RIO: Paul Giamatti perde a alma em comédia surreal

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E se a alma pudesse ser retirada do corpo? Melhor, e se a alma pudesse ser trocada por uma outra de nossa escolha. “Tráfico de Almas” (Cold Souls, 2009) parte dessa premissa, no mínimo inusitada, com a intenção de divertir o público. É uma comédia apoiada em uma idéia estapafúrdia, que funciona pelo modo sério que o elenco trata o assunto.

Na trama, o ator Paul Giamatti, que interpreta uma versão de si mesmo, está tendo dificuldades durante a encenação de “Tio Vânia”, clássico de Chekhov. Giamatti não consegue sair do personagem após os ensaios. Toda a densidade psicológica, a melancolia, o tédio e o vazio estão torturando sua existência. Ansioso, encontra um anúncio de uma empresa que promete retirar a alma e com isso remover o peso de uma vida angustiada.

Giamatti vai a clinica e lá conhece o Dr. Flintstein (David Strathairn), que promete resolver seus problemas com a retirada da alma. A alma é tratada na narrativa como sendo mais um órgão e que pode ser retirada através de uma máquina. Giamatti aceita. Em vez de melhorar, ele se torna um ator que não consegue controlar suas emoções, perde o interesse em sua esposa (Emily Watson) e começa a levar uma vida sem sentido. Insatisfeito com o resultado, resolve recolocar sua alma de volta. Porém, descobre que a mesma foi roubada por Nina (Dina Korzun), uma traficante de almas, e levada para a Rússia para ser introduzida em uma atriz (Katheryn Winnick) medíocre de novelas.

Em um primeiro momento, “Tráfico de Almas” parece um roteiro saído da mente pouco comum de Charlie Kaufman (“Quero ser John Malkovich”, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, entre outros). Apesar de lembrar os trabalhos de Kaufman, o longa tem luz própria. O projeto marca a estréia da diretora Sophie Barthes, que também assina o roteiro, inspirado em “Almas Mortas”, livro escrito pelo ucraniano Nikolai Gogol, importante autor da literatura russa.

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O humor é todo calcado nos diálogos disparados com extrema seriedade sobre a técnica surreal de retirada da alma e suas conseqüências. Barthes aproveita o tópico para estimular o debate sobre o papel da ciência na sociedade atual, em que a medicina pode consertar qualquer imperfeição humana. Basta ter dinheiro. Fica subentendida uma cutucada nas cirurgias plásticas. A boa atuação de David Strathairn remete ao típico cirurgião plástico preocupado com a estética.

Ao mesmo tempo, Barthes faz referências ao mercado negro e tráfico de órgãos, através de uma quadrilha russa de traficantes de almas. Até o conceito de “mula” (pessoa que ingere dezenas de saquinhos contendo drogas para atravessá-las entre um país e outro) é utilizado para traficar almas.

A sátira também ataca o campo dos astros de Hollywood, através do conceito que diferencia os atores protagonistas dos eternos coadjuvantes. As almas de estrelas como George Clooney, Kevin Spacey e Al Pacino, entre outros, são o objeto de desejo da atriz russa para conseguir talento. As diferenças entre um ator de cinema e TV também são alvo da chacota.

As alusões ainda flertam com a psicologia e a filosofia. Barthes transmite a mensagem de que o ser humano precisa de suas angústias e o peso de sua consciência para ser completo. Ele deve aprender a conviver com suas inseguranças e frustrações, além de lidar com seu inconsciente. Algumas metáforas são inseridas em sequências de sonhos. A alma “física” acaba simbolizando a metafísica. E o existencialismo surge aos poucos para apimentar ainda mais o debate.

Todas essas reflexões ganham força através da ótima interpretação de Paul Giamatti, que transmite uma enorme credibilidade à narrativa. Através de pequenas diferenças gestuais e de expressão, ele demonstra os contrastes entre estar com ou sem alma.

“Tráfico de Almas” é um filme de baixo orçamento, mas de alta inteligência. Diverte e estimula o raciocínio. Uma pequena pérola que marca de forma positiva a estréia de Sophie Barthes em longas.

Imagem de Amostra do You Tube
Tráfico de Almas (Cold Souls, 2008)

+ Mario Abbade

Mario Abbade é jornalista e publicitário com extensa bagagem como repórter, crítico, curador de mostras e professor desde 1990. Foi crítico/repórter do site Omelete de 2004 a 2007 e atuou na área de cinema do Jornal do Brasil de 2006 a 2008. Em 2008 colaborou no Globo on Line. Atualmente edita o site Almanaque Virtual.

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