anteciparam. “Banir um filme sobre terapia de conversão é perigoso! Bolsonaro é uma ameaça Às vidas LGBTQIA+. Eu te amo, Brasil, e vou lutar com vocês”, escreveu o ator.

A explicação oficial da assessoria da Universal Pictures diz que se trata “única e exclusivamente por uma questão comercial baseada no custo de campanha de lançamento versus estimativa de bilheteria nos cinemas”.

O cancelamento também reflete o anti-clímax criado pela falta de indicações do filme na temporada de premiações, apesar de ele ter conquistado elogios da crítica americana – tem 80% de aprovação no site Rotten Tomatoes, que compila a nota da imprensa escrita em inglês. Não por acaso, “Boy Erased” foi indicado apenas a prêmios de críticos, o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards, e exclusivamente em categorias de interpretação e música.

O longa é inspirado em livro de memórias homônimo, que foi lançado no Brasil no mês passado pela editora Intrínseca. Escrito por Garrard Conley, ele conta como o protagonista é forçado, aos 19 anos de idade, a escolher entre sua sexualidade e sua família aparentemente amorosa, mas religiosa – ou seja, intolerante. Por amar os pais, ele se deixa matricular num grupo de conversão evangélica para se “curar” da homossexualidade e voltar a ser bem-vindo em sua própria casa e no reino de Deus. Mas tudo o que consegue com esta decisão é humilhação e violência.

O elenco destaca Lucas Hedge (de “Manchester à Beira-Mar”) como o personagem do título, Nicole Kidman (“Lion”) como sua mãe e Russell Crowe (“A Múmia”) como seu pai pastor, além de Joel Edgerton (“Operação Red Sparrow”) no papel do responsável pelo programa de conversão. Edgerton ainda assina o roteiro e a direção do longa, em seu segundo trabalho na função, após o intenso suspense “O Presente” (2015).

Este também é o segundo filme sobre “cura gay” de 2018 que fica sem lançamento no Brasil. Vencedor do Festival de Sundance e lançado em agosto nos Estados Unidos, “O Mau Exemplo de Cameron Post” (The Miseducation of Cameron Post) trouxe uma perspectiva feminina sobre o tema, com Chloe Moretz (“Carrie, a Estranha”) no papel principal.

Por conta disso, o ativista Mathew Shurka, que trabalhou como consultor de “Boy Erased” e é fundador da organização Born Perfect, que trabalha contra a chamada “terapia de conversão”, acredita que a distribuidora deveria dar mais detalhes sobre o cancelamento. Segundo ele, a decisão corre o risco de abrir precedentes para outros fillmes com temática LGBT não serem distruibuídos por “razões comerciais”.

“Trabalhei de graça no filme, pois a própria produtora disse que ele foi feito para “salvar vidas’. Isso quer dizer que, por razões comerciais, a Universal não quer salvar vidas?”, ele disse ao jornal O Globo.

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Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna.

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