Steven Soderbergh contagia Veneza

VENEZA O diretor Steven Soderbergh, premiado com o Oscar por “Traffic” (2000), estabeleceu um sistema de trabalho interessante: para tornar viáveis os seus trabalhos mais políticos e pessoais, como aquele que lhe rendeu o reconhecimento da Academia, intercalou-os com projetos de alcance amplo e bilheteria garantida, como a franquia “Onze Homens e Um Segredo”, estrelada por nomes como George Clooney e Matt Damon (que também regem as carreiras sob a mesma lógica do cineasta).

“Contágio”, o seu mais novo filme, que faz sua première no Festival de Veneza, seria um modelo intermediário. O longa tem um número elevado de astros e uma trama que envolve a disseminação de um vírus e a hecatombe da população mundial. Mas, para além dos elementos acessíveis ao público de massa, encontra-se um estofo sério e contestador. Mesmo exibido em sessão paralela à competição de Veneza, o filme foi recebido com toda a pompa a que tem direito e bastante elogiado pela crítica.

Mas as reações foram ainda mais entusiasmadas após a sessão, quando Soderbergh e parte do elenco se reuniram com a imprensa. As boas intenções eram claras – em parte porque “Full Frontal” (2002), o último trabalho que Soderbergh exibiu em Veneza, foi saudado com vaias fartas na ocasião, mas também porque o diretor revelou recentemente seu plano de se aposentar do cinema assim que completar os projetos que têm pendentes – entre os quais, este “Contágio”.

Soderbergh parece determinado a se despedir com elegância. Segundo o diretor, “Contágio” é um filme “realista no conceito e estilisticamente muito despojado”. Sua ambição era emular a essência do clássico “Todos os Homens do Presidente” (1976), em especial no senso de realismo.

“Toda a ciência no filme deveria ser precisa e plausível. Caso contrário, não estaríamos desenvolvendo a nossa ideia ou contribuindo com o gênero”, ele compartilhou, sobre uma preocupação que ponderou com o produtor Scott Z. Burns (autor do argumento de “Contágio”).

O realismo, aliás, não deixa espaço sequer para metáforas: quando indagado sobre possíveis analogias à crise econômica mundial de 2008, Soderbergh defendeu que o público deve calcar a sua interpretação em cima daquilo que vê, e não nas entrelinhas. “Um dos apelos desta história, para mim, é que não havia metáfora alguma. Estou tirando uma férias disso no momento”, afirmou o cineasta, em uma referência breve aos aspectos mais pretensiosos de sua filmografia.

“Temos como protagonista um vírus que não fala, mas todas as pessoas falam dele”, disse, convidando a discussão. É uma opção curiosa ter no centro da ação uma força intangível, quando se tem à disposição alguns dos atores mais célebres da atualidade.

O cineasta, contudo, tem uma visão muito clara da importância das estrelas de cinema – motivo que o levou a reunir em “Contágio” os vencedores do Oscar Matt Damon, Marion Cotillard, Kate Winslet e Gwyneth Paltrow e os indicados Laurence Fishburne e Jude Law.

“Ajuda muito ter o máximo de astros conhecidos no maior número possível de papeis, porque o público é bombardeado com tantos personagens e informações neste filme, que é importante estabelecer alguns pontos de referência”, disse Soderbergh. “Há um motivo para estrelas de cinema existirem desde o início da indústria. É bom para a plateia ter alguém com quem possa se identificar”, refletiu o diretor.

Na trama, Damon interpreta um pai de família determinado a proteger a filha dessa ameaça letal, depois que a esposa (Paltrow) sucumbe ao vírus. Law vive um blogueiro influente que alimenta o seu portal com teorias de conspiração sobre o tal vírus e o papel do governo em contê-lo e desenvolver uma vacina, enquanto Cotillard, Winslet e Fishburne são os médicos credenciados pelo Centro de Controle de Doenças (os personagens estão baseados tanto em Hong Kong, onde a infecção começa, quanto nos Estados Unidos, onde ela se alastra). Essas figuras se cruzarão em um drama de ritmo acelerado e incansável.

Matt Damon, que já trabalhou com o cineasta seis vezes (incluindo a trilogia “Onze Homens”), está acostumado com o estilo de Soderbegh e é só elogios ao amigo. “Os filmes do Steven nunca deixam gordura a enxugar”, comentou o astro. “Nesse caso, o ritmo se foca na progressão da infecção e em como as coisas saem rapidamente de controle”, acrescentou. É a deixa para que Soderbergh aborde temas como pânico e paranoia em um plano globalizado.

Gwyneth Paltrow, por sua vez, foi muito questionada sobre o fato de sua personagem, uma esposa adúltera, ter sido uma das primeiras vítimas do vírus – uma solução do roteiro que, segundo algumas resenhas, remete a um castigo moral. A atriz, porém, não encarou a situação dessa maneira. “Não pensei nisto assim, nem julguei minha personagem. Penso que somos todos seres humanos. Apenas acho que ela estava no lugar errado, na hora errada”, avaliou a atriz.

Ela também garantiu que o filme, que mostra a morte sem eufemismos, não é para todos os públicos. Inclusive, quando indagada se deixaria os filhos pré-adolescentes assistirem a “Contágio”, não pensou duas vezes. “Meus filhos ainda nem podem assistir a ‘Babe’, então provavelmente eles não verão este por enquanto”, replicou, referindo-se à comédia infantil do porquinho atrapalhado.

Mas, talvez, a declaração mais sensata tenha partido do roteirista Scott Burns. Para ele, o que há de mais assustador em “Contágio” não são as mortes em si, mas a reação dos que resistem a ela. “Quando coisas assim acontecem, quer seja um escândalo bancário ou um caso de histeria coletiva, teorias de conspiração se espalham pelo mundo todo, e elas são tão rápidas e mortais quanto o próprio vírus”, teorizou o roteirista. O que é, afinal, indício de que “Contágio” pode ser uma fantasia, mas não é um passatempo sem conteúdo.

+ Louis Vidovix

Louis Vidovix é publicitário, leitor voraz, cinéfilo incorrigível e fã das séries de TV. Expõe suas opiniões no blog Acho Melhor Não Ler

2 Comentários

  • JOSÉ SOLON Identicon Icon JOSÉ SOLON
    4 de setembro de 2011 | Permalink | Responder

    Bem, não querendo ser arrogante, mas não lí a matéria até o fim porque esses temas como vírus, além de monstros e alienígenas de toda a espécie e, para concluir, filmes sobre maus espíritos e/ou crianças e pessoas possuidas pelo mal estão dia e noite brotando e na tv a cabo, essas temáticas em produções americanas são um moto perpétuo. Nos canais HBO e MAX eles se repetem durante meses e dominam todos os canais. Conclusão: não vou falar bem nem mal do diretor Soderbegh. Dele, espero não estar enganado, há um filme “Até que o Diabo Saiba que Você Está Morto” que considero bom, não se esquecendo dos atores encabeçados pelo extraordinário Phillip Seymour Hoffman que está brilhante como sempre

    • Pipoca Moderna Identicon Icon Pipoca Moderna
      4 de setembro de 2011 | Permalink | Responder

      Mas estava enganado. “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” é do mestre Sidney Lumet.

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