Não é qualquer filme de ação que consegue prender a atenção por 152 minutos. Mas o homem conseguiu novamente. Quentin Tarantino vai à guerra com um filme energético, inteligente, em ritmo vibrante, conjugando humor e violência, suspense e brutalidade. Tudo em “Bastardos Inglórios” é deliciosamente exagerado: o desrespeito com a história real, os personagens caricatos, as cenas de mutilação gore, a velocidade da ação, o estilo kitsch dos cenários, a catarse da seqüência clímax.
O essencial de Tarantino desenvolvido com a mesma maestria de “Pulp Fiction”. Mosaico multicolorido de referências cinematográficas e musicais, incorporando toda a sorte de filmes B, clichès, pastiches, desenhos animados, melodramas e pastelões.

O diretor se apropria de tudo um pouco: sociopatas do velho oeste, oficiais e simbologias do 3º Reich, agentes duplos, com direito a uma espécie de “Cinema Paradiso” em art decô de cenário e até um projecionista negro saído das boites dos anos 70. As muitas sub-tramas têm tanta ou mais importância que o eixo principal do roteiro.
A trilha alterna funk, disco e até David Bowie, compondo anacronicamente as imagens. Em off, o firme Samuel L. Jackson na narração. As poses, os diálogos, a atmosfera emulam pedaços de outros filmes, numa narrativa em hyperlink. Mas um pouquinho diferente, porque o diretor embaralha as cartas, recombina os elementos narrativos e surfa por sobre as referências, deliberadamente “superficial”, para dar o seu toque criativo.
Decepção de quem for ao cinema pra ver filme sobre missão suicida de americanos atrás das linhas inimigas, comandada por Brad Pitt (interpretando o Ten. Aldo Raine). Nada mais distante do estilo de “Os Doze Condenados”, pois a estética dos “Bastardos” somente tangencia os filmes de guerra clássicos.
Com efeito, os créditos na abertura anunciam o western e mais à frente somos apresentados a Aldo “Apache”, militar americano que aplica técnicas indígenas, escalpando os inimigos. Aliás, os escalpos extraídos por Pitt e sua gangue são somente um dos vários momentos “gore” da película. Pois a maioria dos personagens será morta de modo sanguinolento, sem concessões ao bom tom. O diretor é tão (admiravelmente) insidioso que, na seqüência do incêndio do cinema, faz questão de torturar e massacrar a platéia de generais alemães – não sem antes causar um certo desconforto aos espectadores reais, pela força da metalinguagem.
Mas a figura central de “Bastardos Inglórios” não é Aldo/Pitt, mas o coronel nazista Hans Landa, vulgo “Caçador de Judeus”. Indiscutivelmente! Com um personagem fantástico e brilhantemente concebido como o Cel. Landa, não foi difícil para o austríaco Christoph Waltz arrebatar prêmios em Cannes, no Globo de Ouro, no SAG (Sindicato dos Atores) e, finalmente, consagrar-se no Oscar.
Saído da imaginação (genialmente) demente de Tarantino, Landa é um sofisticadíssimo oficial europeu, fala efetivamente quatro idiomas durante o filme, esbanja sagacidade e conduz interrogatórios os mais sutis e labirínticos. Na contramão do que se esperaria de inquirições da SS, o erudito militar estabelece um jogo de gato-e-rato com as vítimas, em diálogos envolventes que, por si sós, já valem o ingresso. Destaque para a sua atuação na paradigmática seqüência inicial, por sinal um tour de force de Tarantino, que poderia ser a aula inaugural de qualquer curso de cinema.
Decepção também de quem espera um filme histórico ou historicamente verossímil. Em certo ponto, Tarantino deixará claro que se trata de fantasia e, portanto, fará o que bem entender, criando o seu mundo, sem qualquer pretensão a documentar o real. Assim, o desfecho da 2ª Guerra é escandalosamente reescrito. Embora existam momentos de paródia, por exemplo na construção dos personagens do Hitler e seu estado-maior, tampouco se pode classificar o filme como uma paródia. A paródia é somente uma das múltiplas formas do caleidoscópio cultural do filme.
Há quem acuse o diretor de banalizar a violência, relativizar a perseguição aos judeus e fazer um filme amoral, em que não se distinguem bandidos e mocinhos, certo e errado. Ora, o universo do “geek” Tarantino, desde o princípio com “Cães de Aluguel”, não é matizado pelas grandes questões humanas, filosóficas ou morais, e assim sempre contornou os riscos da grandiloqüência e do moralismo. A sua obra, ao mesmo tempo menos e mais pretensiosa, visa ao impacto imediato, à comunicação direta com o espectador, por meio de uma linguagem pop, mediante sentimentos de simpatia, antipatia, humor, assombro, desejo, repulsa e até repúdio. Propõe-se a levar-nos numa aventura de imagem e áudio, e não numa tese das humanidades.
Quem gosta de Tarantino, assistirá a um filme em que ele atinge a maturidade, com um manifesto apoteótico de toda a sua proposta cinematográfica. Mas mesmo quem não conhece ou não gosta, deve assistir a “Bastardos Inglórios”, pois não é todo dia que se faz um filme de ação tão criativo, inteligente e sobretudo divertido.

Bastardos Inglórios
(Inglourious Basterds, EUA, 2009)
Lançamento em DVD




































4 Comentários
É um filme extremamente violento, mas não é aquela violência sem sentido do tipo que é violento só por ser e por um motivo qualquer. Tem uma história e uma razão , além de um uso cuidadoso da criatividade, eu gostei e recomendo!
e um filme maravilhoso
Só uma palavra para descrever o filme: SENSACIONAL
Excelente filme e bela critica!