Sucker Punch materializa todos os excessos de Zack Snyder

“Sucker Punch – Mundo Surreal” é daquele tipo surpreendente de cinema, que se faz diante dos olhos do espectador e encanta pouco a pouco. Zack Snyder criou uma obra que deveria converter até os mais descrentes.

É preciso notar que, sendo a primeira história original de Snyder como roteirista, o filme libera uma espécie de loucura até então contida. São delírios com a 2ª Guerra Mundial, robôs assassinos num futuro distante, dragões e seres de lama e até mesmo um número musical. Tudo com o apuro visual que consagrou o diretor em filmes como “300″ (2006) e “Watchmen” (2009), que aqui não tem medo de ser excessivo, ostensivo ou até mesmo brega.

“Sucker Punch”, que inicia com a aparência de um drama comum, desdobra-se em filme de ação, mas ao mesmo tempo não é nada disso. A história trata de Babydoll (Emily Browning, de “O Mistério das Duas Irmãs”), uma garota que, após perder a mãe, teme virar vítima do violento padrasto e, numa tentativa de fuga, acaba matando a própria irmã. Isso faz com que ela seja internada num sanatório, e a partir daí é perigoso citar qualquer coisa que possa estragar a deliciosa experiência que é ver o filme desprovido de maiores informações.

O roteiro, porém, pode ser facilmente alinhado a dois sucessos recentes do cinema americano. As camadas de imaginação onírica e perturbação psicológica presentes em “A Origem” (2010) e “Cisne Negro” (2010) são fatores importantes para a compreensão da história, e especialmente seu desfecho anticlimático. É claro que não é possível comparar diretamente três universos tão diferentes, mas se a espiral de histeria aqui não é tão evidente quanto no filme de Aronofsky, a maneira com que a criação de um universo imaginário implica na vida real é muito mais divertida que o golpe infinito de Leonardo DiCaprio no filme de Christopher Nolan.

Parte do acerto de Snyder se deve também ao elenco e suas performances divertidas, que apesar de momentos controversos em nada comprometem o resultado final. As participações vão desde a musa dos filmes teen angustiados da década passada Jena Malone (“Donnie Darko”, “Na Natureza Selvagem”) até a princesinha Disney Vanessa Hudgens (“High School Musical”), sem esquecer o queridinho Jon Hamm (série “Mad Men”) e a pin-up Carla Gugino (“Watchmen”). O maior destaque, porém, está na pequena participação de Scott Glenn (“Os Eleitos”) como uma espécie de mentor que surge nos momentos mais inusitados.

O clima de farsa teatral presente nos figurinos, maquiagem e mesmo nas escolhas fotográficas em alguns momentos, é explicitado por uma teatralidade que é parte fundamental da trama e leva a insanidade a um outro patamar. Mas não disfarçam certos vícios que já acompanham o diretor a um bom tempo, como sua mania de criar videoclipes dentro do filme. É preciso reconhecer a genialidade de usar uma música como “Army of Me”, de Björk, numa sequencia de luta, mas ainda assim são várias as cenas com longas montagens em câmera lenta que, se extraídas da trama, dariam um clipe musical perfeito.

A crítica americana odiou e, ao contrário do que se poderia esperar para um filme cheio de mulheres seminuas e armas pesadas, “Sucker Punch” tampouco tem perfil de sucesso de público, o que deve enterrar por mais alguns anos os projetos originais de Snyder. É uma pena, pois pelo que se viu até hoje, é muito provável que seja esse o filme a tirar o diretor da lista dos fotógrafos de lindas imagens, e colocá-lo de vez junto aos cineastas que merecem ser acompanhados.

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Sucker Punch – Mundo Surreal

Imagem de Amostra do You Tube
(Sucker Punch, EUA, 2011)

 ★★★★☆ 

+ Felipe André

Felipe André é cinéfilo profissional. Usa boa parte do seu tempo em salas de cinema e gasta a outra parte escrevendo sobre o que acabou de ver. Também é cineclubista e adora exibir filmes que ninguém viu, por isso tem uma quedinha pelo cinema independente de todas as partes do mundo. Atualmente reside em Recife, mais precisamente no cinema mais próximo. Leia também no Kinemail.

2 Comentários

  • Eduardo Sousa Lima Identicon Icon Eduardo Sousa Lima
    26 de março de 2011 | Permalink | Responder

    Concordo plenamente com a crítica.
    Snyder conseguiu enfim se libertar de suas correntes e fazer um “filme livre” sem se preocupar com seus exageros.

  • 25 de março de 2011 | Permalink | Responder

    Caramba, adoro seu post’s! Você é realmente muito bom! Eu sou jornalista e tenho a intenção de me especializar em cinema. Poderia me sugerir alguns autores para eu estudar mais sobre o assunto?! Um abraço e parabéns.

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