Uma Mostra de São Paulo atípica e memorável

MOSTRA A mais atípica das edições da Mostra de Cinema de São Paulo terminou na noite de quinta (3/11), com a exibição de “Fausto”, filme do russo Aleksandr Sokúrov, vencedor do Festival de Veneza em setembro. A recente morte de Leon Cakoff, fundador do evento há 35 anos, marcou as duas semanas de Mostra. Havia fotos dele espalhadas nas bilheterias, stands e escritórios do festival. A ausência de Cakoff pôde ser sentida não só por frequentadores mais assíduos, acostumados a topar com ele em sessões e ouvir dicas peculiares e obscuras do que ver na programação. Também foi possível perceber o quanto a perda do jornalista e crítico abalou a estrutura da Mostra.

Cópias atrasadas ou ausentes, mudanças constantes de horários, dificuldades de articulação com os vários segmentos que compõem uma maratona. Cakoff era um resolvedor de pepinos de primeira. Sem ele – e com a esposa, Renata de Almeida, precisando se ajustar a essa nova configuração de mundo em meio ao luto -, problemas foram inevitáveis.

Mesmo com tropeços, há de se admirar a consistência da seleção e o empenho de se manter a identidade do mais tradicional painel de cinema mundial no Brasil. Foi o ano dos clássicos, em apresentações sempre lotadas e memoráveis de cópias restauradas de “Taxi Driver” (Martin Scorsese, 1976), “Laranja Mecânica” (Stanley Kubrick, 1971), “O Leopardo” (Luchino Visconti, 1963), “A Doce Vida” (Federico Fellini, 1960) e “1900″ (Bernardo Bertolucci, 1976). Houve ainda a fundamental retrospectiva de Elia Kazan (1909-2003), cuja marca indelével no cinema dos EUA pôde ser confirmada não apenas nos notórios “Clamor do Sexo” (1961) ou “Sindicato de Ladrões” (1954), mas nos menos badalados “Terra de um Sonho Distante” (1963) e “Laços Humanos” (1945).

Dos contemporâneos, dois pareceram “amaldiçoados”, tantos os problemas de exibição e projeção nos primeiros dias: “Habemus Papam”, do italiano Nanni Moretti, e “Caverna dos Sonhos Esquecidos”, do alemão Werner Herzog. Ambos, porém, deixaram sua força, assim como o turco “Era uma Vez na Anatólia”, excepcional. Nomes de força confirmaram sua relevância, como os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne (“O Garoto da Bicicleta”), o italiano Marco Bellocchio (“Irmãs Jamais”) e o iraniano Jafar Panahi (“Isto não É um Filme”).

Das surpresas, a Argentina segue com suas pérolas de concisão. Ainda que não sejam trabalhos inesquecíveis, “Las Acacias”, de Pablo Giorgelli, e “Um Mundo Misterioso”, de Rodrigo Moreno, mostraram força estética e narrativa únicas. Da Rússia veio o inquietante “Sábado Inocente”, de Alexander Mindadze.

O Brasil, nesta edição, ficou um pouco em segundo plano. Apesar da força de “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (Beto Brant e Renato Ciasca), “As Canções” (Eduardo Coutinho) e “Sudoeste” (Eduardo Nunes), não foi um ano de títulos excepcionais.

+ Marcelo Miranda

Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, foi curador do Festival de Brasília 2010 e é colunista da revista eletrônica Filmes Polvo. Você pode acompanhar suas matérias também no blog do Polvo.

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