Quincas Berro d’Água retoma Jorge Amado no cinema nacional

Quem é fã de Jorge Amado e sentia saudade da encarnação de seus personagens nas telas, irá se regozijar com a adaptação de seu divertido livro “A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água”, que chega agora aos cinemas. O escritor baiano, responsável direto pelo maior sucesso de bilheteria do cinema nacional, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, sempre teve lugar garantido no imaginário popular graças ao sucesso das adaptações para TV de suas obras literárias (“Quincas” já havia sido adaptado para a TV em 1978). Com a estréia de “Quincas Berro D’Água” de Sérgio Machado, que antecede o lançamento de outro filme baseado em sua obra, “Capitães da Areia” (previsto para o próximo semestre), o público terá novamente o prazer de rir e se encantar com o universo único criado pelo autor.

O filme conta a divertida história do boêmio Quincas, que abandonou a família e seu burocrático estilo de vida para viver nos bares e becos de Salvador. Quincas bate as botas no dia de seu aniversário e, para desespero de seus amigos farristas, sua família reclama o corpo na intenção de promover um velório e sepultamento de aparências perante a sociedade. A solução encontrada pela trupe de bêbados é sequestrar o defunto e levá-lo para uma noitada, cumprindo assim o plano inicial que era celebrar seu aniversário em grande estilo: botecos, cachaça e mulheres.

Quincas ganha vida (ou morte, mais especificamente) na interpretação de Paulo José, consagrado autor teatral e reconhecido intérprete televisivo. Paulo José (estático em cena em contraposição ao Mal de Parkinson que o acomete há alguns anos) assume o papel principal de narrador da história, uma vez que seu personagem está morto em quase todo o tempo que aparece em tela.

“Quincas Berro d’Água” apresenta uma qualidade técnica admirável. A impressionante fotografia de Toca Seabra (de “Estômago”, “O Invasor” e “O Outro Lado Da Rua”) ressalta a beleza triste do centro histórico de Salvador, enaltecendo as cores das fachadas decadentes dos casarões com suas paredes deterioradas pelo tempo.

Seabra já havia trabalhado com Sérgio Machado no belíssimo “Cidade Baixa”. Em ambos os filmes, a fotografia sensivel faz o público esquecer a constante carnavalização da Bahia que cinema e TV insistem em vender. A decoração de interiores é outro ponto a ser ressaltado, trabalho cuidadoso de direção de arte, assim como os efeitos especiais que chamam a atenção (principalmente na sequência da tempestade em alto mar).

Porém, mais que a acuidade visual, são os personagens que realmente fazem o filme funcionar. Atores globais como Mariana Ximenes e Vladmir Brichta perdem o brilho quando entram em cena os amigos do morto. Flávio Bauraqui, Luis Miranda, Irandhir Santos e Frank Menezes são a alma do filme – trocadilho perfeito para acompanhar o corpo de Quincas durante a jornada de esbórnia que move a trama.

Em segundo plano, Marieta Severo arranca boas risadas na pele de Manuela, uma espanhola de araque dona de um bordéu (ou algo semelhante), apaixonada por Quincas. Bons atores coadjuvantes vindo dos palcos baianos, a maioria desconhecida do grande público, enriquecem a trama contribuindo para o bom timing das piadas.

Sérgio Machado soube dosar elementos de comédia pastelão sem banalizar sua obra. Responsável pela adaptação do livro, o diretor exercita aqui uma veia cômica inexistente nos roteiros que escreveu anteriormente como o já citado “Cidade Baixa”, “Madame Satã” (de Karin Ainouz) ou episódios da série de TV “Alice” (exibida pela HBO).

“Quincas Berro d’água” é um alívio cômico para os espectadores, com uma qualidade acima da média das comédias nacionais de sucesso dos últimos anos. Os méritos aqui são dividos entre Jorge Amado, criador deste cenário pitoresco e seus personagens cativantes, o diretor Sérgio Machado, pela competente adaptação e excelente direção de elenco, e o protagonista Paulo José, que chegou a dispensar dublês (e bonecos) em quase todas as cenas do longa, em que é jogado para cima e para baixo na homenagem mórbida. Ao final, somam-se tantas qualidades que é até fácil perdoar o fato de se perceber, em diversas cenas, a respiração do “morto”.

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Leia também a entrevista com Paulo José e Sérgio Machado:

Imagem de Amostra do You Tube

Quincas Berro D’Água (Brasil, 2010)

 ★★★★☆ 

+ Fabricio Ataide

Fabricio Ataide come, bebe e respira cinema. Fisioterapeuta por formação, bancário por necessidade, escritor por hobby e cinéfilo por vocação, assiste praticamente a todos os filmes que estreiam em circuito (inclusive os assumidamente ruins), vai estudar cinema (um dia) e dirigir um curta (outro dia). Mora em São Paulo e passa mais tempo nos cinemas da região da Paulista que na sua própria casa.

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