“O criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente”, diz Dostoievski em sua obra mais celebrada, “Crime e Castigo”. E a partir desta ideia de patologia que o cineasta norueguês Morten Tyldum (“Buddy”) desenvolve Roger Brown, protagonista do thriller “Headhunters”.
Encarnado com muita desenvoltura e entrega pelo ator Askel Heinne (“Max Manus”), Roger é um sujeito confortável em sua desonestidade. Ele é um headhunter profissional, o responsável pelo recrutamento dos candidatos aos cargos mais altos de sua empresa, mas mantém outra ocupação bem mais lucrativa – nas horas vagas, Roger invade as residências dos candidatos para furtar obras de arte.
Sua justificativa é prover para a esposa o alto padrão de vida que acredita ser responsável pelo sucesso do relacionamento, já que ele não tem um terço da beleza da mulher. No entanto, Roger só proporciona uma vida de luxo para Diana (a crítica de cinema Syvonne Macody Lund) porque não quer lhe dar o que ela verdadeiramente deseja: um filho. E nem toda a devoção à esposa o impede de traí-la. Afinal, seu 1,68m de altura faz a bela Diana se curvar toda vez que vai beijá-lo, e ele “precisa” de algo para se reafirmar. Sua síndrome de Napoleão é intensificada com a chegada do charmoso ex-militar Clas Greve (Nicolaj Coster-Waldau, da série “Game of Thrones”), que se torna íntimo de sua mulher.
É cheio de satisfação pessoal que Roger invade o apartamento de Clas para roubar uma pintura que vale milhões. E é justamente aí que começa sua queda em espiral rumo ao inferno.
Baseada em romance de Jo Nesbø, um dos nomes-chaves da nova geração do suspense nórdico (tendência que estourou com o sucesso de “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”), a trama atira o personagem em uma sucessão de situações que testam seus limites e fazem com que ele encare a si mesmo. Essa jornada excruciante faz cair por terra tudo o que Roger acreditava ter em seu controle e, justamente por isso, vilipendiava.
Morten Tyldum equilibra bem as doses de crime e de castigo, e livra o filme, na maior parte do tempo, da indulgência e o julgamento de valores. O perdão é alcançável, mas a um preço muito alto.
Assim como no romance de Dostoievski, que menciona a passagem bíblica de Lázaro, renascido dos mortos, antes da absolvição do criminoso, a remissão dos pecados de Roger só é possível quando este renasce. Isto acontece em dois momentos distintos do filme, quando o protagonista tem de se despir, literalmente, e aceitar sua mudança. Em ambas as cenas, Roger está em um lago, o que reitera o caráter de batizado. Afinal, ele não é mau, mas está doente – o que se reflete em seu corpo, cada vez mais ferido.
Boa parte do sucesso da trama está em o protagonista não ser um bom moço convicto. O espectador se envolve com ele porque se vê refletido em suas fraquezas e se identifica com suas motivações, e é nisto que Tyldum alicerça a trama para conceber o ritmo de tensão alucinante, algo que raramente os blockbusters hollywoodianos conseguem atingir na mesma intensidade.
O diretor aplica com muita eficiência todas as convenções que as produções americanas consagraram. Mas o que diferencia o thriller norueguês dos outros tantos centrados numa perseguição extrema é que, antes de alavancar a ação, todos os dramas são muito bem trabalhados.
E dá-lhe perseguições, lutas, fugas, reviravoltas e muita violência. “Headhunters” não escapa das maldições clássicas do subgênero, como as hipérboles que desafiam a lógica (e por tabela a credulidade do espectador). Porém, nada disso consegue tirar a tensão espetacular, que Hollywood há muito banalizou. Por sinal, Hollywood já está trabalhando no remake…
Headhunters
(Hodejegerne, Alemanha/Noruega, 2011)



































