Morreu aos 67 anos a atriz americana Susan Tyrrell, indicada ao Oscar em 1973 por seu papel em “Cidade das Ilusões”, clássico dos anos 1970. Susan construiu uma carreira repleta de personagens marginalizados em filmes de estética e narrativa ousadas, elevando a atriz ao status de musa do submundo cinematográfico.
“A última coisa que minha mãe me disse foi: ‘Susu, sua vida é uma celebração de tudo o que é barato e de mau gosto’”, ela confessou ao Los Angeles Weekly em 2000. “Eu sempre gostei disso e sempre tentei fazer jus a isso”, disse Susan, deixando claro não se arrepender de nada.
Cidade das Ilusões
Nascida como Susan Creamer Jillian em San Francisco no dia 18 de março de 1945, Susan Tyrrell mostrou desde cedo interesse na atuação e, desde criança, estrelava peças teatrais em Nova York, para onde mudou com a família nos anos 1950. Próxima de completar 20 anos, ela flertou com o showbusiness ao estrelar as séries “The Patty Duke Show” e “Mr. Novak”, ambos em 1964, porém a atriz já estava mais interessada nos teatros de vanguarda.
Susan só estrearia nos cinemas em 1971, no western “O Solitário do Rio Grande” (Shoot Out), com Gregory Peck. Mas, no mesmo ano, ainda apareceria no drama “Been Down So Long It Looks Like Up to Me” e na comédia “The Steagle”. Eram as pequenas faíscas de uma explosão que viria a seguir, com “Cidade das Ilusões” (Fat City, 1972).
Bad
A atriz conseguiu convencer o diretor John Huston (“O Falcão Maltês”) a escalá-la no papel de Oma, no lugar de Faye Dunaway (“Chinatown”), porque “uma bêbada de 26 anos seria mais interessante do que uma de 35”. Huston concordou e o resultado foi uma interpretação devastadora, que ofuscou Stacy Keach (da série “Prison Break”) e o então jovem Jeff Bridges (“Bravura Indômita”), ambos interpretando boxeadores – numa história baseada em livro de Leonard Gardner. A crítica exaltou sua interpretação como uma das melhores bêbadas já representadas no cinema.
O resultado a levou à disputa pelo Oscar, porém sua personagem alcoólatra não se transformou necessariamente num bilhete para o sucesso. “Foi um inferno”, ela definiu, para ser mais precisa. O problema é que Susan ganhou muito destaque por “Cidade das Ilusões”, o que a tornou muito marcada para interpretar novos papéis de personagens marginalizadas, que ela tanto adorava. “Eles diziam: ‘Agora você é bonita’. Então eu ia atrás de outros papéis e eles diziam: ‘Você não é bonita o suficiente’”, ela reclamou.
Crônica do Amor Louco, com Ben Gazzara
Ela voltou a trabalhar com Keach na versão original de “The Killer Inside Me” (1976), no papel que seria de Jessica Alba no remake de 2010: uma prostituta que apanha até ficar deformada, vítima de um xerife psicopata. Mas os filmes sujos, crus e depressivos que surgiram no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 perdiam cada vez mais sua força com a aproximação da década de 1980 – e Susan se viu como um peixe fora d’água, sem jamais conseguir repetir o barulho provocado em “Cidade das Ilusões”.
Mesmo assim, o espírito libertário da atriz ainda encontrou espaços em produções alternativas, filmando “Bad” (1977) com Andy Warhol e estrelando o bizarro musical “Forbidden Zone” (1982), no qual o compositor Danny Elfman (responsável pela trilha de “Os Simpsons” e de quase todos os filmes de Tim Burton) interpretava o diabo, enquanto seu então namorado, o anão Hervé Villechaize (o Tatu da “Ilha da Fantasia”), dava vida a Fausto. Susan e Hervé chegaram a morar juntos por dois anos.
Forbidden Zone, com o namorado Hervé Villechaize
Entre os muitos filmes trash de que participou nos anos 1980, os mais infames são “What’s Up, Hideous Sun Demon” (1983), sobre uma bronzeador demoníaco, e o policial politicamente incorreto “Anjo – Inocência e Pecado” (Angel, 1984) – que ainda rendeu uma continuação: “Anjo Vingador (Avenging Angel, 1985) – , no papel de uma lésbica desbocada.
Ela também participou de alguns cults notáveis, como o italiano “Crônica de um Amor Louco” (Tales of Ordinary Madness, 1981), a animação “Fogo e Gelo” (Fire and Ice, 1983) e o épico medieval de Paul Verhoeven “Conquista Sangrenta” (Flesh+Blood, 1985). Neste filme, liderava uma turba ensandecida que seguia a figura de um santo em meio à peste, guerras, miséria e estupros da Europa medieval.
Anjo Vingador
Ainda participou de dois terrores bastante apreciados pela geração do VHS, “Night Warning” (1982), com um jovem Bill Paxton (série “Big Love”), e “Do Sussurro ao Grito” (From Whisper to Scream, 1987), um dos últimos filmes de Vincent Price (“O Abominável Dr. Phibes”), antes de se envolver em uma série de filmes sobre rebeldes juvenis, como “Bem Longe de Casa” (Far from Home, 1989), com a adolescente Drew Barrymore (“As Panteras”), e o cultuadíssimo musical “Cry-Baby” (1990), de John Waters, no qual interpretou a avó do ainda imberbe Johnny Depp (“Piratas do Caribe”).
Além de ser o ápice de sua fase marginal, “Cry-Baby” manifestava o espírito rock’n'roll de Susan Tyrell, que se fazia presente em sua preferência por produções musicais. Em “Cry-Bay”, ela contracenava com Iggy Pop. Em “Forbidden Zone” (1982), com Elfman e os integrantes da banda Oingo Boingo. Fez ainda “Rockula” (1990), terrir musical com a cantora Tony Basil e o músico Thomas Dolby, e “Masked and Anonymous” (2003), escrito e estrelado por Bob Dylan.
Conquista Sangrenta
Mas a atriz nunca chegou próximo do incêndio que provocou nos anos 1970 e jamais escondeu sua decepção. “Eu não sou Robert De Niro, que teve Martin Scorsese para filmar qualquer merda que eu pegasse. E era isso o que eu precisava. Era isso o que Diane Keaton teve com Woody Allen: encontrar alguém que pensa que você é tão charmosa e maravilhosa que lhe filma de dentro para fora”, comentou, certa vez.
Meio no bom-humor, meio na amargura, Susan também não encarou com bons olhos a ação do tempo sobre seu corpo. “Eu odeio envelhecer, eu não quero envelhecer”, ela reclamou. “Eu gosto dos meus peitos e não quero assistir à sua queda. Esse é meu maior desgosto”, lamentou.
Cry-Baby, com Johnny Depp
A chegada do ano 2000 foi ainda pior para a atriz, que desenvolveu uma raríssima doença no sangue que a levou a ter as duas pernas amputadas. Mas nem a perda dos membros foi capaz de pará-la. No filme de Bob Dylan, “Masked and Anonymous” (2003), contracenou com Penélope Cruz (“Abraços Partidos”), Ed Harris (“À Beira do Abismo”), John Goodman (“Tão Forte e Tão Perto”), Jessica Lange (“Para Sempre”) e sob a direção de Larry Charles (“Borat”).
Seu último trabalho ocorreu no elogiado drama indie “Kid-Thing”, lançado este ano (inédito por aqui). Susan faleceu no domingo (17/6), na casa de sua sobrinha em Austin, Texas, onde morava desde 2008. Não há detalhes sobre sua morte.
O Solitário do Rio Grande



































