The Killer Inside Me explode em controvérsia e violência

BERLIM: Candidato a filme mais controvertido do ano, o noir “The Killer Inside Me”, de Michael Winterbottom, estampou manchetes tanto em jornais respeitados quanto em revistas de fofoca por conta da violência, perpetrada na tela, contra as mulheres de sua trama.

A controvérsia atingiu níveis de lenda, quando chegou na internet a história de que sua estrela, Jessica Alba, teria abandonado a pré-estreia no meio da sessão, repugnada com as imagens. O relações públicas da atriz nega que isso tenha acontecido.

Mas o filme é mesmo para quem tem estômago forte. Para assisti-lo sem efeitos colaterais, deve-se tomar sal de frutas antes e depois da sessão. A acidez, entretanto, é compensada por uma viagem impressionante pela mente de um homem louco.

Casey Affleck interpreta Lou Ford, assistente do xerife de uma cidadezinha do Texas na década de 50. Quando o filho de um homem poderoso começa um affair com a prostituta masoquista Joyce (Jessica Alba), Lou recebe a missão de corrê-la da cidade. Mas acaba excitado, ao perceber que ela gosta de apanhar. Sem motivo aparente, além de seu próprio prazer perverso, ele resolve matar Joyce e incriminar o amante, fazendo parecer que os dois se mataram. Mas seus planos não são perfeitos e as falhas viram do avesso seu cotidiano, refletindo na relação com sua namorada (Kate Hudson) e numa série de crimes cada vez mais violentos e cruéis, que ele é obrigado a cometer para encobrir suas pistas.

O diretor Winterbottom foi confrontado repetidamente pela forma gráfica com que registrou a violência contra as mulheres no filme. “É necessário que, ao mostrar a violência na tela, ela pareça repugnante”, defendeu o diretor, na entrevista coletiva após a exibição do filme no Festival de Berlim. Poucas vezes se viu ataques tão virulentos contra mulheres e destruição tão completa da face humana por golpes seguidos de punhos fechados.

Aos escandalizados, sua resposta firme foi a de simplesmente ter sido fiel ao romance noir de Jim Thompson, publicado em 1952. “Em termos de como a violência é apresentada, tentamos apenas retratá-la da forma mais fiel possível ao livro. O livro é muito chocante”, disse o cineasta de “O Preço da Coragem” e “Caminho para Guantanamo”.

Os cinéfilos já cansaram de ver psicopatas nas telas. Mas Winterbottom consegue incomodar o mais calejado fã de terror pela forma direta, sem cortes ou firulas, com que filma a violência. É um cinema da brutalidade.

O diretor tentou explicar suas motivações: “Esse livro me impressionou muito. Thompson escreve o pior sobre seus personagens. É algo shakespeariano que não está ligado à realidade. Tudo o leva ao extremo. E essa violência extrema pode servir de catarse. Não acredito que ninguém, depois de ler o romance ou sair do cinema, tenha vontade de fazer o mesmo que Lou Ford.”.

“The Killer Inside Me” trafega fielmente no território do film noir, que se identifica com o cirminoso sem entender as razões do crime.

Filmado anteriormente em 1976, sem a mesma intensidade, por Burt Kennedy e estrelado por Stacy Keach, o livro de Thompson era um dos favoritos de Stanley Kubrick, que contratou o escritor para colaborar no roteiro de dois de seus filmes, “O Grande Golpe” (1956) e “Glória Feita de Sangue” (1957).

Nos anos 50, Robert Mitchum seria a escolha perfeita para viver o protagonista, mas o astro do film noir daria outro tom à trama, que é perfeitamente marcada pelo timbre agudo da voz de Casey Affleck. O ator domina a história, por meio de sua aparência de bom moço e seus diálogos internos.

Perfeito como assassino desalmado, Affleck confirma que sua indicação ao Oscar por “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” não foi um acaso. A história é narrada a partir de seu ponto de vista, o que transmite ao público todo o choque dos crimes e das investigações, além de criar uma estranha empatia pela habilidade de sua mente distorcida em encontrar saídas para as situações mais complicadas da trama.

Como o “Psicopata Americano”, ele intimida e se torna íntimo, confiando segredos que o público é obrigado a conhecer a contragosto, penetrando em seus pensamentos e causando arrependimento em quem tenha escolhido ficar no escuro do cinema em sua companhia. Um intelectual que se acredita mais inteligente que os outros, apresentando-se, no entanto, menos capaz, ele ainda lembra “O Talentoso Ripley”, de Patricia Highsmith, de quem também foi precursor.

Os papéis secundários também são sólidos, com Ned Beatty na pele do poderoso corrupto, Bill Pulman como um advogado complacente, Elias Koteas, como o sindicalista que conhece segredos do passado de Ford, e Simon Baker como o promotor público capaz de ver o que existe por trás da aparência calma e fria do homem da lei.

The Killer Inside Me (EUA, 2010)

 ★★★½☆ 

+ Cris Thomas

Chris Thomas é uma cinéfila brasileira em Paris, que canta e dança quando começam os festivais europeus.

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