MOSTRA “Fausto”, filme de língua alemã dirigido pelo russo Alexander Sokurov, encerra nesta quinta (3/11) a programação de filmes inéditos da 35ª Mostra de São Paulo – que ainda vai se estender por alguns dias de repescagem. Vencedor do último Festival de Veneza, a produção recebeu elogios unânimes da crítica internacional.
A princípio, trata-se de uma nova adaptação do celebrado poema de Goethe, sobre o ambicioso Dr. Fausto que, sedento por conhecimento, faz um pacto com o demônio para superar a técnica e o progresso de seu próprio tempo, em troca da alma. Mas se revela uma obra muito mais elaborada. “Fausto é uma figura simbólica que fecha a série de grandes jogadores que perderam a aposta mais importante de suas vidas”, filosofou Sokurov, em entrevista realizada no festival italiano.
No contexto em que está inserido, trata-se também de um novo capítulo da tetralogia do diretor sobre o fascínio do poder. Os três filmes anteriores – “Moloch” (1999), sobre Hitler, “Taurus” (2001), sobre Lenin, e “O Sol” (2005), sobre o imperador Hirohito – já suscitavam reflexões sobre o tema, uma ponderação que “Fausto”, o primeiro da série a se inspirar em um personagem fictício, leva a campos ainda mais profundos.
“Os tiranos nos filmes anteriores viam-se como representantes de Deus na Terra, mas vinham a fazer a descoberta desagradável de que, afinal, eram apenas humanos”, lia-se nas notas de produção disponibilizadas para a imprensa. “Em ‘Fausto’, acontece o inverso: o personagem é transformado em ídolo bem diante dos nossos olhos, e a sua marcha triunfal ao redor do mundo está apenas começando quando o filme se encerra”, apontava a nota. Essas questões foram devidamente abordadas por Sokurov durante a entrevista coletiva com a imprensa (intermediada por um intérprete), que se seguiu à sessão aplaudidíssima do longa.
Segundo Sokurov, “Fausto” tem em comum com Hitler e Lenin “o amor por palavras que são fáceis de acreditar e uma infelicidade patológica pela vida cotidiana”. Na percepção do cineasta, “o Mal é reproduzível, e a obra de Goethe formulou a essência de que pessoas infelizes são perigosas”. As alusões a Hitler confirmam a teoria. Para o Sokorov, “é impossível imaginar a literatura sem ‘Fausto’. O personagem é uma figura viva, humana e reflete tudo o que pode acontecer a uma pessoa”, declarou.
“Fausto” seria a história definitiva do Homem, com H maiúsculo, no sentido de “humanidade”. “É tanto a história do Homem quanto a história de um indivíduo, considerando os medos, apreensões e a eterna oportunidade humana de trair”, declarou o diretor. Para atingir o resultado que impressionou Veneza, ele contou que a equipe “se imergiu em tudo o que há de mais sombrio” e chegou a algumas compreensões intragáveis demais para serem filmadas. “Muitas cenas foram desconsideradas porque eu as achei muito extremas, insistentes no horror e na feiura”, confessou o cineasta.
Ainda assim, o resultado final é sombrio, pesado, drenado de cores e completamente adequado à proposta. Tanto que ele desistiu de seus planos iniciais de filmar no Vaticano com o elenco liderado pelo austríaco Johannes Zeiler – ator de séries, pouco conhecido fora da Áustria. “Na Itália, há muita perfeição, muita beleza e muita arte”, explicou o diretor.
Em vez buscar contraste em imagens sacras, ele transferiu a produção para a Islândia e filmou com atores de origem germânica, na língua de Goethe. Uma peregrinação pelo continente com suas diversidades étnicas, que reforça a universalidade da história e seu potencial em se comunicar com diferentes culturas.































