Waldemar Lima (1930 – 2012)

Morreu aos 82 anos o diretor e cinematógrafo Waldemar Lima, responsável pela elogiada fotografia de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), clássico de Glauber Rocha. Ele também cuidou da fotografia de outros importantes filmes da década de 1960, como “Bebel, Garota Propaganda” e “Anuska, Manequim e Mulher”, ambos de 1968. Lima chegou a codirigir com Luiz Carlos Maciel o longa-metragem “Society em Baby-Doll” (1965), que marcou a estreia de Marieta Severo no cinema.

Waldemar Lima nasceu em Aracaju (SE) e cresceu apaixonado pela fotografia e por cinema. Durante a adolescência, começou a estudar a arte de fotografar e, quando chegou a Salvador (BA), já era fotógrafo profissional. Lá, ele frequentava o Clube de Cinema da Bahia e se relacionava com futuros cineastas, participava de debates e ouvia conselhos de gente do calibre do crítico Walter da Silveira.

Barravento

Começou a trabalhar como cinegrafista na produtora Iglu Filmes, onde adquiriu experiência com câmera na mão, enquadramentos rápidos e observar elementos que não aparecem no visor – uma qualidade que seria utilizada mais tarde.

Sua estreia no cinema foi por meio de um curta-metragem que ninguém viu. Ele pediu emprestada uma câmera e filmou “A Procissão de Bom Jesus dos Navegantes”, uma procissão marítima que acontece todo dia 1º de janeiro em Aracaju. Lima fez tudo: elaborou o roteiro, foi no meio das pessoas com a câmera no ombro, fotografou os fogos e a chegada ao mar. Porém, todo o material sumiu após ele entregá-lo para a prefeitura da cidade.

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Em 1957, Lima foi um dos fotógrafos do curta “Um Dia na Rampa”, de Luiz Paulino dos Santos, e começava a ficar conhecido entre os realizadores baianos. Em 1961, foi o operador de câmera de “A Grande Feira”, longa de Roberto Pires. Lima não se envolveu com a fotografia, administrada por Hélio Silva, mas foi adquirindo mais conhecimento cinematográfico, assim como em “Barravento”, de 1962, no qual foi assistente do diretor Glauber Rocha, responsável pelos equipamentos técnicos – a fotografia, no entanto, é de Toni Rabatoni, apesar de Lima ser creditado em alguns lugares.

Após “Barravento”, ele voltou a fazer o jornal da Iglu, mas foi convidado para assumir a fotografia de “O Tropeiro” (1964), de Aécio F. Andrade. O longa exigiu, de fato, que Lima colocasse sua experiência como fotógrafo em prática, já que ele topou com desafios como iluminar uma caverna (enquanto, nos bastidores, a equipe tinha que fugir de enormes aranhas caranguejeiras).

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Com o fim dos trabalhos em “O Tropeiro”, Lima e Rocha começaram a discutir a fotografia que seria utilizada em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964). Ambos concordavam que a saga do sertanejo Manuel (Geraldo Del Rey) tinha que contar com uma luz branca que simbolizasse a crueza da caatinga – ou seja, não poderia ser bonito. A solução encontrada pelo fotógrafo foi super-expor o filme, por meio de um negativo denso. Numa definição mais genérica, “estourar” a imagem – uma opção estética que causou controvérsia, dividiu opiniões e virou referência posteriormente.

Um fato curioso é que o resultado final não foi o aprovado nem pelo fotógrafo nem pelo diretor: a cópia do filme que foi enviada para o Festival de Cannes foi modificada, e sua luz estourada foi “corrigida”, para atender aos “padrões da Kodak”. Na hora, Glauber acabou aceitando a exigência da suavização da luz e os realizadores nunca mais tiveram a oportunidade de exibir o longa como ele havia sido idealizado. Ainda assim, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” tornou-se um marco na cinematografia nacional.

Bebel, Garota Propaganda

Waldemar Lima conquistou o respeito na indústria e teve a oportunidade de dividir a direção de um filme com Luiz Carlos Maciel. O resultado foi “Society em Baby Doll”, roteirizado pela própria dupla, baseada em peça teatral homônima. Na história, duas mulheres de um bairro suburbano do Rio de Janeiro precisam se adaptar à vida de milionários. A fotografia, é claro, ficou a cargo de Lima.

Apesar de amar o cinema, o sergipano nunca foi um técnico prolífico e, após sua estreia na direção, colaborou apenas outras seis vezes na produção cinematográfica nacional, como em “Bebel, Garota Propaganda”, de Maurice Capovilla, e em “Anuska, Manequim e Mulher”, de Francisco Ramalho Jr. – ambos de 1968 e baseados em histórias do escritor Ignácio de Loyola Brandão.

Anuska, Manequim e Mulher

Sua última investida nas telas grandes foi em “As Armas” (1969), dirigido por Astolfo Araujo.

Nos últimos anos, Lima realizou documentários comerciais e trabalhou com publicidade, além de ministrar aulas de fotografia no Studio Fátima Toledo. Ele faleceu nas quinta (19/1), após dois meses lutando contra a leucemia.

As Armas

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+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”. Escreve para alguns sites como o Pipoca Moderna e em seu blog: Cinesteta.blogspot.com

1 Comentário

  • Luiz Eduardo OlivaNo Gravatar
    25 de janeiro de 2012 | Permalink |

    Waldemar Lima prestou preciosa contribuição ao cinema mas preferia o anonimato vestido em extremada modéstia. Foi homem de trás das câmaras. Antes de sair de Sergipe,em 1955, foi o fotógrafo oficial do centenário de Aracaju. Com Glauber foi um dos pioneiros do cinema novo. Conheci no inicio dos anos 90 quando por pequeno período retornou a Aracaju,sua terra,tentando fixar-se mas, inquieto, retornou a São Paulo. Por cerca de 20 anos,mesmo à distancia, privei da sua generosa amizade. Em nosso ultimo encontro, ha cerca de um ano (quando esteve em Aracaju)ainda tinha a cabeça cheia de idéias e projetos.

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