Filme que previu o Holocausto é encontrado e volta a ser exibido após quase 100 anos

 

Um filme que previu o nazismo e o Holocausto, perdido há décadas, foi restaurado, após ser reencontrado por acaso, e voltou aos cinemas da Áustria após quase um século de sua produção.

Intitulado “Die Stadt Ohne Juden” (A Cidade Sem Judeus, em tradução livre), o filme é mudo e em preto e branco. Foi lançado em 1924 como um alerta, mostrando uma cidade europeia que resolve hostilizar e expulsar seus judeus.

As primeiras imagens mostram uma mulher insatisfeita com o aumento dos preços num mercadinho, que resolve atirar frutas num judeu que passa pela rua. Em seguida, informa-se a todos os judeus da cidade que devem abandoná-la até o Natal. Assim, suas cenas mostram judeus escoltados por militares, forçados a embarcar em trens ou andar descalços sobre a neve, com famílias separadas sem a menor consideração.

O retrato de antecipação do Holocausto foi escrito pelo romancista austríaco judeu Hugo Bettauer (o mesmo de “Rua das Lágrimas”, que virou filme com Greta Garbo) e foi dirigido pelo também austríaco HK Breslauer, na época em que Adolf Hitler escrevia seu infame “Mein Kampf”.

Mas o filme tinha um final feliz. Depois de os judeus abandonarem a cidade, a vida do local piora sensivelmente. O comércio e a economia entram em crise e a cidade fica vazia e pobre. Assim, o governador não vê saída senão convidar os judeus a regressarem. No final, as famílias cristãs e judaicas voltam a estar reunidas.

Na vida real, porém, a situação foi bem diferente, com os judeus exterminados pelos nazistas. Mas o autor da história, Hugo Bettauer, foi assassinado bem antes da 2ª Guerra Mundial. Considerado um traidor da Áustria na época do filme, ele teve seu endereço publicado nos jornais, com indicação de que não merecia fazer parte da sociedade. Poucos meses após a estreia de “Die Stadt Ohne Juden”, foi assassinado por um nazista, que cumpriu uma pena curta.

O diretor HK Breslauer, que não era judeu, sobreviveu, mas nunca mais fez nenhum outro longa-metragem, apesar da longa carreira precedente, iniciada em 1918.

No elenco de “Die Stadt Ohne Juden”, ainda constava Hans Moser, um dos mais famosos astros austríacos do pré-guerra, que se casou com uma mulher judaica. Quando os nazistas tomaram o poder na Áustria, em 1938, ele chegou a escrever uma carta a Hitler, que se dizia seu fã, pedindo clemência para a mulher. Esta história terminou melhor. Ela acabou fugindo para a Hungria, onde os dois voltariam a se reencontrar depois do fim do nazismo.

Os nazistas tentaram destruir o filme, que se acreditava perdido. Mas uma cópia sobreviveu e foi encontrada numa feira de produtos usados em Paris, há três anos. Quando o comprador percebeu o que tinha em mãos, deu início a uma campanha de crowdfunding para resgatar a obra e conseguir projetá-la novamente nos cinemas. Foram obtidos 86 mil euros e o filme conseguiu ser salvo.

Está atualmente em exibição em Viena, na Áustria, e deverá chegar a mais cidades europeias ao longo do ano.

Comente

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna

Back to site top
Change privacy settings