Os anos de chumbo são um tema caro à diretora Lúcia Murat (“Quase Dois Irmãos”) e o assunto também move “Uma Longa Viagem”, filme premiado nos festivais de Paulínia e de Gramado. Aqui, ela usa a ditadura militar (1964–1985) como mote para contar uma história pessoal: seu irmão mais novo, Heitor, foi enviado ainda adolescente para Londres para não seguir os passos de Lúcia, que estava se envolvendo com a resistência.
A própria diretora faz a narração e, para tentar fugir do “formatão” dos documentários convencionais, convocou o ator Caio Blat (“Xingu”) para interpretar os momentos dramáticos das cartas enviadas por Heitor, que rodou o mundo como um hippie, consumindo todos os tipos de drogas possíveis. O recurso, que deveria dar frescor à obra, curiosamente é o seu maior problema.
Isso porque, além de utilizar fotos e vídeos para contextualizar sua história, Lúcia contenta-se em entrevistar apenas Heitor, hoje com um quadro de esquizofrenia. Trata-se, obviamente, de um projeto extremamente íntimo e familiar, porém a diretora deixou escapar a oportunidade de utilizar o micro para falar sobre o macro: a efervescência cultural, política e social dos anos 1960 e 70.
Heitor surfou na crista da onda daqueles tempos, em que o uso de entorpecentes ia além da motivação recreativa, também servindo como veículo para a busca da expansão da consciência – não à toa, ela abre e fecha o filme com “Summertime”, de Janis Joplin. Lúcia compreende o contexto e não faz julgamentos. Pelo contrário, respeita o caminho que cada um dos irmãos mais novos seguiram em busca de um mundo melhor: Miguel, já falecido, tornou-se médico; ela foi presa política, torturada, e virou uma cineasta; e Heitor, assim como milhares de jovens pelo mundo todo, rejeitou a sociedade do consumo e correu para o Oriente, em busca de uma nova forma de vida.
Sem lenço nem documento, o rapaz deu a volta no planeta duas vezes ao longo de nove anos e se comunicou com a irmã por meio de cartas, que são representadas e lidas por Caio Blat, interpretando-o na juventude. Lúcia acertou ao recusar reconstituir a viagem até os locais reais por onde o irmão passou e, em vez disso, optar pelo uso de projeções na parede, afinal trata-se da memória (dele e dela) e as imagens distorcidas servem como metáfora. Mas a diretora sabotou a própria ideia quando fez Blat ser fiel ao texto das cartas, muito bem escritas e na forma culta, o que causa uma artificialidade quando expressas oralmente.
E não é um problema de interpretação. Blat, que já se mostrou um ótimo ator em trabalhos anteriores (“Bróder”) e foi premiado em Gramado também com este filme, é capaz de transformar-se e consegue transmitir a sensação claustrofóbica de um garoto que tem o mundo à sua frente, mas que está reprimido por uma sociedade que o enoja (seus comentários são irônicos e inteligentes, como a hipocrisia dos juízes ingleses que utilizam peruca e não permitem que os jovens tenham cabelos compridos).
Mas o Heitor de Blat é apagado pelo Heitor real, extremamente carismático e que ganha o espectador cada vez que aparece. É um contraste que incomoda mais do que aproxima, como se não fossem a mesma pessoa. Talvez essa dualidade não fosse tão desgastante se o Heitor real dividisse a tela com outros entrevistados, o que diminuiria o impacto e a comparação, mas ele é o único a aparecer. Curiosamente, o recurso da versão fictícia, que deveria injetar ânimo ao filme, tornou-se desnecessário devido ao magnetismo do próprio personagem.
No fim, “Uma Longa Viagem” resulta num filme irregular, cujas potencialidades parecem não terem sido alcançadas, como naqueles passeios para um lugar lindo, mas com chuva.
Uma Longa Viagem
(Brasil, 2011)



































1 Comentário
boa crítica leandro! :)