O diretor Sérgio Rezende escreve sobre as filmagens, bastidores, escolha de atores e equipe, e revela sua inspiração para criar “Salve Geral”, que estreia dia 2 de outubro e representará o Brasil na disputa por indicações ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. *

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Sessenta e dois personagens com fala. É isso aí, 62. Onde encontrar tanta gente talentosa e adequada aos personagens?
O ponto de partida foi fácil. Escrevi o personagem de Lucia para Andréa Beltrão. Só pensava nela, sem que ela soubesse e sem que eu soubesse se seria possível que fizesse o filme. Fui atrás de Andréa como um peregrino vai a Meca.
Não foi fácil, seus compromissos no teatro e na TV quase inviabilizaram meu sonho. Houve um momento em que para nossa dupla decepção jogamos a toalha, não ia dar. Mas num prosaico encontro numa loja de departamentos percebemos a besteira que estávamos prestes a fazer. Andréa me disse que andava sem dormir pensando no trabalho que ia deixar de fazer, eu lhe disse que ficava acordado só pensando em como fazer o filme sem ela. Ali, de pé diante de uma empacotadora de loja, percebemos que o impossível não era aceitável. Adiamos o início da filmagem em alguns meses, Andréa ajeitou sua agenda, veio para o filme e fez um trabalho extraordinário, me surpreendendo todos os dias.
Não tenho restrição alguma em trabalhar com grandes nomes do cinema e da televisão brasileira, fiz filmes com muitos deles e espero voltar a fazer. Mas no caso de ‘Salve Geral’ sempre achei que iria precisar de rostos desconhecidos do grande público. Pensava – e hoje tenho certeza, com o filme realizado – que isso daria um mistério ao filme. Se os personagens fossem entrando e o público não tivesse um reconhecimento imediato sobre eles, se seriam grandes ou pequenos, bons ou maus, galãs ou não, esses clichês que inevitavelmente – e à revelia dos próprios atores – vão se grudando às suas personas públicas.
Rostos desconhecidos, mas grandes artistas. Nunca cogitei atores não profissionais. Na minha maneira de ver o cinema não vejo nenhum sentido nisso. Fui beber na maravilhosa cena teatral de São Paulo. Atores espetaculares, basicamente dedicados aos palcos, conhecidos e reconhecidos no meio teatral, mas sem o desgaste de imagem que a televisão gera.
Ensaiamos bastante, não tive um preparador de elenco. Não tenho nada contra esses profissionais, mas para mim é como se eu convidasse alguém para fazer meu papel na noite da lua-de-mel. Não me tirem esse prazer de trabalhar com os atores.

PLANO CONJUNTO DA EQUIPE
Pela primeira vez ia rodar um filme em São Paulo. Por razões de criação e produção, resolvemos trabalhar com profissionais paulistas. A primeira parceira foi Vera Hamburger, Diretora de Arte, antiga colaboradora de ‘Lamarca’. Vera fez uma longuíssima pesquisa preliminar, meses antes da preparação formal se iniciar, formou uma equipe capaz de enfrentar a pauleira de encontrar e cenografar dezenas de locações, produzir um mundo de objetos de cena, construir quase 20 cenários. Nesse aspecto os profissionais de Paulínia, a equipe do Film Comission, foram essenciais, sugerindo locais, abrindo portas.
Para a Direção de Fotografia convidei Uli Burtin, que conheci nas filmagens de “Meu Nome Não é Johnny”, produzido por Mariza Leão, minha mulher. Discutimos longamente o formato do filme, pensava inicialmente em rodar no formato cinemascope, depois pensamos em fazer em 35 mm tradicional, até finalmente optarmos por rodar em 16 mm e finalizar digitalmente. Uli foi um parceiro maravilhoso e trouxe uma equipe de câmera, luz e maquinaria espetacular. Seu filho, o câmera Fabio Burtin, foi peça-chave na criação do filme.
Kika Lopes é a figurinista de “Salve Geral”. Fizemos muitos filmes juntos (“Mauá”, “Quase Nada”, “Zuzu Angel”). Kika é craque, alia a uma enorme criatividade a capacidade de produzir, o que era fundamental diante da necessidade de termos centenas de uniformes de presidiários, policiais de diferentes corporações, agentes penitenciários, em cenas com muita figuração.
Heloisa Rezende, Produtora Executiva – sem ela esse filme não existiria -, formou a equipe de produção em São Paulo, com André Montenegro à frente da Direção de Produção.
Marcio Câmara, o discretíssimo Marcio, pilotou microfones e mixer, gravando o som direto. A qualidade de seu trabalho permitiu que usássemos 90% do som original, com pouquíssimas dublagens.
Também de São Paulo eram as equipes de efeitos especiais e carros, fundamentais para o filme. Stanley veio com sua turma de pilotos e dublês para as cenas de perseguição, Martão comandou os efeitos de fogo, Sergio Farjala, as armas, tiros e explosões. Me deu orgulho, como profissional do cinema brasileiro, ver o nível de competência desses profissionais.
Martin Macias, Juliana Mendonça e Dona Meirelles criaram o visual dos personagens. Um trabalho minucioso com as protagonistas Lucia e Ruiva e com as dezenas de outras personagens. As tatuagens dos presidiários, a rosa no pescoço de Zé, a estrela na cabeça de Tirso, o rosto de Pedrão, a cobra do Professor, o antebraço de Chico, refeitas a cada dia, são impressionantes.
Do Rio de Janeiro veio a maior parte da equipe de direção, os Primeiros Assistentes Rafael Salgado e Lamartine Ferreira, a segunda Assistente Julia Rezende; mas são paulistas a Continuísta Florence e o Terceiro Assistente Yuri.
Clique aqui para ler a terceira parte, em que o diretor fala das locações, da montagem e da trilha de “Salva Geral”


























