Vingança encena balé de tiros, violência e poesia de Johnny To

O cineasta Johnnie To (“Eleição – O Submundo do Poder”), natural de Hong Kong, ainda é muito menos conhecido no Brasil do que deveria. Isso porque seus cerca de 50 filmes, a maior parte deles vinculadas ao gênero de ação, não estreiam nos cinemas do país. Mesmo a repercussão internacional em festivais como Cannes e Berlim mantém To pouco valorizado no nosso circuito comercial.

De qualquer forma, sempre há o DVD, caminho possível para se assistir a “Vingança”, recém-lançado pela distribuidora Califórnia. Integrante da competição do Festival de Cannes em maio de 2009, o filme tem um nome peculiar de protagonista: o cantor popular francês Johnny Hallyday, espécie de Roberto Carlos do país europeu.

Aos 66 anos, Hallyday surge em cena como uma figura estranhamente interessante, especialmente pela moldura do rosto, que parece ter sido desenhado na argila e mantido secando por anos. Ele interpreta um misterioso chef de cozinha que sai de Paris rumo a Macau para dar conta de um violento ataque à família de sua filha – que resultou na morte do marido dela, de suas duas crianças e ainda a deixou num estado semivegetativo.

Vasculhando o submundo chinês, o chef (de nome pomposo Francis Costello) se revela bem mais experiente com armas de fogo do que se imagina à primeira vista. Logo ele faz parceria com três mercenários, empregados de um mafioso local, que se comprometem em ajudá-lo a se vingar dos responsáveis pelo atentado.

Como nos melhores trabalhos de Johnnie To, as coisas acontecem rápido no enredo, transmitindo a constante impressão de que o filme obrigatoriamente deverá tomar algum novo rumo a partir de determinado instante – sempre em meio a cenas incrivelmente belas, mesmo nas típicas coreografias de tiroteios e “gags” de camaradagem entre os personagens.

To consegue extrair poesia e comoção em meio à violência mais exacerbada, tanto porque o sangue explode em evidentes efeitos digitais (o que torna tudo mais próximo do lúdico) quanto porque o diretor tem um deslumbrante senso de ritmo e cadência a cada movimento de corpo e corte de cena.

A essência de “Vingança” só se projeta, de fato, pouco depois da metade do filme, quando um elemento deliciosamente fantasioso se revela a partir de uma informação de Costello. Se até então assistíamos a uma continuidade de grandes momentos, dali adiante é possível se aproximar muito mais do protagonista e de seus novos comparsas.

Johnnie To faz esses milagres: cria empatia com figuras inicialmente detestáveis (a maior parte, assassinos de aluguel) sem nunca tirar o peso das ações de cada uma delas. Por isso, a questão do sacrifício é tão cara a seus enredos, e “Vingança” é um ótimo exemplar de sua filmografia.

Imagem de Amostra do You Tube


Vingança

(Fuk Sau, Hong Kong, 2009)

Lançamento em DVD

 ★★★☆☆ 

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+ Marcelo Miranda

Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, foi curador do Festival de Brasília 2010 e é colunista da revista eletrônica Filmes Polvo. Você pode acompanhar suas matérias também no blog do Polvo.

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