Soul Kitchen frustra fãs do cinema de Fatih Akin com comédia rasa

A vida de Zinos está uma verdadeira bagunça. Dono do restaurante Soul Kitchen em Hamburgo que dá título ao filme, ele acaba de ser deixado pela namorada, que foi embora para Shangai. Seu irmão saiu da cadeia e precisa de um emprego. Um acidente na cozinha deixou sua coluna seriamente comprometida. O negócio vai mal desde que trocou de cozinheiro. Pra piorar, um amigo de infância está armando contra ele para poder comprar seu restaurante a preço módico por causa do terreno valioso onde está instalado. São diversas as situações que envolvem o protagonista, abrindo um leque para a comédia, gênero em que o diretor Fatih Akin se arrisca neste seu mais recente filme.

Akin é mais conhecido pela densidade de seus filmes anteriores, os dramas “Contra a Parede” (2004) e “Do Outro Lado” (2007), além do enérgico “Atravessando a Ponte: O Som De Istambul” (2005). Tamanha é a sua maestria em conduzir histórias fortes que ao ser anunciado que seu novo filme seria uma comédia, um verdadeiro burburinho foi gerado.

“Soul Kitchen” surgiu repleto de honrarias na mídia, citações em revistas e jornais e comentários ansiosos nas filas… Mas para quem está acostumado com o estilo do diretor, se deparar com esta comédia pode ser uma experiência frustrante.

Boas comédias realizadas fora dos EUA causaram inveja e cobiça nos estúdios hollywoodianos, tanto que para desespero de quem gostou dos originais, algumas foram regravadas (“Nove Rainhas”, “Simplesmente Marta” e “Morte No Funeral”, por exemplo). “Soul Kitchen” parece já ter sido concebido para isso – no pior sentido. Diferente dos exemplos citados, que primavam pela originalidade, este filme demonstra uma tendência totalmente americanizada em sua edição e roteiro, se apoiando em gags típicas de sitcoms e frases desprovidas de qualquer senso criativo. Se Fatih Akin tivesse realizado este filme com produtor americano, haveria uma saída fácil para conseguir culpar alguém pela tremenda bola fora.

Assim como boa parte de seus similares hollywoodianos, o longa começa bem, mas se perde com o desenrolar da trama. Abre-se espaço para situações comicamente forçadas e o bom elenco (incluindo Moritz Bleibtreu, de “Corra Lola, Corra”) se perde em atuações caricatas. Em alguns momentos, beira o ridículo, como a sequência em que um botão é a solução encontrada pelo roteirista – o próprio protagonista, Adam Bousdoukos – para resolver uma pendência judiciária. A impressão que se tem é que a qualquer momento Jim Carrey ou Seth Rogen podem invadir a cena fazendo caretas para o público.

Embalado pelo ar cult de seu diretor, mas recheado com um creme insosso de produções hollywoodianas de segunda linha, Soul Kitchen é uma grande decepção para quem tentar enxergar ali traços de Fatih Akin. Já quem não conhece a filmografia do diretor e procura apenas por uma hora e meia de diversão, pode até vir a se contentar com os risinhos amarelos proporcionados. Mas em ambos os casos, a sensação final será a mesma: vazio. Por toda a expectativa nutrida, a triste revelação da obra torna-se a grande mancha no currículo do diretor – e espera-se que seja a única.

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Leia também a crítica de Luciano Ramos:
Receita da comédia Soul Kitchen não tem nada de especial

Imagem de Amostra do You Tube

Soul Kitchen (Alemanha, 2009)

 ★★☆☆☆ 

+ Fabricio Ataide

Fabricio Ataide come, bebe e respira cinema. Fisioterapeuta por formação, bancário por necessidade, escritor por hobby e cinéfilo por vocação, assiste praticamente a todos os filmes que estreiam em circuito (inclusive os assumidamente ruins), vai estudar cinema (um dia) e dirigir um curta (outro dia). Mora em São Paulo e passa mais tempo nos cinemas da região da Paulista que na sua própria casa.

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