Zac Efron se consagra entre as vaias

VENEZA A crítica europeia não gostou. A sessão de imprensa de “At Any Price” terminou em vaias, e a caixa de ressonância da imprensa mundial fez parecer que o filme seria um desastre. Mas saíram as críticas americanas. Todas elogiosas. Muito elogiosas, saliente-se. E veio a première de fato, aberta ao público, onde Zac Efron (“Um Homem de Sorte”) mostrou seu magnetismo, arrancando frases de efeito do tipo “ele agora é um astro de Hollywood”, ao flanar no tapete vermelho, perseguido pelos flashes. Ao final da sessão, palmas do público.

“At Any Price” dividiu a crítica não por ser um mau ou um bom filme. Trata-se de uma produção à moda antiga, que exalta valores tradicionais, e foi filmada de forma convencional, sem muitos arroubos. Mas tem o seu valor. Mesmo os críticos que preferem o cinema falado em curdo, que vaiaram o filme americano, tiveram que se render ao trabalho dos dois protagonistas: Dennis Quaid (“G.I. Joe – A Origem de Cobra”), voltando aos dias em que era levado à sério, e um surpreendente Zac Efron, na melhor performance de sua vida.

No encontro com a imprensa, o diretor Ramin Bahrani previu que Efron iria “seguir o caminho de grandes atores como Johnny Depp ou Tom Cruise, que começaram de uma maneira e se jogaram para outros caminhos”.

Ninguém contestou. Ao contrário, vários repórteres perguntaram ao ainda jovem ator sobre a sua carreira. “Estou aqui com duas estradas a minha frente. Uma é a fácil, a do dinheiro, e a outra seria interpretar outros personagens interessantes. Esta é a escolha que eu respeito mais. Eu realmente gosto de trabalhar em filmes como este que Ramin fez. É isso que eu quero fazer – estou faminto por isso”.

Bahrani fez mais elogios. “Levei 10 segundos para saber que ele era perfeito para o papel”, rasgou. “Zac vem de uma cidade pequena, como o personagem. Mas ele não conhecia o lado mais sombrio deste tipo de comunidade e queria arriscar algo novo. Só arriscando você pode ganhar”, explicou.

O diretor também não poupou sua eloquência para falar da ainda novata Maika Monroe. Segundo ele, muitas atrizes queriam o papel da namorada de Efron na tela, mas ele estava orgulhoso de ter escalado uma atriz praticamente desconhecida, que se mostrou a maior revelação do filme. “Sua sinceridade e beleza não assumida foram determinantes. Acho que estamos vendo o começo de algo muito especial”, adulou.

Bahrani a comparou a Meryl Streep – e Efron a Paul Newman – , o que gerou olhos revirados e caras de nojinho entre os jornalistas presentes na entrevista, mas não seria exagero dizer que ela pode se tornar a nova Jessica Chastain (“A Árvore da Vida”), uma atriz que em um ano se transformou de desconhecida em queridinha de Hollywood. Após filmar “At Any Price’, Monroe começou a receber convites para trabalhar com cineastas aclamados da nova geração. “Eu filmei com Sofia Coppola, o que é incrível, com Jason Reitman…”, ela contou, sorrindo muito. “Estou sentada aqui me beliscando…”

Filho de iranianos que imigraram para os Estados Unidos em 1968, bem antes da Revolução Islâmica, o diretor Ramin Bahrani também fez alguns filmes bastante elogiados na última década, chegando a ganhar o prêmio da crítica no Festival de Londres por “Man Push Cart” (2005) e o mesmo prêmio no Festival de Veneza por “Adeus” (2008). Ele teve a chance de visitar o país de sua família nos anos 1990 e diz que isso mudou sua vida. “Aprendi mais naqueles três anos do que nos 24 que passei num subúrbio na Carolina do Norte. Tive a sorte de poder misturar os dois aprendizados”, contou, no encontro com a imprensa.

Seu novo filme, no entanto, não evoca o existencialismo de suas primeiras incursões cinematográficas nem ecoa a criatividade do cinema iraniano. Trata-se de um melodrama de reflexões intimistas sobre temas grandiosos, focando o universo rural americano em tempos de mudanças tecnológicas e econômicas. Em suma, é um novelão, ao estilo de “Assim Caminha a Humanidade” (1956).

O filme aborda as ansiedades do diretor, mas as cerca de eventos paralelos, rusgas, crises familiares, infidelidades e muito drama. “Eu queria fazer um filme que o público pudesse apreciar”, ele explica. “Você pode se perder na emoção dos personagens e da história, e eles não falam o tempo todo de economia, sociedade e política”.

Em contraponto aos dramas confinados nos prédios de concreto e alumínio de Wall Street, “At Any Price” traz a perspectiva interiorana aos lançamentos recentes que discutem a crise econômica e o sistema financeiro. Filmado no Estado de Iowa, com seus milharais a perder de vista, ele se debruça sobre a terra, os valores de cidade pequena e as armadilhas do sonho americano.

Na trama pouco sutil, Henry (Dennis Quaid) é dono de uma fazenda e vendedor de sementes que usa slogans capitalistas de efeito, como “Expanda ou morra”. Sua ganância será sua ruína, mas também sua chance de rever conceitos. A outra ponta da história pertence ao personagem de Efron, o agroboy rebelde, filho do fazendeiro, que sonha em se tornar piloto de corridas e se distanciar do campo. Mas sua vida vira do avesso quando seu pai passa a ser alvo de uma investigação policial.

Efron explicou que Dean, seu personagem, “corria para se distanciar dos passos de seu pai”, numa analogia escancarada no roteiro. Ele brincou sobre o quanto tinha treinado para filmar as cenas de corridas de carro. “O máximo de experiência que eu tinha era acelerar para fugir dos paparazzi”, disse. Mas afirmou que entendia os conflitos de seu personagem entre “lealdade a sua família e se sentir ressentido por estar sendo criado para se tornar um tipo determinado de pessoa”.

A aproximação entre pai e filho também está na base do retrato conservador da tradição, família e propriedade. Uma avaliação superficial poderia concluir que o filme abraça a América mais conservadora. Mas o filme se permite a várias leituras.

“Eu não quero dizer qual é a moral do filme”, Bahrani ponderou, ao final da entrevista coletiva. “Eu quero lançar perguntas, como o que acontece quando você valoriza a expansão dos negócios mais que sua própria comunidade? Eu não sei onde a moralidade do mundo foi parar. Eu estou aqui para fazer perguntas. Onde este mundo está indo, quando as pessoas que mais lucraram com a crise podem se dar bem e ainda tripudiar sobre todos os que se deram mal?” Uma crítica que reverbera a ajuda aos bancos privados com o dinheiro público, enquanto famílias perdiam tudo após a crise de 2008.

O preço da crise é examinado na forma como alguns personagens se mostram cada vez mais agressivos em termos da competitividade – algo que Dennis Quaid incorpora – , culminando numa metáfora macabra. “As pessoas estão dançando sobre túmulos. E aqueles túmulos são nossos”, o diretor conclui.

+ Cris Thomas

Chris Thomas é uma cinéfila brasileira em Paris, que canta e dança quando começam os festivais europeus.

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