Vou Rifar Meu Coração documenta as dores da música brega

Para realizar o documentário “Vou Rifar Meu Coração”, a diretora carioca Ana Rieper passeou pelo Brasil colhendo não só o depoimento de cantores de música romântica popular (ou brega, como queiram), mas também de seus fãs, levando para as telas o sofrimento pelo amor, seja pelo abandono, seja pela traição do companheiro(a).

Por essa vereda, Rieper alterna falas de artistas como Odair José, Wando, Amado Batista, Lindomar Castilho, Nelson Ned, Agnaldo Timóteo e representantes da nova geração, incluindo os pernambucanos Rodrigo Mell (Banda Kitara) e Walter de Afogados (“Moranguinho do Nordeste”), revelando seus interesses e inspirações na composição de, hoje, clássicos como “Moça” (Wando), “Mulher de Cabaré” e “Luz Negra” (de Roberto Muller) e “Vou Tirar Você desse Lugar” (Odair), além da música de Castilho que empresta o titulo ao documentário.

São canções que ilustram a vida de personagens reais de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e outros lugares, encontrados pela ótima pesquisa da produção. É o caso de seu Omar (prefeito de Monte Alegre, SE) e suas duas esposas, ou do jovem inexperiente que se casou com uma prostituta ao visitar um cabaré pela primeira vez, ou ainda do frentista Maguila, cuja maior dor da vida foi ser abandonado pela esposa.

Como em qualquer outro documentário sobre um tema tão vasto, sente-se ausências de alguns nome importantes da música brega, que são compensados por ótimos personagens e depoimentos. Na verdade, o problema de “Vou Rifar Meu Coração” é a constante reiteração do assunto, que chega ao esgotamento lá pelo terço final, além da inserção de um romance homossexual sem força (pelos personagens fracos), que parece estar ali apenas como o registro de uma cota sexual.

No filme, o sofrimento de amar uma pessoa do mesmo sexo está representado na inclusão de um casal gay dançando sob um globo de luz num aparente cabaré. Sobre a cena, a diretora Ana Rieper explicou, em entrevista durante o Festival de Brasília, onde o filme teve sua première, que sua intenção era incluir uma música que foi vetada.

“Há uma música de Roberto e Erasmo Carlos que foi escrita para Agnaldo Timóteo que entraria cobrindo essa imagem. Fala da vontade de gritar alto e para o infinito o amor que um sente pelo outro, mas não pode. Infelizmente não conseguimos os direitos autorais e cobrimos esta cena com uma música de Fagner”, contou.

Outro ponto potencialmente polêmico, enfatizado na entrevista, foi a ausência no filme de uma menção mais clara ao caso de Lindomar Castilho e o assassinato de sua segunda esposa, Eliane de Grammont, em 1981. Não por acaso, durante a exibição em Brasília, alguém na platéia gritou “Assassino!” quando Lindomar apareceu na tela. Ana explicou que, embora tenha tentado extrair um depoimento mais objetivo de Lindomar sobre esse assunto durante duas horas de conversa, não logrou sucesso, e relevou o caso por o foco de seu documentário estar em outra direção.

Indepedendente disso, trata-se de um filme belo, que foi premiado no Festival In-Edit em junho e é capaz de fazer a platéia cantar junto com as músicas na tela.

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Vou Rifar Meu Coração

Imagem de Amostra do You Tube
(Brasil, 2011)

 ★★★☆☆ 

+ Luiz Joaquim

Luiz Joaquim é jornalista e crítico de cinema desde 1999. Mestre em comunicação, escreve para a Folha de Pernambuco e edita o site Cinema Escrito. Além de coordenar o Cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Recife), realizou os curtas-metragens "Eiffel" (2008) e a animação "O Homem Dela" (2010).

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