Morreu o premiado cineasta grego Theodoros Angelopoulos, diretor de clássicos como “Paisagem na Neblina” (1988), “Um Olhar a Cada Dia” (1995) e “Uma Eternidade e Um Dia” (1998). Ele tinha 76 anos e faleceu vítima de uma hemorragia cerebral após ser atropelado por uma motocicleta enquanto caminhava em direção ao set de filmagens de seu novo filme, “The Other Sea”, que abordaria a atual crise financeira que vive a Grécia.
Angelopoulos realizou seu primeiro longa-metragem em 1970 e é considerado um dos grandes nomes do chamado “novo cinema” grego. Ao todo, dirigiu 20 produções e conquistou importantes prêmios, como a Palma de Ouro em Cannes e o Leão de Prata e o de Ouro no Festival de Veneza. Pelo conjunto de sua obra, ele também foi agraciado em 2009 com o Prêmio Humanidade pela organização da Mostra de São Paulo – festival que exibe seus trabalhos de 1984.
Reconstituição
Theo Angelopoulos nasceu no dia 27 de abril de 1935 em Atenas e conviveu com a ocupação nazista da Grécia durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945) e a guerra civil grega 1946-1949 – dramas que se refletiram em sua filmografia. Em 1961, o jovem trocou a universidade de sua cidade natal pela Sorbonne, na França, a fim cursar Direito. Seu interesse em cinema, no entanto, falou mais alto e ele abandonou o curso para se matricular na escola francesa de cinema IDHEC (Institute des Hautes Études Cinématographiques).
Retornou à Grécia como crítico de um jornal de esquerda, ao mesmo tempo em que dava os primeiros passos como realizador com o incompleto “Peripeteies me Tous Forminx”, em 1965. Muitos consideram, portanto, o curta “A Emissão” (Ekpombi, 1968) sua estreia no cinema.
A Viagem dos Comediantes
Seu primeiro longa-metragem foi “Reconstituição” (Anaparastassi, 1970), inspirado numa notícia de jornal. Na história, um grego retorna da Alemanha após sua situação econômica piorar, porém ele é assassinado pela esposa e seu amante. A trama supostamente acompanha a investigação do crime, mas Angelopoulos mostrava-se mais preocupado em analisar o contexto social e político do país por meio da trajetória de seus personagens.
O incômodo causado pela ditadura, inclusive, reflete em suas primeiras obras um olhar mais crítico e resulta em filmes abertamente políticos. É o que se pode ver em seu trabalho seguinte, uma ousada trilogia que busca resgatar a história recente da Grécia: “Dias de 36” (Meres Tou 36, 1972), “A Viagem dos Comediantes” (O Thiassos, 1975) e “Os Caçadores” (I Kynighoi, 1977).
Alexandre, o Grande
“Dias de 36” revisita o episódio do assassinato de um sindicalista na década de 1930, atribuído falsamente a um preso comum. O elogiado “A Viagem dos Comediantes” rememora alguns dos principais acontecimentos modernos da Grécia no século 20 por meio da ótica de um grupo de atores. Já em “Os Caçadores”, o diretor aborda a Guerra Civil Grega por meio da descoberta, feita por um grupo de caçadores burgueses, do corpo de um guerrilheiro da resistência morto em 1949.
A trilogia não oficial ajudou a definir o estilo de direção de Angelopoulos, marcada por longos planos, suaves movimentos de câmera e uma narrativa lenta, elogiada por muitos críticos, mas que costumava afugentar grande parte do público.
Viagem a Cithera
Seu cinema altamente estilizado atingiu dimensão “épica” com “Alexandre, o Grande” (O Megalexandros, 1980). A trama acompanha um bandido foragido que, inspirado num lendário libertador grego do século 15, sequestra um grupo de diplomatas ingleses e tenta construir uma comunidade com características comunistas. Mas, sob sua liderança, o sonho do convívio perfeito torna-se uma ditadura – uma alfinetada do diretor aos caminhos percorridos pela esquerda no mundo todo.
O longa rendeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza e confirmou o cineasta como um dos mais importantes do mundo.
O Apicultor
Após realizar dois trabalhos para a televisão grega, Angelopoulos iniciou uma nova fase em sua carreira, revelando uma preocupação maior com seus personagens e situando a política como pano de fundo das histórias. Com “Viagem a Cithera” (Taxidi sta Kythira, 1984) o diretor demonstrou sua desilusão com a democracia da Grécia ao acompanhar um homem que retorna ao país após 30 anos exilado na União Soviética – o tempo afastado mostra alguém que não consegue se adaptar à sua terra natal nem conviver com seus familiares.
“O Apicultor” (O Melissokomos, 1986) marcou a primeira vez que o diretor trabalhou com um ator conhecido internacionalmente. Marcello Mastroianni interpretava um professor que abandona profissão e família para fazer uma viagem e conhecer a si mesmo. O filme também serviu para colocar em primeiro plano o tema da busca existencial, que marca profundamente o cinema do diretor. Os personagens de Angelopoulos parecem estar sempre em uma jornada em busca do inatingível.
Paisagem na Neblina
Dois anos depois, Angelopoulos retornou ao road movie com “Paisagem na Neblina” (Topio Stin Omichli, 1988), interpretado por duas crianças em busca do pai (que não existe). A odisseia em rumo ao inatingível valeu o Leão de Prata em Veneza, entre outros prêmios pela Europa. É uma obra-prima fundamental.
A política ganhou novo destaque no olhar de Angelopoulos com o fim da Guerra Fria e o questionamento sobre a próxima fase do mundo em “O Passo Suspenso da Cegonha” (To Vima Meteoro Tou Pelargou, 1991). O filme marcou o reencontro do diretor com Mastroianni, agora no papel de um político vivendo escondido numa vila frequentada por refugiados de diferentes nacionalidades. Um repórter descobre o local e simboliza o olhar do cineasta para a situação geopolítica do mundo. Destaque para a presença da atriz Jeanne Moreau (“Jules e Jim”), musa da nouvelle vague.
Um Olhar a Cada Dia
Angelopoulos voltou a trabalhar com outro ator consagrado, desta vez Harvey Keitel (“Caminhos Perigosos”), em “Um Olhar a Cada Dia” (To Vlemma Tou Odyssea, 1995). O americano interpreta um cineasta grego vivendo uma jornada que remete a Ulisses, de Homero. O personagem viaja ao norte da Grécia em busca de um filme antigo perdido, realizado pelos irmãos Manakis, pioneiros do cinema grego.
“Um Olhar a Cada Dia” faz uma análise das origens culturais da região por meio da odisseia do herói e rendeu o Prêmio do Júri em Cannes ao cineasta. Angelopoulos não ficou feliz com o resultado, já que esperava receber a Palma de Ouro, e chocou a plateia e o júri: “Se é isso o que vocês têm para me dar, eu não tenho nada a dizer”, disse, e saiu rapidamente.
Uma Eternidade e um Dia
Os franceses mostraram não guardar ressentimento e, três anos depois, finalmente concederam a tão desejada Palma por “Uma Eternidade e um Dia” (Mia Aioniotita Kai Mia Mera, 1998). A poética obra de Angelopoulos acompanha um escritor se despedindo da vida e aponta a terceira fase da filmografia do cineasta, marcada por obras com ainda maiores questionamentos existenciais.
Após conquistar o sonhado prêmio em Cannes e já próximo dos 70 anos, Angelopoulos pisou no freio e realizou no século 21 quatro obras sem tanta repercussão. Ele chegou a dar início a uma nova trilogia, iniciada com “O Vale dos Lamentos” (To Livadi Pou Dakryzei, 2004), mas parou no segundo capítulo, “A Poeira do Tempo” (I Skoni Tou Hronou, 2008).

Trilogia – O Vale dos Lamentos
O grego também foi convidado a participar de duas antologias: em 2007, ele filmou um curta-metragem para obra “Cada um com Seu Cinema”, que reuniu outros 30 cineastas, em homenagem ao 60º aniversário do Festival de Cannes.
Em 2009, ele esteve em São Paulo, onde foi homenageado com uma retrospectiva de sua filmografia na 33ª Mostra Internacional de São Paulo, e também foi um dos consagrados diretores convidados a realizar um curta que compõe a antologia “Mundo Invisível” (2011), idealizada pelo criador da Mostra, Leon Cakoff, e exibida em pré-estreia no ano passado, na 35ª edição do festival. A obra marca o último trabalho tanto de Cakoff quanto de Angelopoulos.

A Poeira do Tempo
O cineasta pretendia retornar aos cinemas mais uma vez, tocando na ferida econômica de seu país. Ele estava em plenas filmagens do longa “The Other Sea”, no qual abordaria a atual crise vivida por toda a Europa e que quebrou as instituições financeiras na Grécia. Mas o projeto jamais será finalizado. Ele deixa sua esposa e três filhas
O site Pipoca Moderna se despede deste grande cineasta citando uma de suas frases mais famosas e que ilustra o espírito de seus trabalhos: “Um filme é uma aventura humana significativa. O significado emerge quando uma aventura exterior consegue se transformar em uma aventura interior.”
Theo Angelopoulos




































