Crítica: Terra Estranha deixa o suspense secar no deserto australiano

 

Habitada por um calor que não dá trégua, animais peçonhentos bizarros e paisagens desoladoras, a Austrália sempre se mostrou um cenário perfeito para a encenação de histórias que buscam desvendar o instinto humano, as desigualdades de uma sociedade e o quanto a nossa pequenez é capaz de devastar todo um território. Portanto, “Terra Estranha” não é um nome genérico para batizar a estreia de Kim Farrant na direção de um longa-metragem.

Temos aqui uma história que se (des)constrói a partir de um desaparecimento, com contornos muito distintos aos de “Um Grito no Escuro” (1988), um aussie drama com Meryl Streep e Sam Neill sempre rememorado quando se fala do que é produzido na terra dos cangurus. Matthew e Catherine Parker (Joseph Fiennes e Nicole Kidman) são os pais de Tommy e Lilly (Nicholas Hamilton e Maddison Brown), ambos às voltas com as descobertas nem sempre agradáveis da adolescência.

O histórico dos Parker foi para a lama assim que o relacionamento de Lilly com o seu professor veio à tona, com este quase morrendo pelas mãos de Matthew. Restou a eles a mudança para uma cidade insossa, com fácil acesso a uma série de regiões desérticas e montanhosas. A dinâmica familiar se dissipou e o sentimento, como bem aponta Lilly, é a de que cada um vive encarcerado.

Fica evidente que algo está errado com cada membro desta família quando Catherine acorda em um dia como qualquer outro sem que os filhos estejam na cama. Eles não foram à escola e todos os vizinhos afirmam que não os viram durante o período matutino. Matthew viu que ambos pularam a cerca do quintal durante a madrugada, mas nada fez para impedi-los a abandonarem o lar. Vem literalmente a tempestade de areia, um anúncio das tragédias que vão testar o casal.

Nem um pouco satisfeito em acompanhar as investigações sobre o desaparecimento pelo detetive David (interpretado por Hugo Weaving), a dupla de roteiristas Fiona Seres e Michael Kinirons insere algumas insinuações sobre o caráter de cada personagem. Se David é capaz de eliminar evidências que podem comprometer Burtie (Meyne Wyatt), o filho de sua namorada (Lisa Flanagan), o que esperar dos Parker? A truculência ou completa passividade de Matthew importunam e alguns comportamentos de Catherine a denunciam como uma versão adulta de Lilly, uma jovem de 15 anos preenchida por uma libido incontrolável.

Quase ninguém parece saber exatamente o que está fazendo em “Terra Estranha”, uma vez que Kim Farrant farta a todos com inúmeras sugestões que só tornam penosa uma experiência que quase totaliza duas horas de duração. As belas panorâmicas captadas pelo diretor de fotografia P.J. Dillon não têm qualquer ressonância em uma narrativa que sequer se soluciona entre quatro paredes e há até mesmo flertes com misticismos locais para incrementar a história. Resta o grito desesperador de Nicole Kidman, que ecoa na penumbra da terra estranha, implorando por uma resolução, que infelizmente se desenha do modo mais insatisfatório possível.

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Alex Gonçalves nasceu e reside em Santo André e, desde a infância, tem o cinema como uma parte indispensável de sua vida. Graduando em Jornalismo, realiza cobertura de lançamentos e explora produções de outras épocas sem distinção de cinematografias e gêneros. É também editor do Cine Resenhas, no ar desde 2007.