Série sci-fi brasileira procura canal de TV

O Brasil ainda não conseguiu produzir uma série de ficção científica sem pender para o lado besteirol cômico (como “O Sistema”, exibido na Rede Globo em 2007), mas isso pode mudar, desde que o pessoal das produtoras Maria Bonita Filmes e Nation Filmes encontre um canal de TV que se proponha a coproduzir a série “3%”.

O projeto, uma iniciativa independente, já ganhou dois concursos de desenvolvimento e produção de piloto para TV, mas ainda falta o contrato para produzir e exibir a série completa. Por enquanto, o que está disponível são as três partes de um piloto já gravado. E é de tirar o fôlego.

Surpreendente e criativa, a série acompanha a luta dos personagens para fazer parte de 3% dos aprovados que irão para o Lado de Lá. A trama se passa em um mundo no qual todas as pessoas, ao completarem 20 anos, podem se inscrever em um processo seletivo.

Apenas 3% dos inscritos são aprovados e serão aceitos em um mundo melhor, cheio de oportunidades e com a promessa de uma vida digna. O processo de seleção é cruel, composto por provas cheias de tensão e situações limites de estresse, medo e dilemas morais.

Com influências declaradas – segundo o canal da série no YouTube – de filmes como “Metropolis”, “O Processo”, “1984″, “A Experiência”, “Código 46″, “Blade Runner”, “THX 1138″ e até o seriado “Lost”, o pessoal conseguiu, com poucos recursos financeiros e sem precisar utilizar efeitos visuais mirabolantes, construir um mundo fictício sinestésico cuidado nos mínimos detalhes.

Em entrevista, Pedro Aguilera, criador e roteirista da série, explica que “a ideia veio por influência de distopias que estava lendo na época”. “Uma das coisas que mais me atraiam nos conflitos dos jovens brasileiros era a dificuldade de entrada no mercado de trabalho (e outros tipos de seleção), por isso pensei em exagerar essa característica da nossa sociedade, criando esse processo único, cruel e intenso para os personagens enfrentarem”.

Pedro e os três diretores da série – Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema – estudaram Audiovisual juntos, na ECA-USP. Mirando longe, os quatro ousaram ao convidar nomes renomados para formar a equipe.

“Foi incrível que essas pessoas, como o diretor de arte Fabio Goldfarb, o montador Márcio Hashimoto, o músico Érico Theobaldo, o preparador de atores Roberto Áudio, o desenhista de som Edu Mendes, que foi nosso professor na faculdade, o fotógrafo Zé Bob Eliezer – que a gente já era muito fã – tenham se interessado pelo projeto e agregado tanto ao ’3%’. E a equipe de produção, com a Camila Groch, e direção (assistentes de direção, continuísta) nos deu um suporte que foi fundamental para conseguirmos realizar esse trabalho”, conta Daina, uma das diretoras.

Daina explicou ainda sobre a busca de verba para continuar a produção: “Os produtores da Nation Filmes estão nos apoiando e correndo atrás de canais de TV interessados. Vencemos o Festival Internacional de TV no Rio de Janeiro em 2010 e vamos ao Festival de TV de Nova York no segundo semestre. Então, o projeto ainda tem boa visibilidade. A recepção na internet está nos deixando muito felizes. Estamos esperançosos que conseguiremos o financiamento de alguma rede de TV para os próximos 12 episódios dessa primeira temporada”.

Desde a montagem de timing preciso, o elenco de boas atuações, a trilha sonora e uma qualidade fotográfica incrível, o projeto foi todo muito bem pensado e elaborado até agora. A história é intrigante e tem quê de vício que deixa a curiosidade aguçada para os próximos capítulos.

Sobre isso (o futuro da série), Daina Giannecchini também falou um pouco: “O que se pode esperar é que o universo de ’3%’ é mais complexo que aparenta. E que conhecer os protagonistas vai ser uma experiência intensa, especial, já que eles terão que se superar nesse ambiente tão duro. Não podemos dar spoilers sobre o Lado de Lá (risos), mas o que podemos dizer é que o jeito que pensamos a direção é sempre mesclando o uso de efeitos de pós com a construção de coisas reais”.

Fazer sci-fi no Brasil, ainda mais de forma independente, parece uma missão impossível. Mas a equipe usa criatividade para driblar os altos custos que são associados ao gênero. “Às vezes somos ligeiramente megalomaníacos, mas priorizamos a forma mais simples e que funciona melhor na tela, e sempre evitando deslocar o foco de atenção para os efeitos em si”, explica Daina.

Ajuda na concepção, uma trama mais voltada à reflexão que à ação. “Durante um bom tempo da temporada, vamos continuar trabalhando essa coisa crua, do concreto, das salas e corredores sem muitos adornos, tudo para deixar o ambiente tenso, e poder aprofundar no aspecto psicológico. A ideia é revelar a complexidade desse universo aos poucos, afinal de contas, retratamos um outro mundo em outro tempo, diferente do nosso, mas com características que fazem pensar sobre o nosso próprio”.

Boa sorte à equipe e que o projeto se conclua logo!

Confira abaixo os vídeos disponibilizados até agora, que representam o sensacional piloto da série.

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3%

Imagem de Amostra do You Tube
Imagem de Amostra do You Tube
Imagem de Amostra do You Tube
(Brasil, 2011)

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+ Fred Burle

Fred Burle é mineiro-brasiliense e atualmente reside em Berlim. É produtor audiovisual, tem no currículo 5 curtas-metragens concluídos, além de um documentário em longa-metragem - ainda em fase de finalização. Viciado na sétima arte, publica suas críticas e outros artigos, notícias e curtas-metragens no blog Fred Burle no Cinema

4 Comentários

  • Patrícia Identicon Icon Patrícia
    13 de julho de 2011 | Permalink | Responder

    Cara, TV é um troço perigoso. Eu torço por eles, mas eles estão perfeitos demais para se dobrarem a falta de sutileza imposta pela tv brasileira. Cinema seria uma boa idéia.

  • Daniel S Identicon Icon Daniel S
    23 de junho de 2011 | Permalink | Responder

    O engraçado é ver o brasileiro na internet dando total apoio a uma produção como esta, mas não vermos se quer uma emissora, seja ela tv paga ou aberta, querer, pensar ou tentar investir nisso.

    Me admira até a MTV que deixou de lado a música, que era o foco dela e passou a ter programas idiotas, não tentar essa investida como a MTV gringa tenta fazer.

    Por sinal, a HBO Brasil é outra que poderia tentar investir nisso. É o público que pede, é quem vai dar audiência que pede e aceito a série. Se ela for ruim ou não, ok… a gente cancela e pronto. É como lá fora.

    Só espero, com total sinceridade, que a GLOBO não coloque a mão nisso. Afinal, os roteiristas, produtores, etc… se venderão as ideias Globais e mudaram a história além de transformar isso numa mini série barata com filmagens estilo novela ridicula global.

  • 14 de junho de 2011 | Permalink | Responder

    pow tomara q dê certo parece ser um pessoal mt criativo e o Brasilo tem mts bons roteiristas diretores e atrtistas exelentes poucos explorados ainda tomarq de certo… ^^’

  • 14 de junho de 2011 | Permalink | Responder

    Poxa, a primeira vez que uma ficção brasileira ser tão empolgante assim. Se uma TV bancar o projeto já imagino como serão os episódios. Além do mais a história pode caminha para vários lados empolgantes. Espero que eles consigam patrocinadores. Pelo bem das produções brasileiras.

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