Ricky Gervais cria fábula moderna em O Primeiro Mentiroso

“Pepsi: Para quando não há Coca-Cola!”. É com esta fictícia propaganda, uma verdade quase universal, que os diretores e roteiristas Ricky Gervais e Matthew Robinson apresentam um dos filmes mais bacanas que o cinema brasileiro não teve o prazer de exibir em 2010. Já na abertura de “O Primeiro Mentiroso”, o público terá noção do sarcasmo do roteiro, uma hilariante e fantasiosa história que se passa em um mundo onde não há o conceito da mentira. Aqui, todos dizem o que realmente pensam, sem rodeios ou omissões – o que seria um desastre de proporções catastróficas em nossa sociedade.

Mark (o próprio Gervais) tem um dos empregos mais tediosos já criados na ficção (mas um dos mais invejados na vida real): o de roteirista. O cinema no filme, porém, é um conceito totalmente avesso ao que conhecemos. Explicar como os filmes dentro do filme são gerados é privar o leitor de se surpreender com as mais absurdas sequências do longa. Ao ser notificado sobre sua demissão, Mark – um homem simples e de ar irremediavelmente tristonho – nada tem a fazer a não ser aceitar sua miserável condição.

Sua vida muda na fila do banco, quando a atendente lhe pergunta quanto ele quer sacar. É neste momento que sua mente processa aquela que seria a primeira mentira da história. Mark arrisca um valor muito superior àquele que possui, e como a funcionária – assim como todos nessa fábula – não conhece o conceito da desconfiança, lhe entrega o dinheiro.

É dada então a partida para uma sucessão de mentiras lançadas em benefício próprio, melhorando sua qualidade de vida – e gradativamente piorando a dos outros.

Ele vai em busca da garota dos seus sonhos, Anna (Jennifer Garner, de “De Repente, 30″), que havia lhe rejeitado anteriormente por questões óbvias. Aliás, a cena daquele encontro é assustadoramente divertida, com todas as verdades sendo ditas sem papas na língua por ela, castigando-o pela sua ausência de charme e beleza enquanto ele revela-lhe suas intenções.

São muitas as boas sacadas do longa, com observações inteligentes e habilidosas auxiliadas por um verdadeiro time de celebridades como Tina Fey (série “30 Rock”), Phillip Seymour Hoffman (“Capote”), Edward Norton (“Incrível Hulk”), Jason Bateman (“Coincidências do Amor”), Jonah Hill (“Superbad”) e Rob Lowe (série “Brothers & Sisters”).

Enquanto brinca com o poder da inocência e falta de malícia de seus personagens, o roteiro demonstra-se inteligente e sagaz. Mas quando o protagonista acidentalmente inventa uma religião e o filme resolve se direcionar para o lado da comédia romântica, o roteiro perde força e corre o risco de diluir o interesse do espectador.

Lançado diretamente em DVD, esta invenção da mentira é uma interessante inserção em um fabuloso mundo onde as relações humanas, alicerçadas exclusivamente na verdade, revelam-se muito mais difíceis que aquelas da vida real, baseadas no “pense antes de dizer”.

Imagem de Amostra do You Tube

.

O Primeiro Mentiroso

(The Invention of Lying EUA, 2009)

Lançamento em DVD

 ★★★☆☆ 

.

+ Fabricio Ataide

Fabricio Ataide come, bebe e respira cinema. Fisioterapeuta por formação, bancário por necessidade, escritor por hobby e cinéfilo por vocação, assiste praticamente a todos os filmes que estreiam em circuito (inclusive os assumidamente ruins), vai estudar cinema (um dia) e dirigir um curta (outro dia). Mora em São Paulo e passa mais tempo nos cinemas da região da Paulista que na sua própria casa.

1 Comentário

Deixe um comentário

Add your comment below, or trackback from your own site. You can also subscribe to these comments via RSS.

Seu email nunca aparece.