VENEZA O thriller “The Company You Keep” representa uma novidade para o diretor Robert Redford, cuja carreira como cineasta vinha sendo pautada por uma sucessão de dramas. Embora não faltem elementos dramáticos no novo filme, o jogo de identidades falsas, investigação e perseguição destaca-se de seus outros trabalhos na direção e o aproxima de seus melhores momentos como ator. Além de voltar a viver um herói perseguido, como no trepidante suspense “Três Dias do Condor” (1975), a trama traz investigação jornalística e o pano de fundo histórico de “Todos os Homens do Presidente” (1976).
“The Company You Keep” também marca o retorno de Redford à frente das câmeras. Ele preferiu não atuar em seu filme anterior, o docudrama “Conspiração Americana” (2010), e não estrelava um longa há cinco anos, desde “Leões e Cordeiros” (2007). Vigoroso e contundente aos 76 anos, o “Brad Pitt dos anos 1970″ mostrou bom humor ao dizer que ficou tanto tempo sem filmar porque “ninguém me quis” neste período.
Isto não significa que ele não estivesse bastante ativo. Redford é o criador e diretor do principal festival de cinema independente do planeta, o Festival de Sundance, que foi batizado com o nome de seu personagem no filme “Butch Cassidy” (1969). O papel atuante nos bastidores cinematográficos mantém viva sua maior paixão após o cinema, a política. Seus filmes mais recentes demonstram um engajamento cada vez mais claro do diretor. Em “Leões e Cordeiros”, ele debatia frontalmente a futilidade da guerra no Oriente Médico, quando a mídia ainda tinha receio de tocar no assunto.
Em “The Company You Keep”, ele aborda o radicalismo político que marcou a sua própria geração, envolvida em protestos nos anos 1960 e 1970. Nos EUA, não houve a anistia política que permite a uma ex-integrante de movimento radical ser Presidente do Brasil. Quem se rebelou contra o governo, durante a época da Guerra do Vietnã e da eliminação sistemática (assassinatos) de líderes da esquerda nos EUA, precisou cair na clandestinidade, de onde não pode sair até hoje.
A trama reflete os atos da organização radical Weather Underground, que praticava atentados contra prédios federais em protesto nos anos 1970. Redford dirige e atua, no papel de um advogado viúvo, pai de uma menina de 12 anos, que vê seu passado de militante político vir à tona quando uma ex-companheira (Susan Sarandon) é presa. Acontece que numa das ações do grupo, durante um assalto a banco, houve um assassinato, e isto mantém o grupo na lista dos procurados do FBI por 40 anos. Paralelamente, um jornalista (Shia Labeouf) investiga a história, chegando até Redford, que se vê obrigado a fugir.
“Não pude falar sobre o assunto na época, porque era um evento ao vivo. Agora é um pedaço da história americana”, explicou ao ator para a imprensa, durante o Festival de Veneza, onde o filme foi exibido fora de competição.
Redford não esconde sua simpatia pelos jovens militantes daquele período conturbado, que tinham como slogan “Não é preciso ser o homem do tempo para saber em que direção o vento sopra”, inspirados em Bob Dylan. “Os radicais dos anos 1960 tinham ideias corretas e suas intenções eram boas. Eu simpatizava com eles. Aqueles radicais iam contra a hipocrisia, contra um poder que lhes estrangulava em vez de potencializá-los. Não se pode dizer que a causa deles não fosse justa, afinal os Estados Unidos estavam metido numa guerra injusta. O que se pode, sim, é fazer reparos aos métodos que empregam”, explicou o diretor, que conclui em seu filme que as vidas pessoais dos militantes pagaram um preço muito alto pelo compromisso com a causa.
“O que mais me interessa nestes personagens é a vida pessoal deles depois de tantos anos. Quais foram os sacrifícios que tiveram que fazer? Como se sentem depois que trocaram suas identidades? Se arrependeram? Se voltariam a fazer o que fizeram ou fariam de outra maneira?”, ele questiona. Na tela, porém, seu personagem é mais moderado, deixando para outros os discursos mais radicais, como o de Julie Christie, que se nega a se entregar à justiça até que os milionários e os corruptos também sejam presos.
Na entrevista, o cineasta revela-se mais militante que o personagem. “Assino totalmente essa ideia”, ele assumiu. “Os muito ricos sempre acabam sobrevivendo. Até quando Wall Street passa por uma crise, eles seguem por aí e tudo bem, mantendo seus poderes por algum tipo de razão, enquanto o resto sofre. Para mim, as convenções dos republicanos se dedicam justamente a esse tipo de gente, que não representa mais que 1% da população dos Estados Unidos”, politizou o ator.
Em ano eleitoral, Redford não esconde seu voto. “Agora, nos Estados Unidos, há duas maneiras de lidar com essa situação: a de Obama, que assume que é preciso mudar e procura a maneira mais positiva, e a daqueles que têm medo da mudança porque ficariam para trás”, crê o astro, que ainda enxerga poder revolucionário em movimentos como Ocupe Wall Street. “Toda geração tem seu momento de rebelião”, ele conclui.
































