Crítica: Animais Noturnos embaralha ficção, realidade e mistério

 

O filme “Animais Noturnos” focaliza a personagem Susan (vivida por Amy Adams), sua galeria de arte e seu marido, com quem visivelmente ela mantém um relacionamento distante e conturbado. Pouco afeto e pouco interesse em investir na relação parecem existir ali. Ela tenta algo, mas não encontra ressonância nele que, uma vez mais, parte para uma viagem.

Enquanto isso, Susan recebe de seu ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal) os originais de um romance chamado Animais Noturnos, dedicado a ela. Ele costumava chamá-la assim. O romance será lido por ela e visto pelos espectadores em partes, progressivamente, como um livro é lido.

O texto que Susan lê vai se tornando incômodo, por muitas razões. Primeiro, porque se revelará um thriller violento, que se agrava aos poucos. Segundo, porque parece uma confissão em primeira pessoa que desmerece o narrador. Terceiro, porque parece se constituir numa vingança em relação a ela. E vai evoluindo para uma atmosfera aterradora.

Por um lado, ela vai sendo atraída pelo livro, por outro, o contesta e rechaça. Interrompe a leitura, mas sempre voltará a ela. Nos intervalos da leitura, acompanhamos o que ela faz e o encontro que se dará com o próprio autor da obra, seu ex-marido. Eles se relacionam em meio à fruição da obra literária, que mexe tanto com ela e parece ter sido feita para contar algo importante, que pode mudar muita coisa. Com que função? Para alcançar o quê, a essa altura, depois de muitos anos de distanciamento?

A narrativa de “Animais Noturnos” inova num jogo de ficção e realidade, presente e passado, passado que volta a ser presente, lembranças incômodas e fantasia e, afinal, amor e ódio. Desta forma, se constrói como um thriller forte e empolgante, cheio de subentendidos, mistérios e motivações simbólicas.

Os personagens soam autênticos, mostram as fraquezas humanas, a busca por modificar a percepção do outro, escancaram frustrações e todo tipo de fragilidade, incluindo as doenças do corpo.

O elenco que dá vida a esses personagens complexos e realistas é muito bom e nos apresenta desempenhos muito convincentes. O principal destaque é, naturalmente, Amy Adams (vista em 2016 também em “A Chegada”), já que é Susan que conduz a trama. Ao mesmo tempo, a narrativa “ficcional” do romance é que dá o tom do espetáculo e aí o grande condutor é Jake Gyllenhaal (“O Abutre”), o escritor e personagem do livro.

Tom Ford, o diretor e também renomado estilista, reafirma o seu talento neste seu segundo filme. O primeiro, “Direito de Amar” (2011), já havia se constituído numa bela surpresa na apresentação de conflitos e relacionamentos amorosos que podem produzir tragédias. Em “Animais Noturnos”, ele mantém essa linha, trabalhando no gênero suspense de forma bem envolvente.

Antonio Carlos Egypto é psicólogo educacional e clínico, sociólogo e crítico de cinema. Membro fundador do GTPOS - Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. Autor de "Sexualidade e Transgressão no Cinema de Pedro Almodóvar","No Meu Corpo Mando Eu","Sexo, Prazeres e Riscos", "Drogas e Prevenção: a Cena e a Reflexão" e "Orientação Sexual na Escola: um Projeto Apaixonante", entre outros. Cinéfilo desde a adolescência, que já vai longe, curte tanto os clássicos quanto o cinema contemporâneo de todo o mundo. Participa da Confraria Lumière, é associado da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e edita o blog Cinema com Recheio