Faleceu aos 82 anos a atriz Sybil Jason, de doença pulmonar obstrutiva crônica. Ela é relembrada pelos trabalhos como atriz-mirim nos anos 1930, mas jamais atingiu as proporções da estrela mais notável do período, Shirley Temple.
A inocência de Temple, com seus cachinhos imaculados e os vestidinhos de cetim que inspiraram o visual da Maísa, a garota apresentadora do SBT, fascinou uma América que precisava sorrir: o país estava atolado na Grande Depressão, e a candura de uma menina prodígio – que, no caso de Temple, atuava, sapateava e cantava à perfeição já aos 5 anos de idade – era exatamente a dosagem necessária.
Os filmes de Temple na Fox eram os mais assistidos pelo público ano após ano, e atrizes-mirins com a mesma proficiência tornaram-se uma commodity procuradíssima em Hollywood.
Os astros mirins da Warner: Bonita Granville, Judy Garland, Tommy Kelley e Sybil Jason
Sybil Jason, que se inclinava à dramaturgia desde os dois anos de idade, foi a aposta da Warner Bros para rivalizar com a “pequena notável”. A pobre, porém, nunca atingiu a popularidade de Temple, e viveu sempre sob o rótulo de pastiche. Justiça seja feita: bater de frente com a maior estrela de Hollywood quando não se tem mais que seis anos completos é uma responsabilidade nefasta – mesmo que a estrela a ser batida também tenha a mesma pouquíssima idade.
Jason nasceu em Capetown, na África do Sul, em 23 de novembro de 1929. Aos dois anos, arranhava algumas notas no piano, e aos três já fazia performances em vaudeville. Aos cinco anos, vivendo em Londres com a família, apresentava-se nos palcos de clubes noturnos, onde cantava, dançava e fazia imitações.
A Pequena Ditadora
Seu tio, um popular maestro londrino, foi quem facilitou a sua imersão no show business: ele colocou a sobrinha em gravações, apresentações de rádio e até mesmo no palco. Em um dos concertos de que Jason participou estava um produtor de cinema que, impressionado com o que viu, a escalou para um papel em “Barnacle Bill” (1935), um filme britânico que adquiriu atenção dos executivos americanos.
A garotinha parecia a resposta às preces da Warner Bros, que lhe estendeu o tapete vermelho na certeza de que arranjara a sua própria Shirley Temple. Não foi bem assim, é claro: o sucesso dos filmes estrelados por Jason foram bem mais moderados, ao que o estúdio, na busca por um bode espiatório, culpou o sotaque sul-africano da menina.
Entre Pat O’Brien e Humphrey Bogart, em O Grande O’Malley
Ainda assim, Jason foi uma atriz-mirim prolífica, que participou de 11 filmes entre 1935 e 1940 e angariou uma resposta positiva dos críticos. Entre seus trabalhos mais notáveis estão “A Pequena Ditadora” (1935), dirigido por Michael Curtiz (“Casablanca”), o musical “Canta e Serás Feliz” (1936), em que contracenou com os lendários Al Jolson (“O Cantor de Jazz”) e Cab Calloway (“Blues Brothers”), e “O Grande O’Malley” (1937), em que roubava a cena de ninguém menos que Pat O’Brien (“Anjos de Cara Suja”) e Humphrey Bogart (“O Tesouro de Sierra Madre”).
No curta “A Day at Santa Anita” (1937), ambientado no mundo das corridas de cavalo, teve ainda a chance de cavalgar Seabiscuit, o potro que inspirou o drama “Alma de Herói” (2003).
Com Al Jolson, em Canta e Serás Feliz
Embora subestimada e soterrada nas comparações com Temple, Sybil desempenhou um papel importante na Warner. Até ela, o estúdio estava assentado em dramas violentos sobre a máfia, e a concessão de produzir filmes leves com uma garotinha no papel principal foi a primeira variação de um repertório que, ao longo dos anos, ficaria mais e mais amplo. À época, porém, a Warner não a valorizou como deveria e a dispensou do contrato antes da década de 1930 chegar ao fim.
Melhor para a Fox, que teve a chance de unir Jason e Temple sob o mesmo teto. Ela contracenou com a outrora rival em dois filmes – “A Princesinha” (1939) e “O Pássaro Azul” (1940), que traziam Shirley como protagonista e Sybil reduzida a coadjuvante. “O Pássaro Azul”, aliás, foi o último filme de Sybil, aposentada do cinema aos 11 anos de idade.
Com Shirley Temple, em A Princesinha
Posteriormente, ela revelou que a mãe de Shirley Temple pressionou o estúdio para que algumas cenas de Sybil fossem cortadas, temendo que a garota, no papel de uma garotinha aleijada, pudesse roubar a cena da principal. Mas isso não lhe fez guardar rancor. De fato, o trabalho conjunto aproximou Jason e Temple, que supostamente preservaram a amizade ao longo dos anos.
Mesmo que não tenha insistido na carreira cinematográfica – assim como Temple, que viu os papeis minguarem quando perdeu os traços ingênuos -, Sybil só compartilhava boas recordações do período. Tanto que não se deixou abater pela falta de interesse dos estúdios e fez muitos trabalhos nos palcos. Ao contrário da maioria dos atores-mirins, que crescem para virar versões mal resolvidas de si mesmo, ela se recordava dos seus anos dourados com afeto. “Era como entrar em um livro de contos de fadas e se tornar um dos personagens”, declarou em certa ocasião.
No curta Changing of the Guard

































