Richard Zanuck (1934 – 2012)

Morreu Richard D. Zanuck, produtor de clássicos como “A Noviça Rebelde” (1965), “Planeta dos Macacos” (1968), “Tubarão” (1975), “Alice no País das Maravilhas” (2010) e vencedor do Oscar por “Conduzindo Miss Daisy” (1990). Ele faleceu vítima de um ataque cardíaco, na sua casa em Beverly Hills, aos 77 anos.

Filho do lendário produtor Darryl F. Zanuck, responsável pela era de ouro da 20th Century Fox, Richard nasceu em Los Angeles no dia 13 de dezembro de 1934 e viveu uma vida de privilégios ao lado das irmãs, Darrylin e Susan, e de sua mãe, a outrora famosa atriz de filmes mudos Virginia Fox. Apesar da fortuna da família, Richard começou a trabalhar aos 9 anos de idade. Para que o filho aprendesse o valor do dinheiro, Darryl F. Zanuck o fez vender cópias do jornal Saturday Evening Studio dentro dos muros da 20th Century Fox – claro, com um chofer que o levava para buscar as cópias.

Com o pai, Daryl F. Zanuck, numa reunião de diretoria da 20th Century Fox

Quando estava na 6ª série do ensino fundamental, Richard foi “promovido” e passou a receber roteiros do pai, que pedia sua opinião e já o preparava para os negócios da família. O menino também tinha acesso às filmagens diárias e assistia aos primeiros cortes dos filmes que o pai produzia. Além disso, frequentava as festas de Shirley Temple, a maior estrela mirim de todos os tempos.

Já adulto, matriculou-se na escola militar de Harvard, onde se destacou no atletismo, mas acabou se formando em Literatura Inglesa na Universidade de Stanford, em 1956. Depois disso, foi trabalhar com o pai, que tinha se desligado da 20th Century Fox para montar seu próprio estúdio.

A Noviça Rebelde

Em 1959, aos 24 anos de idade, Zanuck produziu o seu primeiro filme, “Estranha Compulsão” (Compulsion). Dirigido por Richard Fleischer, o filme em preto e branco tinha um estilo quase documental, e destacava Dean Stockwell e Bradford Dillman como os adolescentes que acreditavam ter cometido o crime perfeito, além de Orson Welles. Os três atores dividiram o prêmio de interpretação no Festival de Cannes daquele ano. Fleischer, por sua vez, foi indicado a três prêmios importantes pela obra: Palma de Ouro, BAFTA (o Oscar britânico) e DGA (sindicato dos diretores).

Como os prêmios demonstram, Zanuck se pautou desde cedo em trabalhar com projetos criativos, que fossem mais que mero entretenimento. Precoce, já em 1962, aos 27 anos de idade, assumiu o comando da empresa. “Nós não tínhamos uma filmagem sequer acontecendo, além dos derradeiros episódios de “Dobie Gillis”, nosso único programa de TV. Então, fechamos o estúdio e abandonamos a propriedade. Comandei o estúdio por dois anos em um bangalô. Só havia eu, um advogado, dois zeladores e um guarda no portão. Você podia literalmente ver as ervas daninhas crescendo”, disse ele, anos depois, relembrando os tempos difíceis.

Butch Cassidy

Apesar da crise, Richard conseguiu financiamento para um filme – seu primeiro após virar o chefe do estúdio. E apostou tudo naquela produção: o musical “A Noviça Rebelde”. O filme estreou 1965 e se tornou o mais lucrativo da história do cinema até então, eclipsando inclusive “…E o Vento Levou” (1939). Seu sucesso lançou o conceito de filme para toda a família, que se tornaria praticamente um gênero cinematográfico. Mas “A Noviça Rebelde” não foi apenas um fenômeno popular. A crítica também o adorou e no ano seguinte o musical estrelado por Julie Andrews ganhou 5 Oscars, incluindo o de Melhor Filme.

Ele lançou mais dois clássicos indisputáveis nos anos seguintes, a sci-fi “O Planeta dos Macacos” (1968), que virou franquia, e o western “Butch Cassidy” (1969), tão cultuado que inspirou o ator Robert Redford a criar um festival de cinema com o nome de seu personagem, The Sundance Kid.

O Planeta dos Macacos

Nem tudo, porém, foi tranquilo em sua carreira. O período em que deveria representar sua consagração foi também o de maior desgosto. Ele foi nomeado presidente da 20th Century Fox em 1969, quando seu pai assumiu a chefia do conselho executivo do estúdio. E foi justamente Darryl F. Zanuck o responsável pela demissão de Richard, depois de apenas um ano marcado por desconfiança e por disputas internas para decidir como o estúdio seria regido.

O alto investimento na superprodução de guerra “Tora! Tora! Tora!” (1970), que resultou em prejuízo, foi a gota d’água. Porém, ele deixou encaminhado no estúdio a produção de “Conexão Francesa” (1971), um dos mais famosos filmes policiais de todos os tempos, que não só se provou lucrativo como venceu 5 Oscars, entre eles o de Melhor Filme.

Com Steven Spielberg, no set de Louca Escapada

“Era uma relação diferente do normal para um pai e filho”, disse Richard ao jornal The New York Times em 2003. Uma das formas de Darryl demonstrar afeto era fazer com que os produtores executivos fossem aos jogos de Baseball de Richard e torcerem por ele, como figurantes em um filme sobre esporte. “De qualquer forma, eu consegui me resolver com ele antes de sua morte, em 1979”, completou, revelando que não restaram mágoas.

Depois de um tempo trabalhando na Warner Bros., ele fundou sua própria produtora em parceria com o amigo David Brown. Para lançar o novo negócio, Zanuck voltou a reunir os astros de “Butch Cassidy”, Paul Newman e Robert Redford, já contando os lucros por antecipação. A dupla era extremamente popular e “Um Golpe de Mestre” se tornou, como Zanuck previa, um dos maiores sucessos de 1973. Ah, e ganhou 7 Oscars, somando mais um Melhor Filme da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em sua biografia. O produtor mostrava novamente seu tino comercial e capacidade para criar sucessos sem perder de vista a qualidade dos projetos.

No set de Tubarão, com o problemático tubarão mecânico ao fundo

Foi nessa época em que ele começou a apostar em novos cineastas. O terceiro filme da nova produtora marcou a estreia no cinema de um jovem diretor de TV chamado Steven Spielberg. “Louca Escapada” (1974) era uma comédia de ação protagonizada por uma então bela e jovem Goldie Hawn. A produção não foi um grande sucesso de bilheteria, mas foi indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes, onde acabou vencendo o prêmio de Melhor Roteiro.

Animados com a repercussão artística do trabalho, Zanuck e Spielberg começaram a preparar o que viria a se tornar um dos maiores sucessos da história do cinema: “Tubarão”. Spielberg nunca se esqueceu da amizade construída no set de filmagens. “Teve um dia em que eu e Dick Zanuck nos sentamos num barco e vimos nosso tubarão mecânico afundar no fundo do mar, torrando boa parte do nosso orçamento”, o diretor contou. “Dick não se deixou abater. Ele me disse, sorrindo: ‘Nossa, espero que isto não seja um sinal’. Nunca esqueci sua capacidade de encontrar motivos para sorrir e acreditar que tudo daria certo”.

No set de O Veredito, com Paul Newman e o diretor Sidney Lumet

Com orçamento de apenas US$ 8 milhões, “Tubarão” faturou mundialmente US$ 430 milhões e levou 3 Oscars em 1976. Em 1978, Richard voltou ao mar para produzir a continuação sem a participação de Spielberg, mas não conseguiu atingir o mesmo sucesso.

Outros sucessos vieram nos anos 1980, como a ficção científica “Cocoon” (1985), um dos primeiros filmes do ator Ron Howard como diretor de cinema, além de “O Veredicto” (1982), nova parceria com Paul Newman.

Conduzindo Miss Daisy

No começo de sua carreira, Richard preferia assumir o papel de diretor do estúdio e não incluía seu nome como produtor para ser considerado no Oscar. Isto mudou a partir da Zannuck/Brown. Seu nome começou a aparecer na disputa do Oscar de Melhor Filme com “Tubarão” e “O Veredito”. Mas foi um projeto pequeno que lhe concedeu a tão desejada estatueta dourada.

Em 1989, ao lado de sua eposa Lili, Zanuck produziu o drama “Conduzindo Miss Daisy”, estrelado por Morgan Freeman e Jessica Thandy, e, surpreendentemente, a produção orçada em US$ 5 milhões chegou aos US$ 100 milhões arrecadados e ainda faturou 4 Oscars, inclusive a estatueta de Melhor Filme, entregue ao produtor e sua parceira.

Richard Zanuck e sua mulher Lili Fini Zanuck com o Oscar de Conduzindo Miss Daisy

Os anos 1990 não repetiram o mesmo sucesso, graças a uma sequencia de filmes pouco expressivos que não se pagavam nas bilheterias. Foi o caso de “Memória Curta” (1994), “Wild Bill” (1995), “Reação em Cadeia” (1996) e até o blockbuster “Impacto Profundo” (1998).

Em 2001, porém, Zanuck voltou a encontrar um prodígio do cinema. Decidido a realizar um remake de “O Planeta dos Macacos”, sucesso que ele tinha produzido em 1968, o executivo se aproximou de Tim Burton. O trabalho rendeu um filme que nem agradou aos fãs da franquia nem faturou o suficiente nas bilheterias. Mas foi início de uma amizade lucrativa para a carreira de ambos.

Com Tim Burton, no set de Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

Os dois perceberam ter muito em comum. Eram adultos que não queriam crescer e se interessavam pelo aspecto mais lúdico da indústria cinematográfica. Eles praticamente se complementavam. E Zanuck se sentia revitalizado em cada conversa com o diretor sobre um novo projeto.

A parceria demorou a ser considerada um sucesso, visto que o filme seguinte também repercutiu mais como esforço artístico do que sucesso de bilheteria, “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (2003). Mas a história mudou radicalmente com “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005), o primeiro blockbuster da carreira de Burton.

Com Mia Wasikowska, no set de Alice no País das Maravilhas

Foram, ao todo, seis filmes criados em conjunto, incluindo ainda “Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (2007), “Alice no País das Maravilhas” (2010) – que rendeu mais de US$ 1 bilhão mundialmente – e o recente “Sombras da Noite”, o último filme que Zanuck concluiu.

Ele estava trabalhando no terror “Hidden”, estrelado por Alexander Skarsgard (série “True Blood”), quando morreu. Zanuck deixou Lili, com quem era casado há 34 anos, os filhos Harrison e Dean, e um grande legado para a história do cinema.

Com Tim Burton, no set de Sombras da Noite

+ Lucas Procópio

Lucas Procópio, estudante e amante do cinema, espectador descontrolado e aspirante a cineasta.

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