MOSTRA Diretor bissexto, o ator francês Mathieu Amalric lançou “Tourneé” entre os filmes em competição na 63ª edição do Festival de Cinema de Cannes. Mais conhecido do grande público como o vilão do último filme de 007, “Quantum of Solace”, além de protagonista de “O Escafandro e a Borboleta”, que lhe valeu um prêmio em Cannes há três anos, Mathieu conta a história de um promotor de eventos que viaja com um grupo de strippers americanas.
Para promover sua premiere, ele encheu o tapete vermelho de Cannes com várias strippers, intérpretes de si mesmas na produção. Por conta do filme e do alvoroço, a até então desconhecida Julie Atlas Muz foi parar na capa de vários jornais no dia seguinte. Não por seu talento, mas pela falta de pudor. Seu vestido branco escondia apenas a parte da frente de seu corpo, deixando quase todo o seu bumbum à vista.
Apostando no fetichismo, o filme tenta ser um cartão de visitas do estilo burlesco – ou new burlesque, já que se vive um revival da cena original. No burlesco, a nudez é apenas parcial e não há dança do poste. Em seu lugar, sobra fantasia e imaginação. Trata-se de uma cena fetichista, inspirada nas strippers famosas dos anos 50, como Betty Page, que encenavam personagens em suas apresentações – a guerreira de biquíni de tigre, a dominatrix de chicote, etc. São pin-ups de carne e osso. E, em “Tournée”, muito mais carne que osso.
“Tournée” inspira-se no livro de memórias de uma ex-atriz de teatro de revista. “Ao conhecer o trabalho da Colette, senti que era possível criar um filme de ficção com desordem, desobediência e política, sem precisar dar alguma mensagem”, disse o diretor, na conversa com jornalistas realizada em Cannes.
Além de dirigir, Amalric também protagoniza o longa. Vive um homem em crise, que deixou mulher, filhos e se queimou com todo mundo antes de querer voltar a seu país natal. Ex-produtor de televisão, tenta se reerguer agenciando um grupo americano de strip-tease de cabaré, chamado Nouvelle Burlesque, que sonham em se apresentar em Paris. As strippers são balzaquianas e acima do peso. Parecem personagens de Federico Fellini. Mas mantém seu apelo sexual e uma beleza anticonvencional.
O filme é quase um documentário amarrado por um personagem fictício. Apenas o diretor e protagonista interpreta um papel – o de canalha. Todas as strippers vivem a si mesmas, usando seus nomes de guerra, e os shows que aparecem na tela foram filmados durante apresentações reais, que Amalric promoveu em cidades francesas.
O roteiro tenta transmitir as inquietações do grupo, a solidão num país estranho e os conflitos com o produtor desiquilibrado. Mas ao transformar o enredo em ficção, o diretor esbarra num impasse. Não consegue resolver o drama emocional de suas musas, caminhando para um beco sem saída que se anuncia desde o primeiro diálogo.
Turnê
(Tournée, França, 2010)


































