Morreu o cineasta Tony Scott, que dirigiu grandes sucessos do cinema, como “Top Gun – Ases Indomáveis” (1986), “Um Tira da Pesada II” (1987) e “Inimigo do Estado” (1998). Ele morreu neste domingo (19/08), aos 68 anos, após saltar da ponte Vincent Thomas, em Los Angeles, EUA. Algumas reportagens relatam que ele tinha sido diagnosticado com um tumor inoperável no cérebro. Dois dias antes, porém, ele trabalhou normalmente com Tom Cruise no projeto da continuação de “Top Gun”, que seria filmada em breve.
Anthony David Scott foi o terceiro filho de Elizabeth e Francis Percy Scott e nasceu em 1944, 7 anos depois de seu irmão famoso Ridley (diretor de “Alien”, “Blade Runner” e “Gladiador”), na cidade de North Shields, na Inglaterra. Os dois irmãos se formaram em Belas Artes no Royal College of Art. A intenção de Tony era se tornar pintor, mas Ridley o influenciou a seguir para a publicidade e, posteriormente, para o cinema.
Tony Scott em Boy and Bike
A primeira experiência de Tony com as câmeras aconteceu na frente delas, como o protagonista de “Boy and Bycicle” (1965), curta de estreia de seu irmão, filmado enquanto ainda estudava no Royal College of Art.
Ridley começou a ganhar dinheiro com comerciais de TV e logo montou uma produtora, convencendo Tony a trabalhar com ele. “Tony queria fazer documentários antes”, relatou Ridley, há alguns anos. “Eu disse a ele ‘Não vá para a BBC, venha para a minha área antes.’ Eu sabia que ele gostava de carros, então eu disse ‘Venha trabalhar comigo, e em um ano você conseguirá uma Ferrari.’ E ele conseguiu.”
Fome de Viver
Tony dirigiu várias propagandas antes de fazer sua estreia no cinema como diretor. “Fome de Viver” (The Hunger, 1983) não foi um sucesso comercial, mas se tornou cultuadíssimo. Com a participação da banda Bauhaus, David Bowie no papel de vampiro e cenas de lesbianismo entre Catherine Deneuve e Susan Sarandon, o filme se notabilizou como representante cinematográfico da cena gótica que despontava na música inglesa do começo dos anos 1980. Mas a cena ainda era muito underground no resto do mundo e o filme fracassou nas bilheterias, além de ser ridicularizado pela crítica.
“Meu nome foi tirado da vaga do estacionamento”, contou Scott sobre o que ocorreu depois do fracasso do filme. “Eu não conseguia falar com ninguém ao telefone. Ninguém teve a coragem de dizer que eu tinha sido despedido.” Mas após o filme se tornar cult, o cineasta até produziu uma série de TV chamada “The Hunger”, inspirada no longa, que durou duas temporadas a partir de 1997.
Com Tom Cruise, no set de Top Gun
Ele passou mais um tempo dirigindo propagandas, e uma delas, realizada para veículos da marca sueca Saab, chamou a atenção dos produtores Jerry Bruckheimer e Don Simpson, que estavam realizando um filme sobre um piloto naval em treinamento. Foi assim que ele foi contratado para dirigir o marco de sua carreira: “Top Gun – Ases Indomáveis” (Top Gun, 1986), estrelado por Tom Cruise.
No início, ele confessou que não conseguia imaginar o filme. “Eu estava pensando em fazer ‘Apocalypse Now’ em um porta-aviões”, conta. “Mas, então, eu entendi. Aquilo tinha que ser rock’n'roll, jatos prateados no céu azul, caras atraentes.” O filme, produzido a um custo de U$S 15 milhões, arrecadou mais de U$S 350 milhões nas bilheterias mundiais, e não só catapultou o diretor, mas também lançou Tom Cruise como astro de ação.
Com Tom Cruise, no set de Dias de Trovão
Após o sucesso de “Top Gun”, a carreira de Scott literalmente decolou. No ano seguinte, ele assumiu uma das prioridades do estúdio Paramount: dirigir Eddie Murphy em “Um Tira da Pesada II” (Beverly Hills Cop II, 1987), continuação do sucesso de 1984. O filme não fez tanta bilheteria quanto o primeiro, mas foi muito mais bem-sucedido que o terceiro, faturando cerca de US$ 300 milhões ao redor do mundo. Mas o sucesso numa continuação rendeu a Scott a fama de ser um diretor comercial, algo que nunca mais o abandonou.
A escolha de seu próximo projeto refletiu uma tênue reação ao rótulo. Ele decidiu realizar “Revenge – A Vingança” (Revenge, 1990), estrelado por Kevin Costner, um filme bem mais sombrio que os que havia dirigido até então. Pouco memorável em seu convencionalismo, provou-se seu maior fracasso, tanto estético quanto comercial.
Com Denzel Washington, no set de Maré Vermelha
No começo dos anos 1990, Scott decidiu parar de relutar, buscando definir seu nicho no cinema comercial. Sua paixão por velocidade e máquinas, que já havia ajudado “Top Gun” a se tornar um fenômeno, o motivou a retomar a parceria com Tom Cruise. Em vez de aviões, “Dias de Trovão” (Days of Thunder, 1990) trouxe carros de corrida. A história de um jovem piloto da NASCAR envolvia muitos veículos, mas foi uma australiana ruiva que acabou ofuscando a produção. O filme marcou a estreia de Nicole Kidman em Hollywood, e o começo de seu longo relacionamento com Tom Cruise.
Com esses primeiros filmes, Tony Scott descobriu a atração do ritmo vertiginoso. Mas o elemento que faltava em seu cinema só apareceu em 1991, quando filmou o seu primeiro thriller de ação. Entre tiros e explosões, “O Último Boy Scout” (The Last Boy Scout, 1991), estrelado por Bruce Willis, abriu caminho para o tipo de filme que se tornaria marca registrada do diretor.
Com Will Smith, no set de Inimigo de Estado
Seu último cult foi “Amor À Queima Roupa” (True Romance, 1993), escrito por Quentin Tarantino em uma de suas primeiras incursões em Hollywood. O thriller criminal contrasta com os demais representantes do gênero em sua filmografia pela verbosidade dos diálogos e humor negro das cenas, características mais do cinema de Tarantino que de Scott. Uma curiosidade é que o diretor queria comprar dois roteiros do jovem iniciante, mas o roteirista vendeu apenas um e usou o dinheiro do negócio para filmar ele próprio o outro, chamado “Cães de Aluguel”.
A partir daí, Scott mergulhou nos thrillers de ação, cultivando um estilo próprio e elegante, que o reuniu a grandes astros como Gene Hackman, em “Maré Vermelha” (Crimson Tide, 1995), Robert De Niro, em “Estranha Obsessão” (The Fan, 1996), Will Smith, em “Inimigo do Estado” (Enemy of the State, 1998), que também tinha Hackman no elenco, e “Jogo de Espiões” (Spy Game, 2001), com Robert Redford e Brad Pitt.
Com Robert Redford e Brad Pitt, em Jogos de Espiões
Com “Maré Vermelha”, Scott também encontrou o elemento que iria materializar a tão elusiva autoralidade de seu cinema, a presença simbólica que serviria quase como sua assinatura em suas obras finais: seu representante nas telas, o ator Denzel Washington. A parceria com o ator se estendeu por mais quatro filmes: “Chamas da Vingança” (Men on Fire, 2004), “Déjà Vu” (2006), “O Sequestro do Metrô 123″ (The Taking of Pelham 1 2 3, 2010) e o último filme que o cineasta dirigiu, “Incontrolável” (Unstopabble, 2011). Com a exceção de “Domino – Caçadora de Recompensar” (Domino, 2005), todos os filmes de Scott desde 2004 trouxeram Washington como protagonista.
Para completar seu estilo, Tony Scott elegeu um boné de beisebol vermelho e desbotado, que ele trazia na cabeça tanto em eventos quanto em suas filmagens. Ele também adotou uma bermuda jeans e um colete de pescador, que o acompanharam por diversos sets. Mesmo assim, diziam que ele não tinha estilo algum. Scott discordava. “É questão de energia, de impulso, eu acho cinema muito empolgante”, comentou sobre sua grande característica, a câmera frenética. “A empolgação vem dos atores – eles que comunicam o drama real – e o que quer que eu possa fazer com a câmera é só a cereja no bolo.”
Com Denzel Washington, no set de Chamas da Vingança
Ao longo da carreira, Scott seguiu forjando seu próprio estilo, numa rota que lhe fez acumular sucessos de bilheteria e críticas negativas. E, de modo consistente, encerrou seu legado de cineasta com “Incontrolável”, filme que reuniu os três grandes vértices de sua filmografia: um thriller de ação com velocidade desenfreada e estrelado por Denzel Washington. Curiosamente, pela primeira e última vez, seus esforços foram saudados com elogios rasgados da imprensa. O filme aparentemente simples, de história despretensiosa, tornou-se a grande apoteose de sua vida.
Nos últimos anos, ele também se mostrou um produtor versátil no cinema e na TV. A produtora que ele e Ridley Scott montaram em 1995, a Scott Free Productions, realizou para a HBO a biografia de Winston Churchill, “Into the Storm” (2007), além de produzir a minissérie “The Pillars of the Earth” (2010) e as séries “Numb3rs”, que durou 6 temporadas, e “The Good Wife”, que foi recentemente renovada para sua 4ª temporada.
Com Denzel Washington, no set de Déjà Vu
No cinema, ele produziu obras ambiciosas, como o western “O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford” (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, 2007), que teve duas indicações ao Oscar, mas também o inóquo filme de ação “Esquadrão Classe A” (The A Team, 2010). Também foi produtor da recente ficção científica dirigida por seu irmão, “Prometheus” (2012), e da estreia da sobrinha Jordan Scott, o excelente “Sedução” (Cracks, 2009). Além disso, estimulou o cinema indie, bancando projetos queridinhos da crítica, como “Cyrus”, dos irmãos Duplass, e “Corações Perdidos” (Welcome to the Rileys, 2010), estrelado por Kristen Stewart. Vários projetos que deixou encaminhados valorizavam justamente este tipo de cinema, feito com baixo orçamento, sem explosões ou efeitos especiais, o oposto de sua própria filmografia.
O diretor Duncan Jones (“Contra o Tempo”), filho do mesmo David Bowie de “Fome de Viver”, trabalhou como operador de câmera para Scott na série “The Hunger” e rendeu sua homenagem ao diretor, lembrando que lhe deve sua carreira. “Tony foi um homem muito amável que me acolheu e fez com que eu me interessasse pelo cinema”, escreveu. Seu depoimento encontrou eco em diversos outros cineastas, como Edgar Wright (“Scott Pilgrim Contra o Mundo”), que assumiu no Twitter ter Scott como inspiração.
Com Denzel Washingto, no set de O Sequestro do Metrô 123
Tony Scott amava o que fazia. Mas morria de medo de fazer, com tantas pedradas que tomou da crítica. “A coisa mais apavorante que eu faço na vida é levantar e dirigir filmes”, ele confessou em uma entrevista recente. “Mas é uma coisa boa. Esse medo me motiva e eu gosto dele”. Não por acaso, uma das atividades que Scott praticava para relaxar era escalar pedras. Sua morte, por aparente suicídio, se torna ainda mais chocante diante da forma como ele viveu sua vida.
O diretor era casado com sua terceira esposa, a atriz Donna Scott, que participou de vários de seus filmes, e além da viúva, deixa os filhos gêmeos Max e Frank, de 12 anos de idade.






































