O título da nova série “Once Upon a Time” adianta a proposta: “Era Uma Vez”, tal como o início de todos os contos-de-fada. Um passo inevitável para a TV, vide que o cinema já embarcou na moda da carochinha: há inúmeros projetos engatilhados nesse estilo, para se somar a “Espelho, Espelho Meu”, lançado no fim de semana.
A intenção do programa, que estreia nesta quinta (12/4) no Brasil, ás 21h no canal pago Sony, não é apenas fazer uma releitura dos clássicos, e sim utilizá-los para seus próprios fins narrativos. Na trama, personagens do porte de Branca de Neve e seu Príncipe Encantado são inseridos no mundo real – mas não ao estilo do pueril “Encantada” (2007), dos estúdios Disney. Vítimas de uma maldição, esses personagens são mandados ao nosso plano sem recordações do que já foram um dia.
A narrativa, da mesma forma que em “Lost”, se alterna entre dois tempos – o passado fabuloso e o presente realista -, e em ambas os atores interpretarão versões diferentes de um mesmo papel.
A semelhança com “Lost” não é mera coincidência. Os criadores de “Once Upon a Time”, Edward Kitsis e Adam Horowitz (que escreveram “Tron: O Legado”), foram roteiristas e produtores executivos da série misteriosa, e citam Damon Lindelof, a principal autoridade de “Lost”, como uma espécie de “padrinho” da série dos contos.
Foi Lindelof quem aconselhou a dupla na preparação do episódio piloto. “O nome dele não está no show, mas seu DNA certamente está”, admitiu Kitsis, em entrevista realizada no começo do ano. “Mas ele também queria que isso fosse uma coisa nossa, então, apesar da ajuda, às vezes ele era rígido e fazia com que nos virássemos”, completou.
O resultado foi descrito pelos críticos americanos como afetuoso e apropriado para todas as idades. Comparações surgiram, entretanto, com os quadrinhos “Fables”, escritos por Bill Willingham a partir de uma premissa bastante similar.
Os pontos em comum também são assumidos pelos criadores. “Os dois projetos se passam em terrenos parecidos, mas sentimos que estamos contando uma história diferente”, justificou Kitsis. “Além do mais, Willingham é bem mais talentoso que nós. Se um décimo das pessoas que gostaram do trabalho dele nos assistirem, ficaremos felizes”, emendou.
A emissora está apostando em mais que um décimo de público: o canal ABC investiu somas consideráveis na produção. “Eles tem sido incríveis, porque sabem que não podemos mostrar um piloto ótimo e depois diminuir o ritmo”, explicou Kitsis. “E a nossa meta é manter o nível ao longo de toda a temporada”, encerrou. O que, de fato, tem acontecido, com os melhores episódios exibidos a partir da metade do primeiro ano de produção.
As gravações em Vancouver, cidade canadense bastante fotogênica e com um quê de cinematográfica, têm sido tanto economicamente viáveis quanto funcionais em relação à construção da cidade fictícia de Storybrooke. É nesse local que vivem os personagens, todos sem noção de suas verdadeiras identidades.
Branca de Neve (Ginnifer Goodwin, da série “Big Love”) é, nessa realidade, Mary Margaret, uma moça com um vazio muito grande a preencher. Seu Príncipe Encantado (Josh Dallas, de “Thor”) surge aqui em coma, em uma cama de hospital, e Mary, obviamente, sequer faz ideia de quem ele é. Poucas pessoas sabem que os habitantes daquela cidadezinha são na verdade personagens encantados. Uma delas é a Rainha Má (Lana Parrilla, da série “Spin City”), que no mundo real é a toda poderosa Prefeita de Storybrooke.
Jennifer Morrison, conhecida do público como a Dra. Cameron da série “House”, vê-se no meio disso tudo. Caçadora de recompensas, ela é a primeira pessoa que consegue entrar na cidade em muitos anos, e sua conexão com a fantasia é o elemento que coloca a trama em cheque. O garotinho Jared Gilmore é quem ajuda Morrison a enxergar a magia. Um belo dia, ele bate em sua porta dizendo que ela não só é sua mãe, como também filha da Branca de Neve. E só ela pode quebrar a maldição de Storybrooke.
“O show não será sobre quebrar a maldição”, alerta Horowitz, explicando como eles pretendiam expandir essa premissa por várias temporadas. “Essa é só uma pequena parte, pois a série é sobre esses personagens e as suas vidas e o que eles almejam. E vamos explorar esses personagens enquanto as pessoas quiserem”, garantiu o criador.
Esse desenvolvimento será feito em uma transição constante entre ambas realidades. “Estamos mais interessados em saber porque a Rainha Má odeia Branca de Neve, ou porque o anão Zangado é zangado. Amamos essa ideia de ir para lá e para cá entre esses universos e informar os personagens do que eles querem na vida”, disse Horowitz.
Por mencionar o anão Zangado, o produtor entrou no terreno dos direitos autorais: como todos os contos moldados pela Disney, muitas referências indispensáveis da história de Branca de Neve pertencem ao estúdio. Horowitz, porém, afirmou que a Disney, dona do canal ABC, foi surpreendentemente aberta em relação a isso. “Eles foram muito receptivos a nos deixaram fazer a nossa própria interpretação dos personagens”, confirmou o criador.
De fato, o Grilo Falante visto em “Pinóquio” também será aproveitado em “Once Upon a Time” – e vertido naquilo que os roteiristas imaginam: um psicanalista. “Iremos o mais longe que pudermos”, falou Horowitz.
Os atores que o digam: a Branca de Neve que Goodwin interpreta é bem diferente daquela que o público já conhece. Em sua realidade fantasiosa, por exemplo, a personagem tem a chance de empunhar o escudo e a espada, ao estilo do que será feito no filme “Branca de Neve e o Caçador”, que trará Kristen Stewart (“A Saga Crepúsculo”) no papel da heroína.
“É mágico e inspirador”, descreveu Goodwin. “E interpretar essas duas versões da personagem é uma situação única. É preciso perceber as motivações dela e dos outros também”, complementou a atriz.
O mesmo se aplica ao restante do elenco. Segundo Lana Parrilla, que interpreta a Rainha Má e a Prefeita Regina, sua primeira personagem “será muito poderosa e externaliza tudo, enquanto a outra mascara as coisas e é mais complexa”.
Já Jennifer Morrison será vista apenas em Storybrooke, mas também aponta uma composição cuidadosa. De acordo com a atriz, sua personagem “teve uma vida dura, pois foi abandonada quando criança e criada em lares adotivos”. “Depois de tudo o que ela passou, tornou-se bem durona por fora”, contou Morrison.
Caberá ao garotinho Henry, interpretado pelo novato Gilmore, amolecer esse coração – o que não deve ser tão difícil, já que, na entrevista coletiva com a imprensa, o menino manipulou as atenções com seus gracejos involuntários. Quando perguntado sobre as suas lembranças dos contos de fada requentados em “Once Upon a Time”, Gilmore começou a responder: “Conheço todos, porque quando eu era criança…”. Sob a explosão de risos, ele se corrigiu: “Quis dizer, quando eu era ‘mais novo’”.
Com 18 episódios já exibidos nos EUA, “Once Upon a Time” conseguiu surpreender e superar expectativas. Histórias tão conhecidas quanto as da Bela e a Fera, João e Maria, Rumplestiltskin, Pinóquio, Chapeuzinho Vermelho e Chapeleiro Louco foram revisitadas com grande criatividade. E embora as crianças possam claramente identificar os personagens, suas histórias surgem bastante modificadas, refletindo o fato de que todos existem num mesmo reino encantado, são vizinhos e interagem entre si.
Algumas histórias chegam a ser comoventes, como a de Bela e de Zangado, que têm seus corações partidos irremediavelmente. A grande sacada dos roteiristas é que, nesta adaptação dos contos de fadas, os finais felizes foram amaldiçoados e histórias sombrias tomaram seus lugares. Sombrias, no sentido de complexas. Adultas até. Não por acaso, a série já foi renovada para a 2ª temporada e mantém sua audiência querendo mais – é atualmente a série mais vista dos domingos, nos EUA.






































