COMIC-CON A baladação em torno de “Prometheus”, nova sci-fi de Ridley Scott, é plenamente justificável. O longa começou a ser concebido como um prelúdio de “Alien – O Oitavo Passageiro”, um dos exemplares mais cultuados do gênero, dirigido por Scott em 1979. Depois, um roteiro reformulado por Damon Lindelof, produtor de “Lost”, convenceu o cineasta a transformar o argumento em um projeto quase inteiramente novo, que o estúdio está gestando em sigilo absoluto.
O painel de “Prometheus” na 42ª edição da Comic-Con de San Diego serviu para esclarecer alguns dos muitos pontos ocultos da empreitada e para aguçar ainda mais a curiosidade dos aficionados. O bate-papo incluiu vídeo-conferência com Scott diretamente do set de filmagens, e começou com Lindelof explicando o seu envolvimento com o filme.
“Estava dirigindo meu carro há um ano quando meu telefone tocou. Era alguém dizendo que Ridley Scott ia me ligar em 5 minutos e perguntando se eu estava disponível. Suficiente para ter um ataque de ansiedade e bater meu carro enquanto aguardava falar com Ridley”, brincou Lindelof. “Ele me enviou o roteiro e, enquanto eu lia, pairou a questão: ‘Esse é um prelúdio de Alien?’. Esse foi o início do processo de trabalhar com esse cara, cujo currículo me inspirou tanto a entrar para esse ramo”, saudou o roteirista.
Damon reformulou o texto, de modo que o primeiro roteiro mais parecia um rascunho da versão final. As indiretas a “Alien” ficaram menos acentuadas, e a ponto de, oficialmente, o filme não ser mais tratado como um prólogo da franquia. Um ponto ou outro, porém, ainda deve interligar as duas obras. “A graça de ver ‘Prometheus’ é como as pessoas vão tentar conectar os dois. Para os fãs do filme original, vai ser como caçar ovos de Páscoa”, sugeriu o roteirista, que respondeu apenas o estritamente essencial.
Lindelof se esquivou de perguntas sobre a possível e comentada aparição do Space Jockey, aquele alien estranho e fossilizado do primeiro filme que, segundo rumores, teria sua origem explicada em “Prometheus”. Há um indício forte de que o personagem será visto: H.R. Giger, artista plástico suíço responsável pelo visual da criatura, retornará ao cargo no novo filme. A mão de Giger, aliás, é perceptível pelo vídeo exibido, que continha um material inédito e exclusivo de “Prometheus”.
Antes das cenas, o vídeo recapitulava os pontos cruciais da carreira do diretor, relembrando o quanto Scott já se desafiou como cineasta ao longo das décadas e o quanto o público já desfrutou desse trabalho. As imagens de “Prometheus” mesclavam sequências de bastidores às cenas integrais da produção.
O visual remete por completo a “Alien”, resgatando a paleta de cores e a estrutura do cult. A trama em si ainda continua anuviada, mas, pela apresentação, ficou a forte sugestão de que será centrada na origem da humanidade na Terra e no primeiro contato com uma inteligência alienígena diferente da nossa.
A deslumbrante Charlize Theron, que também participou da Comic-Con deste ano como parte do elenco de “Snow White and the Huntsman”, juntou-se a Lindelof após a exibição. Foi a única integrante do elenco a comparecer, já que as filmagens ainda estão acontecendo com Michael Fassbender (“X-Men: Primeira Classe”), Noomi Rapace (“Os Homens que Não Amavam as Mulheres”), Idris Elba (“Thor”) e Guy Pearce (“O Discurso do Rei”).
Theron interpretará uma executiva chamada Meredith Vickers, a supervisora de uma exploração espacial. “Ela praticamente dirige a companhia que colaborou para fundar essa missão”, explicou.
A atriz confessou ainda que não aceitou o papel de primeira. “Queria trabalhar com o Ridley, é claro, mas senti que a personagem era unidimensional”, comentou ela, que leu a primeira versão do script.
Depois do pente fino passado por Lindelof no texto, Vickers tornou-se mais complexa e matizada. “Ela começa de um jeito e se torna outra”, contou Charlize, antecipando as reviravoltas do enredo. Um deleite para os marmanjos: Theron protagoniza uma cena em que faz abdominais completamente nua. A sequência, vislumbrada na convenção, fez uma parcela do público salivar.
E o dono da festa, Ridley Scott em pessoa, não deixou a distância lhe impedir de compartilhar a sua visão do projeto. Por vídeo-conferência, pode falar diretamente da Islândia à Comic-Con. “Parece que estou apresentando um programa sobre a vida selvagem”, brincou o cineasta, que apareceu no telão ao lado de Noomi Rapace, diante de cataratas islandesas.
Lindelof, de São Francisco, apontou que há 25 anos Scott não se aventura na ficção científica, ao que o diretor simplesmente replicou que estava “muito ocupado fazendo outros filmes e outros gêneros”.
Mas o afastamento não significou desligamento: a mente de Ridley continua aguçada para a sci-fi, ao ponto de notar uma brecha que ele e outros que filmaram sobre essa égide deixaram escapar. “Percebi que havia algo no primeiro ‘Alien’ que ninguém nunca havia apontado, e isso me perturbou. Percebi que havia algo que poderíamos explorar, algo que nenhum outro filme da franquia usou, também. Foi quando decidi brincar um pouco com o DNA de ‘Alien’”, explicou o diretor.
Tal como Lindelof, ele foi cuidadoso para não entregar demais. De suas dicas e sugestões, extraíram-se ao menos duas informações curiosas: o final de “Prometheus” pode – ênfase nesse “pode” – remeter ao início de “Alien”, e pelo menos dois personagens – não especificados, é claro – serão robôs.
As filmagens estão acontecendo em 3D, a obrigatoriedade mercantil do momento, mas Ridley aproveitou o tempo que lhe restava de video-conferência para defender o uso da tecnologia. “Tem sido um exercício maravilhoso. Comecei como cameraman, então saquei de imediato o processo e aprendi a escolher as lentes corretas para fazer o 3D funcionar”, disse, agradecendo ainda à equipe que o assessorou durante a adaptação.
E foi além nos elogios: “Agora que fiz uma vez, nunca mais trabalharei sem 3D novamente, mesmo que para cenas de pequenos diálogos”. Afirmação de peso!
Ao final do painel, ficou a sensação de que o público já sabia muito mais sobre “Prometheus”, mesmo que, em tese, pouco tenha sido antecipado. Um elemento-chave talvez seja a confirmação do título, que, até a Comic-Con, ninguém sabia se referia-se a uma nave, um personagem ou ao mito grego.
Lindelof fez o favor de explicar: “Prometheus foi um titã que roubou fogo dos Deuses porque Eles o estavam regulando, preocupados com o que a humanidade faria se o obtesse. Esse é um tema ressonante. O que nós, humanos, estamos fazendo, mas não deveríamos fazer?”, ponderou o roteirista.
“Sei que soa bem pretensioso, como ‘Inception’”, brincou, referindo-se ao filme de Christopher Nolan, que ganhou o título “A Origem” no Brasil. Resta aos brasileiros esperar que o significado poético de “Prometheus” não se perca na tradução. Até lá, vai-se quase um ano a mais de ansiedade: o filme só chega aos cinemas em 15 de junho de 2012.





































