Willem Dafoe encara o fim do mundo

VENEZA O apocalipse está se tornando elemento indispensável dos principais festivais de cinema da Europa. Se em Cannes foi Lars von Trier que explodiu o planeta em “Melancolia”, em Veneza é “4:44 Last Day on Earth”, do diretor Abel Ferrara (“Vício Frenético”), quem fará as honras.

O filme de Ferrara, candidato ao Leão de Ouro, acompanha um casal – Skye (Shanyn Leigh, de “Inimigos Públicos”) e Cisco (Willem Dafoe, de “Anticristo”) – que espera pelo fim do mundo, “agendado” para as 4h44 da manhã. Como o apocalipse fora previsto com antecedência, tanto os protagonistas quanto o restante da população mundial teve tempo para assimilar a ideia do extermínio coletivo, e aguardam a ocasião com surpreendente serenidade.

Ainda que pouco visto, devido a um atraso na sessão e à troca de salas de projeção, “4:44 Last Day on Earth” foi bem recebido pelos presentes. As impressões positivas destacaram a calmaria da narrativa: enquanto “Melancolia” e tantos outros filmes – inclusive, bem mais comerciais – sobre o fim do mundo realçavam o pânico e o desespero, este se foca na capacidade humana de aceitar ou se conformar com o próprio destino.

“Nós todos sabemos que podemos morrer a qualquer momento de qualquer dia”, refletiu o diretor, na entrevista coletiva com a imprensa. “O que nós fazemos neste ínterim é o que constitui a nossa vida”, completou.

“Meus filmes são sobre pessoas, sobre o pesadelo ou a alegria de viver, mesmo que sejam indivíduos do submundo ou vampiros”, definiu Ferrara, quando indagado sobre o que o levou ao tema.

Dafoe, que já trabalhou com o cineasta três vezes antes – em “Vício Frenético” (1992), “Enigma do Poder” (1998) e “Go Go Tales” (2007) -, pode confirmar a essência de Ferrara no novo trabalho. “Quando me foi apresentado o roteiro, senti que Abel estava em todas as partes”, disse Dafoe. E, sobre o hábito de trabalharem juntos, o ator definiu que é apenas “um agente de sua imaginação”. “O impulso de contar a história é dele, e ele me convoca para contá-la”, descreveu Dafoe.

No longa, o seu personagem aguarda o apocalipse com a parceira no próprio apartamento, comendo, fazendo sexo, conversando. Em um dos raros momentos externos, Cisco – um dependente químico em recuperação – vai às ruas se despedir de alguns amigos e fica tentado a se drogar. Segundo Dafoe, “a questão aí, considerando que o mundo está acabando, é se você quer partir acordado ou sedado”. “E é isso que há de tão atraente nesse cenário: a forma de lidar com questões elementares e psicológicas, desenvolvidas de uma maneira muito prática”, comentou o ator.

“4:44 Last Day on Earth” não ignora que muitos optaram por suicídio – Cisco vê um homem se lançando de um prédio da janela do apartamento -, enquanto outros tantos decidem esperar até o término natural e se despedir como podem – em uma das cenas, um entregador de comida asiático usa o laptop de Cisco para fazer um último contato com a família, e o próprio Cisco protagonizará uma despedida dolorosa da filha com quem perdeu o contato.

“É um pesadelo”, definiu o diretor. “Mas uma angústia palpável, porque inúmeras civilizações avançadas também ruíram, então não é algo que se diga: ‘Ah, meu Deus, isso jamais aconteceria’”, disse Ferrara.

Ao contrário de “Melancolia”, não é um incidente interplanetário que coloca fim à Terra, mas a própria ação do homem, que a extinguiu com seus excessos. “Esse filme tem a ver com a destruição que o homem instaurou na Terra”, garantiu Ferrara. “A culpa é nossa, e a responsabilidade é nossa. Não é um acidente ou um ato de Deus, como clamam alguns. É um ato humano”, emendou.

O filme, inclusive, se ampara em imagens de arquivo reais e resgata o trecho de uma entrevista com o ex-vice Presidente americano Al Gore, cujas palestras de conscientização sobre o aquecimento global originaram o documentário “Uma Verdade Inconveniente”.

Segundo Ferrara, Al Gore “sabe do filme, mas ainda não o viu”. Mas o resultado deve agradar ao democrata. Para assegurar a veracidade, não foi empregado qualquer tipo de efeito visual na sequência apocalíptica. A nuvem verde que dissolve o planeta foi, nas palavras do diretor, “um evento atmosférico que criamos, e não algo criado no computador”. Logo, “4:44 Last Day on Earth” atinge o que todos os filmes-catástrofe pretendem, mas poucos conseguem: tornar-se crível para o espectador e fazê-lo ponderar as suas próprias ações caso inserido neste contexto.

+ Louis Vidovix

Louis Vidovix é publicitário, leitor voraz, cinéfilo incorrigível e fã das séries de TV. Expõe suas opiniões no blog Acho Melhor Não Ler

Deixe um comentário

Add your comment below, or trackback from your own site. You can also subscribe to these comments via RSS.

Seu email nunca aparece.