The Raven: Edgar Allan Poe vira detetive

COMIC-CON Boas notícias do painel de “The Raven”, do diretor James McTeigue (“Ninja Assassino”), na Comic-Con: o filme parece tão estiloso quanto “Sherlock Holmes” (2009), mas menos puxado para o humor e mais calcado no tom gótico característico do escritor Edgar Allan Poe, que assume o centro da história.

No papel de Poe está John Cusack (“2012″), ator cult e dedicado que, pelas declarações na convenção, demonstra ter pesquisado intensamente o retratado. A intenção, porém, está longe da biografia: a trama é inteiramente fantasiosa e especialmente criativa.

O ponto de partida é o assassinato de uma mãe e sua filha na Baltimore do século 19. O crime recria o padrão de uma crônica policial de Poe – mas, enquanto o detetive Emmett Fields (Luke Evans) o interroga, um outro crime inspirado na obra do escritor é perpetrado.

Após a constatação de que um serial killer está se baseando no trabalho de Poe, o autor é solicitado a auxiliar na investigação. E o seu envolvimento está prestes a se tornar pessoal: sua esposa (Alice Eve) é sequestrada, aparentemente pelo mesmo assassino.

Nas telas, Poe e Fields formarão uma dupla tal e qual semelhante a Sherlock Holmes e seu fiel escudeiro Watson – mas muito mais resignados pela companhia um do outro. “Fields acha que Poe é um bêbado inveterado, um homem com quem ele não quer passar tempo nenhum, mas com o tempo nasce um respeito mútuo entre eles”, explicou Evans.

Essa característica é incorporada imaculadamente à ficção: mesmo que seu legado seja vasto não só para a literatura policial, mas também para a norte-americana em geral, Edgar Allan Poe era um alcoólatra de marca maior. “Ele foi convidado à Casa Branca, se embebedou e foi atirado para fora”, contou Cusack, recitando uma das muitas anedotas que descobriu sobre o escritor.

Sua vida, realmente, não foi um passeio no parque: a mãe e a primeira esposa morreram de tuberculose e “The Raven”, seu poema mais famoso, que serve de título para a produção, foi publicado sem direitos autorais, de modo que Poe não lucrou pelo seu sucesso. De fato, como (quase) todo escritor de grande repercussão, ele desfrutou de pouco dinheiro em vida, mas chegou a experimentar certo prestígio. “Ele era como uma estrela de rock em seus dias. Não tinha dinheiro, mas tinha fama”, explicou Cusack.

O ator também justificou a reputação de mulherengo do autor. “Ele amou as mulheres que amou”, afirmou. O diretor leva essa declaração a um outro nível. Na concepção de McTeigue, “Poe elevava as mulheres a um padrão idealizado”. “Ele não gostava da companhia dos homens e de nenhum homem específico. De fato, ele saía aos socos com todo homem que conhecia. Amava as mulheres não como um playboy, mas como quem as vê como musas e intocáveis”, refletiu.

Arriscando-se no terreno psicanalítico, McTeigue arrisca que a perda da mãe e da primeira esposa foram cruciais na percepção de Poe sobre o sexo feminino. Ele admite, ainda, que a figura de Poe inspira pouca simpatia – “Ele era um bêbado e viciado em ópio”, comentou -, mas aponta que deve ser reconhecido pelo que deixou. “Ele foi o precursor da ficção científica. E, para captar essa essência em um filme, você tem que capturar com autenticidade o que o personagem foi”, encerrou o diretor.

Por baixo dessa mítica, “The Raven” pretende ser, em seu aspecto elementar, um entretenimento – mesmo que certas sequências sejam mais aprazíveis para o público do que para o elenco. E ninguém no time foi submetido a suplício maior do que Alice Eve, cuja personagem, a esposa raptada, é enterrada viva. “Tive que comer muita terra”, disse a atriz, empregando a frase no sentido literal.

“James passava dias inteiros jogando terra na minha cara enquanto ficava conferindo no monitor como eu parecia sufocar. Foi muito… metódico”, descreveu Eve. Para completar o martírio, a sequência foi rodada na Sérvia, em pleno inverno, em um set construído especialmente para ampará-la. “Poe dizia que não há nada mais fascinante no mundo do que uma bela mulher morrendo, então precisávamos ter isso no filme”, acrescentou Cusack.

Um desvio de “The Raven”, Edgar Allan Poe e belas mulheres sepultadas vivas foi necessário para que os jornalistas se focassem em Luke Evans, um dos atores mais prolíficos da atualidade. Além do detetive neste filme, estará no épico “Immortals” – aliás, participou do painel do filme também nessa edição da Comic-Con -, na aventura “Os Três Mosqueteiros” e no horror “No One Lives”, no qual interpreta um assassino psicopata.

“Terror psicológico é só uma realidade distorcida com a qual você pode se divertir”, disse, sobre o processo de mergulhar no personagem e se desvencilhar dele no final do dia. “Ah, e como pude esquecer ‘O Hobbit’? Desculpa, Peter”, emendou Evans, quando indagado sobre os projetos atuais e futuros. Pois é: ele também estará no prelúdio de “O Senhor dos Anéis”, sob o comando de Peter Jackson.

Nos próximos meses, o público terá muitas oportunidades de conferir o trabalho de Luke Evans nos cinemas. Espera-se que, dentre tantos projetos, “The Raven”, marcado para estrear em 9 de março de 2012, seja um dos que se destaque – seja por ele, seja por Cusack, seja ainda por tudo o que o nome de Edgar Allan Poe representa.

+ Louis Vidovix

Louis Vidovix é publicitário, leitor voraz, cinéfilo incorrigível e fã das séries de TV. Expõe suas opiniões no blog Acho Melhor Não Ler

Deixe um comentário

Add your comment below, or trackback from your own site. You can also subscribe to these comments via RSS.

Seu email nunca aparece.