Um Olhar do Paraíso transforma o céu num show do Cirque du Soleil

Foi com o tenso suspense psicológico “Almas Gêmeas” que o diretor Peter Jackson demonstrou talento e chamou a atenção do mundo. Depois de abraçar projetos grandiosos como a trilogia “O Senhor dos Anéis” e “King Kong”, todos os fãs daquela pequena pérola que revelou Kate Winslet concordaram: até pela coincidência do título original, “Criaturas Celestiais”, Jackson era a escolha perfeita para adaptar o best seller “Uma Vida Interrompida” de Alice Sebold para o cinema. A história da menina brutalmente assassinada no início dos anos 70, que acompanha do céu as consequências da sua morte na vida dos familiares que deixou pra trás, pedia aquele tom melancólico de drama misturado com fantasia e, por que não, horror.

A primeira meia hora de “Um Olhar do Paraíso” – na verdade não é o paraíso e nem chega a ser o céu, mas um limbo no qual a menina permanece enquanto não deixa a vida terrena completamente – entrega esse clima nos momentos que antecedem o assassinato de Susie Salmon (a excelente Saoirse Ronan, de “Desejo e Reparação”, dando mais carisma à personagem do que a autora do livro).

A partir deste ponto de virada, o roteiro do trio Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson, entretanto, perde seu ritmo. Personagens secundários importantes no livro não são bem explorados, principalmente Ruth (Carolyn Dando), cuja mediunidade torna-se apenas receptáculo para um clímax que todos nós já vimos antes em “Ghost”.

Não querendo alongar demais a trama e repetir os erros de “King Kong”, Jackson comete o pecado de amontoar informações em duas “montagens” muito próximas uma da outra: na primeira, o pai desesperado (um Mark Wahlberg esforçado) tenta ajudar a polícia levantando suspeitos; na segunda, a vovó perua (Susan Sarandon, que virou alívio cômico de gosto duvidoso) tenta botar ordem na casa.

Isso sem contar as inúmeras montagens que mostram Susie se adaptando às belezas celestiais, naquela concepção de céu que fica entre o cenários dos Teletubbies, algum clipe lisérgico dos Flaming Lips ou a própria Terra Média que Jackson conhece tão bem. Tudo variando de acordo com o humor da falecida protagonista. É uma tendência: o cinema está passando por sua fase Cirque du Soleil – bote a culpa no “Avatar”.

O desperdício de visual só não incomoda mais do que o desperdício de elenco. A mãe traumatizada Rachel Weisz fica distante durante boa parte da trama e o ótimo Michael Imperioli (o Christopher Moltisanti dos “Sopranos”), que poderia repetir o papel de obsessivo-loser de Mark Ruffalo em “Zodíaco”, também se apaga e não diz a que veio.

Sobra para Stanley Tucci, como o assassino pedófilo, a tarefa de roubar todas as cenas em que aparece – e aí ponto para Jackson, que não precisa nem mostrar detalhes do crime para causar repulsa. O diretor também capricha em paralelismos, simbolismos, transições inspiradas e tem uma participação especial divertida, brincando de Hitchcock num cantinho da tela. Seu habitual capricho na produção fica mais evidente para quem leu o livro: as locações, por exemplo, são perfeitas.

“Um Olhar do Paraíso” tem produção executiva de Steven Spielberg, novo melhor amigo de Peter Jackson – ambos estão envolvidos na franquia do personagem Tintim. Spielberg, por sinal, já fez um céu mais modesto no subestimado “Além da Eternidade”, sem a necessidade de mensagens de auto-ajuda e canções new age na trilha.

Em “Um Olhar do Paraíso” a trilha instrumental de Brian Eno é comovente, mas você se esquece dela quando, nas cenas cruciais, canções new age inundam o céu de Susie Salmon. Seu amigo alternativo vai te corrigir: “não é Enya, é Cocteau Twins”, mas acredite, você não vai notar a diferença. Melhor ouvir “Smoke Gets In Your Eyes”, do filme de Spielberg.

Uma curiosidade: quem recebe Richard Dreyfuss no céu de “Além da Eternidade” é um anjo vivido por Audrey Hepburn. Quem recebe Susie Salmon no céu de “Um Olhar do Paraíso” é uma garotinha que se autodenomina Holly Golightly (inesquecível personagem da atriz em “Bonequinha de Luxo”). Seria uma homenagem ou apenas uma coincidência celestial sem sentido?

Imagem de Amostra do You Tube
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Um Olhar do Paraíso

(The Lovely Bones, EUA/Reino Unido, 2009)

Lançamento em DVD e Blu-ray

 ★★★☆☆ 

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+ Renato Thibes

Renato Thibes é redator publicitário, trabalha com internet, vive no cinema, ama seus DVDs e é dono do blog Registro Dissonante.

1 Comentário

  • SUSIE SALMON Identicon Icon SUSIE SALMON
    6 de setembro de 2011 | Permalink | Responder

    como é o nome da atriz que fez a susie só que pequeninnha , logo no comecinho quando ela fica olhando o globo de neve com o pinguim dentro ? preciso saber o nome dela :S

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