William Goldman (1931 – 2018)



William Goldman, vencedor de dois Oscars de Melhor Roteiro por “Butch Cassidy” (1969) e “Todos os Homens do Presidente” (1975), morreu nesta quinta-feira (15/11) aos 87 anos. Sua filha Jenny Goldman citou complicações do câncer de cólon e pneumonia como a causa de sua morte.

Nascido em Chicago, Goldman iniciou sua trajetória profissional como romancista em 1956, escrevendo seu primeiro romance, “Temple of Gold”, em 10 dias, no mesmo ano em que se formou na Universidade de Columbia. Seu agente enviou o livro para uma editora que concordou em publicar, se ele conseguisse dobrar o tamanho da obra. O livro vendeu bem e acabou por deslanchar sua carreira, sendo seguido por “Your Turn to Curtsy, My Turn to Bow” (1958) e “Soldier in the Rain” (1960). Este último, baseado no período em que serviu no Exército, acabou se tornando a primeira adaptação de um texto do escritor, mas sem seu envolvimento. Chegou aos cinemas em 1963, traduzido no Brasil como “Quanto Vale um Homem”.

A carreira de roteirista surgiu por acidente. Depois de ler o livro “No Way to Treat a Lady”, que Goldman escreveu em 1964, o ator Cliff Robertson achou que tinha uma pegada cinematográfica e acabou convencendo o estúdio United Artists a contratar o escritor para desenvolver “Oriente Contra Ocidente” (Masquerade, 1965), seu primeiro roteiro produzido. Por curiosidade, Robertson tinha razão sobre o livro de 1964, que virou o filme “Uma Face para Cada Crime” quatro anos depois.

O segundo roteiro de cinema do escritor se tornou um grande sucesso. Ele assinou a adaptação de “O Caçador de Aventuras” (Harper, 1966), iniciando uma frutífera amizade com o ator Paul Newman.

Os dois voltaram a trabalhar juntos justamente no filme que rendeu o primeiro Oscar a Goldman, uma história original do escritor baseada na vida supostamente real de um fora-da-lei do Velho Oeste, “Butch Cassidy” (1969). O filme estrelado por Newman e Robert Redford se tornou um dos maiores sucessos da década, lembrado até hoje como inspiração do nome do Festival de Sundance – o personagem de Redford, criador do evento, era Sundance Kid. E a repercussão transformou Goldman em um roteirista bastante requisitado.

Robert Redford foi um dos maiores entusiastas de seus textos, estrelando seu roteiro seguinte, “Os Quatro Picaretas” (1972), além de “Quando as Águias se Encontram” (1975) e o trabalho que rendeu o segundo Oscar de Goldman, desta vez na categoria de Roteiro Adaptado, “Todos os Homens do Presidente” (1976).



Enquanto “Butch Cassidy” representou o ápice do western revisionista, que ajudou a popularizar o subgênero dos filmes de parceiros amigões, capaz de equilibrar humor e aventura, “Todos os Homens do Presidente” transformava em suspense fatos reais, virando escola para todos os dramas jornalísticos que o sucederam. Ambos roteiros costumam ser citado entre os melhores já escritos em Hollywood.

Mas a carreira de Goldman não se restringiu aos filmes que lhe renderam o Oscar. Ele adaptou com impacto romances de outros escritores, que se materializaram em clássicos das telas, como o terror “As Esposas de Stepford” (1975), o filme de guerra “Uma Ponte Longe Demais” (1978) e a cinebiografia “Chaplin” (1992). A lista de sucessos cinematográficos de sua filmografia inclui até três adaptações de Stephen King: o suspense brutal “Louca Obsessão” (1990), a fantasia “Lembranças de um Verão” (2001) e o terror menos cotado “O Apanhador de Sonhos” (2003).

Ele também roteirizou com êxito livros de sua própria autoria.

Sua primeira adaptação de si mesmo foi o thriller “Maratona da Morte” (1974), que contém uma sequência memorável de tortura que ainda hoje deixa os espectadores desconfortáveis. Foi seguida pelo terror “Um Passe de Mágica” (1978), o thriller “Encurralado em Las Vegas” (1986) e a obra que conquistou ainda mais fãs que “Butch Cassidy”: a aventura infantil “A Princesa Prometida” (1987). O sucesso foi tão grande que frases da obra foram decoradas pelo público, que as sabe de cor até hoje. Sua influência na cultura popular também pode ser medida pelo conceito do vindouro filme “Once Upon a Deadpool”, previsto para o Natal deste ano, que tem como ponto de partida uma homenagem à sua história.

Seu último trabalho creditado foi “Carta Selvagem”, um thriller estrelado por Jason Statham e lançado em 2015. Mas, além dos filmes que trazem seu nome, Goldman também trabalhou, sem créditos, no aperfeiçoamento e finalização de roteiros de longas famosos, como “Papillon” (1973), “Os Eleitos” (1983), “Proposta Indecente” (1993), “Ferocidade Máxima” (1997) e “Gênio Indomável” (1997), que ironicamente deu o Oscar de Melhor Roteiro para os atores Matt Damon e Ben Affleck.

Como escritor, ele ainda escreveu vários livros sobre a indústria cinematográfica, em que destilou sua aversão aos grandes produtores e executivos que impediam sua criatividade ou se intrometiam em seus roteiros. Ele costumava dizer que, da arte e do negócio de fazer filmes, “ninguém sabe de nada”, frase que se tornou icônica e passou a ser repetida em encontros entre os poderosos de Hollywood, em tom de graça ou de ameaça.


Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News, produziu discos indies e é criador e editor do site Pipoca Moderna



Back to site top
Change privacy settings