Roberto Carlos inspira À Beira do Caminho

RECIFE Se antes Breno Silveira embalou o melodrama familiar “2 Filhos de Francisco” com músicas de Zezé di Camargo e Luciano, em seu novo trabalho, “À Beira do Caminho”, o mote é Roberto Carlos. Mas, diferente do sucesso de 2005 – que arrebanhou mais de 5 milhões de espectadores -, aqui não se trata de uma biografia. O terceiro longa-metragem do cineasta carioca se inspira em composições do Rei para narrar a trajetória íntima e pessoal de um homem (João Miguel) lidando com uma grave perda.

O ator vive um caminhoneiro traumatizado que, na estrada, é obrigado a dar carona a um garoto (Vinicius Nascimento) que perdeu a mãe e procura o pai. A jornada da dupla – viagem típica de aprendizado mútuo – será permeada por dizeres de traseiras de caminhões e especialmente por canções de Roberto Carlos, que auxiliam a narrar a história.

É um filme bem mais melodramático e dependente de emoções do que era “2 Filhos de Francisco”, o que tem alguns aspectos bons, mas outros bastante ruins.

A sessão do filme que abriu a competição do Cine PE, no Cine Teatro Guararapes, foi prejudicada por um grave problema de som, o que fez perder diálogos e quase todo o trabalho acústico do filme. A falha, porém, não evitou que os espectadores aplaudissem efusivamente ao final do filme. Em conversa com jornalistas no fim de semana, Breno Silveira se mostrou triste pelo problema no som, mas contente porque “o público entendeu o filme, mesmo sem ouvir muito bem o que era dito”.

Para ele, a primeira apresentação pública de “À Beira do Caminho” tinha componente maior do que apenas estar competindo num festival. A esposa de Breno morreu durante a montagem do filme. Como o enredo trata justamente da morte de um ente querido – e as consequências disso na vida de um homem que decide fugir de si mesmo -, o diretor precisou dar um tempo na finalização do longa. “Quando eu entrava na ilha de edição, ficava muito emocionado e não conseguia continuar”, disse, de olhos marejados e admitindo não ser capaz de falar detalhes sobre o assunto.

A ideia de “À Beira do Caminho” surgiu quando a jornalista Lea Penteado, muito próxima a Roberto Carlos, sugeriu a Breno que fizesse um filme a partir de algumas músicas do Rei. “Ela me enviou um esboço de argumento que gerou o roteiro feito por mim e pela Patrícia Andrade”, conta o diretor. “O filme ganhou a simplicidade e a força das músicas do Roberto”.

Para a trilha sonora, Breno Silveira conseguiu autorização de usar quatro canções do Rei, em fonogramas originais – “Distância”, “Outra Vez”, “Amigo” e “O Portão”. Elas foram cedidas após um ano de negociações, e só depois de Roberto Carlos assistir a uma primeira versão do trabalho pronto. “Ele mesmo me sugeriu abrir o filme com ‘Distância’, que tem tudo a ver com o personagem do João Miguel. Isso mostrou o quanto o Roberto tem uma sensibilidade muito maior que a minha”, exalta Breno.

“À Beira do Caminho” já tem estreia prevista para o dia 10 de agosto nas salas de cinema. E dois meses depois, deverá entrar em cartaz “Gonzaga: De Pai para Filho”, mais um filme de Breno com temática musical. Trata-se de uma ficção sobre o relacionamento entre os músicos Luiz Gonzaga (1912-1989) e Gonzaguinha (1945-1991), pai e filho.

O novo trabalho está em fase de finalização e deve fazer parte das celebrações do centenário do Rei do Baião. O elenco tem Nivaldo Expedito de Carvalho (o Chambinho do Acordeon) no papel de Gonzagão e Julio Andrade como seu filho.

Por sua vez, o ator João Miguel aparece, neste ano, em ao menos três filmes. Além de “À Beira do Caminho”, ele está no elenco de “Xingu” (em cartaz) e “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” (ainda inédito), pelo qual venceu troféu de melhor ator no Festival do Rio em 2011.

+ Marcelo Miranda

Marcelo Miranda é crítico de cinema do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, foi curador do Festival de Brasília 2010 e é colunista da revista eletrônica Filmes Polvo. Você pode acompanhar suas matérias também no blog do Polvo.

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