Crítica: Jane Fonda e Robert Redford descobrem o segredo da melhor idade em Nossas Noites

Crítica: Jane Fonda e Robert Redford descobrem o segredo da melhor idade em Nossas Noites

 

A solidão dói mais na terceira idade, mas tem remédio, demonstra o filme “Nossas Noites” (Our Souls at Night), de Ritesh Batra, lançado em streaming na Netflix.

O diretor indiano já tinha em seu currículo uma história romântica belíssima, “Lunchbox” (2013), envolvendo amor por correspondência. Em “Nossas Noites”, o relacionamento é frontal. Os protagonistas são um casal de viúvos idosos, que começam a dormir juntos. É até estranho usar a palavra “idoso” a respeito de Robert Redford e Jane Fonda, que já formaram um dos casais mais lindos do cinema, mas eles já assumiram faz tempo suas idades. Redford, inclusive, parece curtir bastante suas rugas.

O filme é baseado no romance homônimo de Kent Haruf (“Histórias Divididas”), publicado postumamente em 2015, e tem roteiro da dupla Scott Neustadter e Michael H. Weber (“A Culpa É das Estrelas”).

Na trama, Jane Fonda é Addie Moore, uma mulher que resolve ser direta. Vai até a casa de seu vizinho Louis Walters (Redford) e faz a proposta: ele topa ou não topa passar a dormir na casa dela, pelo menos para efeito de experiência? A ideia nem é fazer sexo, mas ter alguém junto na cama, para conversar antes de dormir, alguém que seja interessante. E ela acha Louis interessante. O sexo, o amor, e tudo o mais poderiam aparecer depois, se tudo funcionasse.

Louis fica um pouco chocado com a proposta, mas depois de refletir resolve entrar na casa de Addie, ainda que inicialmente pela porta dos fundos.

É muito bom ver como o filme lida com a relação dos dois, esse tatear em busca de uma intimidade que não existia antes, mas que deve passar a existir à medida que eles forem se conhecendo. Esse tipo de relação é mais comum do que se imagina, entre pessoas que sabem que não têm tempo a perder. Os mais jovens têm a mania de deixar escapar o tempo, gastando energia de forma fútil.

“Nossas Noites” não inventa a roda e não é uma história de amor fora do comum, do ponto de vista formal. Mas é muito bem conduzida em sua narrativa, com o cuidado reconhecido de Batra com as palavras e os silêncios. Além disso, tem como inegável atrativo o fato de reunir dois dos maiores astros da “Nova Hollywood”, que não filmavam juntos há quatro décadas – após contracenarem em três clássicos: “Caçada Humana” (1966), de Arthur Penn, “Descalços no Parque” (1967), de Gene Saks, e “O Cavaleiro Elétrico” (1979), de Sydney Pollack.

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Ailton Monteiro é professor e vai ao cinema com frequência desde os 16 anos de idade. Mantém o blog Diário de um Cinéfilo, premiado com o Quepe do Comodoro de melhor blog de cinema em 2004.