O personagem do novo filme de Woody Allen, “Tudo Pode Dar Certo”, interpretado pelo humorista Larry David (“Curb Your Enthusiasm”), é uma espécie de reencarnação de Groucho Marx, cujo único prazer é ridicularizar verbalmente a todos, inclusive amigos e alunos.
Sendo ele mesmo um instrumentista amador, para Woody Allen a música é um universo precioso e carregado de significação. Ao lado da 5ª Sinfonia de Beethoven, alguns acordes de Stan Getz tocando bossa nova e uma canção de Fred Astaire merecem menção na trilha sonora. Mas a presença mais destacada é ouvida antes do início do filme, junto com os créditos de abertura – que consistem apenas em letras brancas sobre a tela negra. Trata-se de “Hello, I Must Be Going”, o primeiro número musical cantado por Groucho, no segundo filme dos Irmãos Marx, “Os Galhofeiros” (Animal Crackers) de 1930.
A música é tão identificada com o cômico que seu título coincide com o da sua autobiografia e foi a escolhida para abrir o lendário recital que ele fez no Carnegie Hall em 1972.
Groucho Marx é, de fato, a matriz para a criação do rabugento personagem vivido por Larry David. Woody Allen já tinha homenageado Groucho, posando como ele para a capa da revista “Vanity Fair” em 1983 e principalmente em seu musical “Todos Dizem Eu Te Amo”. Há uma cena no filme de 1996 em que os atores se vestem com a casaca e o bigode pintado do ator para dançarem ao som de “Hooray for Captain Spaulding”, também de “Os Galhofeiros”.
Como uma lâmina sempre afiada, o humor verbal de Groucho não perdoava nada e ninguém. Mas essa esperteza era invariavelmente neutralizada em cena pela estupidez de Chico Marx e pela inocência de Harpo Marx.
Do mesmo modo, em “Tudo pode dar Certo”, o refinado, pretensioso e ranzinza cientista é derrubado pela ingenuidade quase infantil de uma garota interiorana, cuja vida se cruza por acaso com a dele. O papel é de Evan Rachel Wood (“Across the Universe”), mas a comicidade se amplia com a presença de Patricia Clarkson (“Vicky Cristina Barcelona”), fazendo a mãe que aparece para resgatá-la do físico que quase ganhou o Nobel (de melhor filme, como diz a filha).
Em 1972, Woody Allen escreveu nas notas do disco “An Evening with Groucho”, seu show de retorno no Carnegie Hall: “Há alguns anos atrás, depois de uma infância de preocupação com a comédia, que me levou a observar os estilos de todos os grandes comediantes, eu cheguei a conclusão que Groucho Marx era o melhor comediante que os Estados Unidos já produziram. Agora eu estou mais convencido que nunca. Não consigo pensar em outro comediante capaz de combinar uma concepção totalmente física com um ataque verbal do mesmo calibre. Ele é simplesmente único, do mesmo modo que Picasso ou Stravinsky. E eu acredito que seu desrespeito ultrajante e pouco sentimental pela ordem será igualmente engraçado no próximo século”.






























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Homenagem ao Groucho num smiley do MSN 2011…