A final do Mundial de Clubes de 2005 foi sem dúvida um jogo tenso. Um nível de suspense que nem Hitchcock conseguiu proporcionar. O jogo terminou 1 a 0 para o São Paulo sobre o Liverpool, valendo o tricampeonato mundial para o Tricolor do Morumbi que, mais uma vez, foi ao Japão como azarão e voltou com a taça. O campeão europeu era considerado infinitamente superior, tido como imbatível, uma verdadeira seleção do mundo que nem sequer tomava gol há 11 jogos. A batalha foi épica.
Toda conquista desse nível tem contornos cinematográficos e a saga tricolor de 2005 foi bem documentada neste “Soberano 2″, com depoimentos de alguns torcedores (um estava no exterior assistindo pela internet, outro estava preso e o carcereiro era corintiano, outro vendeu o carro e se mandou pro Japão) e dos principais personagens da campanha vitoriosa.
Da diretoria, o atual presidente em crise Juvenal Juvêncio (vice de futebol na época) aparece folclórico como sempre, enquanto o Dr. Marco Aurélio Cunha (vereador, torcedor-símbolo e ex-diretor do clube) se emociona, aproveita para tirar sarro do rival preferido e nem precisa mais fazer campanha para se reeleger na cidade.
Do elenco, os destaques são o atacante Amoroso, decisivo na primeira partida contra o Al Ittihad; o volante Mineiro, decisivo ao marcar o gol do título contra o Liverpool; Aloísio Chulapa, autor do lindo passe que deixou Mineiro na cara do gol; o zagueiro uruguaio Diego Lugano, maior guerreiro em campo; e, é claro, o goleiro Rogério Ceni, que contra o time inglês tornou-se Mito e fez a maior partida de um goleiro em todos os tempos, executando verdadeiros milagres debaixo das traves.
Aquela falta cobrada pelo Gerrard que Rogério vai buscar no ângulo vale a ida ao cinema. A tela da TV é muito pequena para uma defesa tão grandiosa.
Apesar do sufoco contra o time árabe no primeiro jogo, “Soberano 2″ pega fogo mesmo é nessa final contra o Liverpool. Depois do gol de Mineiro aos 27 minutos do primeiro tempo, o que se vê é o domínio completo dos ingleses testando o sistema defensivo do São Paulo até o limite. Destaca-se aí a atuação do bandeirinha canadense Hector Vergara, o grande achado do filme. O homem anulou corretamente nada menos do que três gols do Liverpool, todos em lances complicados. Outro depoimento interessante, por quebrar o clima de oba-oba, é o do inglês torcedor do Liverpool. O cara é tão nojento e forçado que parece um ator representando.
Não há depoimentos do técnico Paulo Autuori, que não pode participar devido à incompatibilidade de agenda. Sua ausência é um tanto quanto irônica em um momento em que a atual direção do time acredita que o trabalho do técnico é secundário diante de sua estrutura.
“Soberano 2″ conta com as cenas dos jogos captadas para a TV. Para eliminar os elementos que fazem parte da transmissão (logo da emissora, placar, etc.) há um recorte na cena e, em planos mais fechados, os jogadores literalmente perdem a cabeça. Felizmente, as boas narrações de rádio e TV estão ali para muitas vezes superar o poder da imagem e nos lembrar que, antes dos LCD em full HD, um radinho de pilha bastava para o futebol acontecer.
Os defensores do futebol moderno, do futebol-arte e do futebol-de-videogame podem torcer o nariz, mas a vitória do São Paulo no Japão foi a consagração da retranca, da raça, da dedicação, da força de vontade de um underdog lutando contra um favorito milionário, ou seja, tudo aquilo que faz do futebol um esporte tão apaixonante.
Contra o Liverpool, o São Paulo foi um Rocky Balboa que não se cansou de apanhar e aguentou de pé até o fim. E isso, o próprio cinema nos ensinou, não é motivo de vergonha pra ninguém. Muito pelo contrário. Mas como o filme é um produto oficial do clube, não há nenhuma análise mais profunda sobre o que representa essa vitória de um time limitado (Fabão e Edcarlos na zaga, minha gente) contra o até então imbatível campeão europeu.
Assim, “Soberano 2″, como todos os DVDs de títulos e documentários chapa-branca bancados pelos próprios clubes, se limita a mostrar os fatos que são emocionantes por si só com uma edição caprichada e trilha sonora – neste caso, músicas pouco inspiradas do ilustre são-paulino Nando Reis na abertura e no encerramento.
Junto com o primeiro “Soberano”, que trazia as 6 conquistas do Campeonato Brasileiro, esta sequência é mais um souvenir de luxo para torcedores são-paulinos, que vale muito mais como um pôster de campeão pendurado na parede do que como um documentário.
Soberano 2 – A Heróica Conquista do Mundial de 2005
(Brasil, 2012)





































1 Comentário
Filme muito bom, fantastico!!!