“Disse o corvo, Nunca Mais”. Com essa sentença, o poeta, contista, ensaísta e crítico literário Edgar Allan Poe inscreveu definitivamente seu nome dentre os grandes da literatura mundial. Autor de histórias arrepiantes e poemas góticos cujos temas sempre rondam a morte, a loucura e a decadência física e mental, o gênio teve, ele próprio, uma vida marcada pela instabilidade emocional e problemas financeiros.
Eternamente desajustado e propenso a todo tipo de vício, Poe morreu em circunstâncias misteriosas aos 40 anos. No dia 3 de outubro de 1849, foi encontrado vagando pelas ruas de Baltimore, usando roupas que não eram suas e dizendo coisas aparentemente sem sentido. Levado a um hospital, morreria quatro dias depois sem conseguir esclarecer como tinha chegado àquela situação.
O filme “O Corvo” (que não tem nada a ver com o homônimo de 1994 que vimitou Brandon Lee) cria uma trama fictícia ambientada nos dias que antecederam o trágico fim de Poe, colocando-o no centro da investigação de uma série de assassinatos inspirados em seus livros.
Tudo começa quando um inspetor de polícia (Luke Evans, de “Imortais”) reconhece que a cena de um duplo assassinato é idêntica à descrita no conto “Os Crimes da Rua Morgue”. Não tarda para que outros crimes deixem claro que se trata de um psicopata tentando obter a atenção de Poe e atraí-lo para um jogo macabro.
O primeiro grande acerto do filme é trazer John Cusack como um Edgar Allan Poe intolerante, provocador e falastrão. Na medida certa entre a arrogância do gênio incompreendido e o desamparo de quem só leva rasteira da vida, a composição de Cusack é cativante e carismática, indo além da incrível semelhança física obtida com a caracterização.
Outro grande atrativo está na própria obra de Poe, que pontua todo o filme, seja nas recriações bizarras provocadas pelo assassino, seja em citações mais sutis. Os contos “Os Crimes da Rua Morgue”, “O Poço e o Pêndulo”, “A Máscara da Morte Escarlate”, “O Mistério de Marie Roget” e os poemas “Annabel Lee” e, claro, “O Corvo” são apenas algumas das obras citadas ao longo do filme. Como não adorar a cena em que Poe recita “O Corvo” para uma plateia de senhorinhas empoadas?
Apesar dos pontos positivos, que ainda incluem a fotografia soturna e a reconstituição de época, “O Corvo” padece de alguns tropeços estruturais. Depois de ter sido assistente de direção dos irmãos Wachowski na trilogia “Matrix”, James McTeigue estreou como cineasta fazendo barulho e dividindo opiniões com “V de Vingança” (2005), mas parece ainda não ter engrenado muito como diretor e, desde então, realizou somente mais um longa, o pouco visto “Ninja Assassino” (2009). Com “O Corvo”, McTeigue volta a chamar a atenção ao entregar um filme irregular, porém bastante interessante.
O maior problema é que o impacto inicial da encenação dos assassinatos, descritos nos contos de Poe, vai se enfraquecendo conforme o criminoso muda seu modus operandi. As recriações fiéis vão virando citações, cada vez mais esparsas e soltas, e o roteiro perde um pouco de força à medida que a história passa a se apoiar cada vez mais no interesse do espectador pela obra do próprio Edgar Allan Poe.
Prato cheio para quem é fã, mas que deixa em segundo plano o mistério a ser desvendado. Ao final, tanto a identidade do assassino como suas motivações são pouco originais e o desfecho não casa realidade e ficção de modo muito satisfatório.
Vale destacar que “O Corvo” não é uma história excludente e não deixará perdido quem não conhece a obra do escritor, mas com certeza aqueles que apreciam o grande autor americano e seu universo gótico terão mais prazer com suas referências.
O Corvo
(The Raven, EUA, 2012)



































