Sergio Britto (1923 – 2011)

Morreu o ator, roteirista e diretor Sergio Britto, aos 88 anos. Ele estava internado desde novembro no Hospital Copa D’or, no Rio, por conta de problemas cardiorrespiratórios, e faleceu na manhã de sábado (17/12).

Ele se formou em Medicina, em 1948, mas o tempo gasto na faculdade foi melhor aproveitado com participações em montagens de peças universitárias, como “Romeu e Julieta”, em 1945.

Com Procópio Ferreira, no filme O Comprador de Fazendas

Chegou a tentar o suicídio pela amargura de se ver diante de uma carreira escolhida pelos pais. Mas no ano da formatura tomou a decisão de seguir nos palcos. Ainda em 1948, teve participação num espetáculo histórico, o “Hamlet” estrelado por Sérgio Cardoso. Em entrevista recente, porém, Britto disse que só começou a se considerar ator de verdade em 1953, a partir da montagem de “Uma Mulher e Três Palhaços”.

Nos anos 1950, participou de marcos da dramaturgia brasileira, em encenações do Teatro de Arena e do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Em 1959, foi fundador do Teatro dos Sete, em São Paulo, em parceria com Gianni Ratto, Fernanda Montenegro, Fernando Torres e Ítalo Rossi. Duas décadas depois, fundou também o Teatro dos Quatro, sala que funciona até hoje no Rio de Janeiro. Foi também diretor do Centro Cultural do Banco do Brasil. E recebeu dezenas de prêmios pelas mais de 130 peças em que trabalhou, tanto como ator quanto como diretor.

Com Fernanda Montenegro, na montagem de Ana Karenina do Grande Teatro Tupi

Na mesma década, estreou no cinema. A estreia veio em dose dupla, como diretor assistente e ator coadjuvante da comédia “O Comprador de Fazendas” (1951), de Alberto Pieralisi, sobre um texto de Monteiro Lobato. Estrelado pelo grande Procópio Ferreira, o filme fazia parte das incipientes tentativas de se lançar novos estúdios de cinema em São Paulo. Foi o maior sucesso da Companhia Cinematográfica Maristela, que era conhecida no meio como a “prima pobre da Vera Cruz”.

No ano seguinte, participou de “Modelo 19″, primeiro roteiro de Millôr Fernandes, rodado por outra companhia paulista com mania de grandeza hollywoodiana, a Multifilmes, em estúdios recém-construídos na Serra da Cantareira. O título era uma alusão à carteira de trabalho dos estrangeiros que chegavam no Brasil, tema da trama estrelada por Ilka Soares, Luigi Picchi, Mário Cerni e José Mauro de Vasconcelos (o futuro autor do clássico juvenil “Meu Pé de Laranja Lima”). O filme ganhou inúmeros prêmios da crítica.

Com Norma Blum e Aldo de Maio no Grande Teatro Tupi

Em 1953, desdobrou-se também em roteirista, escrevendo as histórias de três longas, nos quais também atuou: “Uma Vida para Dois”, “O Homem dos Papagaios” e “Destino em Apuros” (este lançado em 1954).

Curiosamente, sua carreira na TV também começou nos bastidores. Sérgio Britto foi pioneiro do teleteatro, como um dos fundadores, diretores e principais intérpretes do “Grande Teatro”, que produziu cerca de 450 peças na TV Tupi. Dirigiu também a peça “A Morte no Espelho” (1963), de Nelson Rodrigues, em teleteatro da TV Rio, a histórica “Ilusões Perdidas” (1965), primeira novela da TV Globo, e “A Muralha” (1968), marco da teledramaturgia da TV Excelsior, escrita por Ivani Ribeiro. Demorou a aparecer diante das câmeras, o que só aconteceu a partir de “Sangue do Meu Sangue” (1969), na Excelsior, em que manteve o hábito de acumular funções, como diretor e ator coadjuvante.

Leila Diniz e Reginaldo Faria, na novela Ilusões Perdidas

Envolveu-se com o Cinema Novo nos anos 1960, atuando em “O Desafio” (1965), de Paulo César Saraceni. Mas não teve no cinema o destaque que seu talento merecia, fazendo pequenos papeis de milionário ou chefe de gangues em filmes como “Society em Baby-Doll” (1965), “Caingangue” (1973), “Gordos e Magros” (1976), “Na Ponta da Faca” (1977) e “A Maldição de Sanpaku” (1991).

Aguardou 15 anos para voltar às telonas, em “O Maior Amor do Mundo” (2006), sua despedida do cinema, sob a direção de Cacá Diegues.

Com Ilka Soares, na novela Anjo Mau

Teve maior visibilidade na televisão, em participações nas novelas “Escalada” (1975) e “Anjo Mau” (1976), ambas de Cassiano Gabus Mendes, “Espelho Mágico” (1977), de Lauro César Muniz, “Olhai os Lírios do Campo” (1980), de Geraldo Vietri, “Paraíso” (1982) e o fenômeno “Pantanal” (1990), ambas de Benedito Ruy Barbosa. Além de “Pantanal”, participou de diversos projetos da TV Manchete, como a minissérie “Marquesa dos Santos” (1984) e as novelas “Dona Beija” (1986), “Kananga do Japão” (1989) e “A História de Ana Raio e Zé Trovão” (1990) e “Xica da Silva” (1996).

A dificuldades financeiras que levaram à falência da TV Manchete o levaram a uma verdadeira peregrinação pela sintonia brasileira, passando por praticamente todos os canais, incluindo participações em “Serras Azuis” (1998), da TV Bandeirantes, a “Vidas Cruzadas” (2000), sua última novela, na TV Record.

Com coadjuvantes da novela A História de Ana Raio e Zé Trovão

Atuou ainda em minisséries e projetos importantes na TV Globo, como “Memorial de Maria Moura” (1994), dos cineastas gaúchos Jorge Furtado e Carlos Gerbase, a biografia “Chiquinha Gonzaga” (1999), de Lauro César Muniz, e do especial “O Natal do Menino Imperador” (2008), em que viveu Dom Pedro II, em sua despedida da televisão.

Paralelamente à carreira televisiva, Sergio Britto cultivou sua verdadeira paixão em espetáculos cada vez mais “difíceis”, como “Fim de Jogo” (1970), “Tango” (1972), “Autos Sacramentales” (1974) e “Quatro Vezes Beckett” (1985). Este última, marcou o início da trajetória do diretor Gerald Thomas no Brasil. Dirigiu também algumas óperas, inclusive uma polêmica “Traviata” (1974), e fundou uma escola de atuação no Rio de Janeiro, a CAL – Casa das Artes de Laranjeiras.

Como Dom Pedro II, em O Natal do Menino Imperador

Em 1996, lançou a autobiografia “Fábrica de Ilusão: 50 Anos de Teatro”, mas ainda não era seu resumo definitivo de vida. Uma segunda biografia, “O Teatro e Eu”, foi lançada no ano passado.

Em 2009, ainda ganhava prêmios de Melhor Ator, e trabalhou incansavelmente durante seus últimos meses de vida. Seu último trabalho foi a atuação na peça “Recordar É Viver”, dirigida por Eduardo Tolentino de Araújo, em texto de Hélio Sussekind, que ficou em cartaz até o começo de 2011.

Autografando sua autobiografia, O Teatro e Eu

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