Tony Martin (1913 – 2012)

Morreu Tony Martin, cantor que imortalizou clássicos da música americana com seu barítono pop e fez sucesso em participações nos musicais da era do ouro de Hollywood. Ele faleceu de causas naturais na sexta (29/7), aos 98 anos de idade, em sua casa em Los Angeles.

Sua popularidade durou duas décadas, entre os anos 1930 e 1950, quando sua voz foi eternizada em cações como “Stranger in Paradise”, “La Vie en Rose”, “I’ll See You in My Dreams” e “Fools Rush In”. Ao longo da carreira, Martin apareceu em cerca de 30 filmes, muitas vezes apenas para cantar, mas também conquistou destaque em clássicos como “A Vida É um Teatro” (1941) e “Casbah” (1948).

Música no Meu Coração, com Rita Hayworth

Ele também conquistou grandes estrelas de Hollywood em sua vida amorosa. Sua primeira esposa foi a estrela da 20th Century Fox Alice Faye (“Aconteceu em Chicago”), num casamento que durou de 1937 a 1941. Namorou deusas como Yvonne De Carlo (“Baixeza”) e Lana Turner (“A Caldeira do Diabo”). E acabou desposando a musa Cyd Charisse, de “Cantando na Chuva” (Singing in the Rain, 1952) e “A Roda da Fortuna” (The Band Wagon, 1953), considerada “as pernas mais belas do cinema”, com quem permaneceu casado por 60 anos, de 1948 até a morte da atriz, em 2008.

Tony Martin nasceu Alvin Morris, no Natal de 1913, em San Francisco. Ele ganhou seu primeiro instrumento como presente de sua avó, um saxofone, aos 10 anos de idade. Mais tarde, disse que aquele foi seu passaporte para fora da pobreza. Ele tentou se estabelecer tocando com big bands, mas o sucesso só veio quando decidiu cantar.

Aí Vem o Amor, com Alice Faye

Martin arranjou emprego como cantor de rádio em Los Angeles nos anos 1930. A voz grave já impressionava. Mas, pessoalmente, ele causava ainda melhor impressão. O que era um belo cartão de visitas em Hollywood. Alto, bonito e de boa voz, logo conseguiu um contrato com a 20th Century Fox, e passou a aparecer em filmes ao lado dos grandes nomes da época.

Martin participou de nada menos que oito filmes em 1936, seu primeiro ano em Hollywood, entre eles “Nas Águas da Esquadra” (Follow the Fleet), com Fred Astaire e Ginger Rogers, “Loucuras de Estudantes” (Pigskin Parade), com Judy Garland, e “A Pobre Menina Rica” (Poor Little Rich Girl, 1936), com Shirley Temple. Neste musical, acabou conhecendo sua futura esposa, Alice Faye, que também estava no elenco.

A Vida É um Teatro, com Lana Turner

Ao lado de Alice Faye, fez ainda “Aí Vem o Amor” (You Can’t Have Everything, 1937) e “Três Moças Sabidas” (Sally, Irene and Mary, 1938), somando quase 20 produções em quatro anos na Fox. Mas nenhum filme o projetou como gostaria. O que o fez decidir mudar tudo na sua vida. A começar por sua própria vida. “Para a maioria das pessoas, eu era o Sr. Alice Faye”, ele explicou, mais tarde, sobre as razões de seu divórcio e a decisão de se afastar do estúdio em que sua ex trabalhava.

Foi virar protagonista com a Columbia, vivendo o par romântico de Rita Hayworth em “Música no meu Coração” (Music in my Heart, 1940). O filme explorava a beleza de Hayworth, mas foi a voz de Martin que chamou a atenção. A música “It’s a Blue World” foi indicada ao Oscar de Melhor Canção. Curiosamente, Martin causou ainda mais impacto no papel de coadjuvante da extravagância musical “A Vida É um Teatro” (Ziegfeld Girl, 1941), da MGM, ao cantar “You Stepped Out of a Dream” para Judy Garland, Hedy Lamarr e Lana Turner. O filme é até hoje lembrado pelas coreografias exuberantes do diretor Busby Berkeley e por esta canção, num dos números musicais mais famosos do cinema.

Casbah, com Peter Lorre

Seu filme seguinte, “A Grande Loja” (The Big Store, 1941), o colocou ao lado dos Irmãos Marx, mas sua ascensão foi interrompida pela 2ª Guerra Mundial.

A época foi marcada por um escândalo. Ele tentou comprar um cargo de oficial na Marinha, mas a tentativa de suborno se tornou pública e, para limpar seu nome, Martin optou em servir como soldado raso na Força Aérea. Acabou condecorado e tocando na famosa banda militar do capitão Glenn Miller. O hiato foi longo, até 1945, porém seu grande destaque ainda estava por vir. Depois da guerra, assinou com a gravadora Decca, para quem gravou 25 discos de sucesso.

Casbah, com Yvonne De Carlo

Em 1948, Martin teve a chance de estrelar um blockbuster com o romance exótico “Casbah”, em que viveu o famoso ladrão francês Pepe Le Moko, papel que já tinha sido desempenhado no cinema pelos lendários Charles Boyer (“Argélia”, 1938) e Jean Gabin (“O Demônio da Algéria”, 1937). Seu desempenho se tornou memorável, graças ao embate entre seu personagem e o inspetor interpretado por Peter Lorre (“Casablanca”). Vivendo um amor bandido com Yvonne De Carlo (série “Os Monstros”) em locações românticas da Algéria, ele se tornou mais popular do que nunca.

Com status de estrela, Martin estrelou “Vinho, Mulheres e Música” (Two Tickets to Broadway, 1951) com Janet Leigh, cantou uma música no clássico noir “Só a Mulher Peca” (Clash by Night, 1952), de Fritz Lang, foi o par romântico de Esther Williams em “Fácil de Amar” (Easy to Love, 1953) e dividiu “O Rei da Confusão” (Here Come the Girls, 1953) com Bob Hope. Ele também ganhou um programa de TV, “The Tony Martin Show”, em que cantava e conduzia entrevistas entre 1954 e 1956, o que lhe rendeu uma indicação ao Emmy.

Com a esposa Cyd Charisse

Mas o gênero musical estava entrando em decadência, ao mesmo tempo em que seu estilo de canção saía de moda com a chegada do rock’n'roll. Sem o interesse de Hollywood, Martin manteve a carreira ativa nos anos 1960 ao sair em turnê com sua mulher Cyd Charisse, inspirando-se nos espetáculos de cabaret. Nos shows, ela cantava e Charisse dançava. A ideia deu certo e eles continuaram se apresentando juntos por anos e anos, até a morte da parceira.

Martin apareceu pela última vez no cinema numa pequena figuração em “Dear Mr. Wonderful” (1982).

Tony Martin

+ Marcel Plasse

Marcel Plasse é jornalista, participou da geração histórica da revista de música Bizz, editou as primeiras graphic novels lançadas no Brasil, criou a revista Set de cinema, foi crítico na Folha, Estadão e Valor Econômico, escreveu na Playboy, assinou colunas na Superinteressante e DVD News e é o editor do site Pipoca Moderna

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