Preciosa é uma revelação incômoda, triste e de tirar o fôlego

Quando o diretor Lee Daniels apresentou “Preciosa” no Festival de Sundance no ano passado, rapidamente uma nuvem de especulações se formou em torno daquela que poderia ser a mais promissora e surpreendente revelação do cinema de 2009 (a mesma nuvem que pairou sobre “Pequena Miss Sunshine” e “Juno” nos anos anteriores), e a premiação no Festival de Toronto, em novembro, abriu as portas para a sonhada consagração no Oscar 2010. Daniels viu então seu filme ganhar merecido destaque entre produções badaladas e seu nome, apesar de desconhecido, merece realmente estar lá.

“Preciosa – Uma História de Esperança” é um filme incômodo, desprovido de beleza e incondicionalmente triste. São adjetivos que também acompanham sua protagonista, Clareece “Precious” Jones, uma garota que vive no Harlem, tem dificuldades com o aprendizado escolar, está grávida do próprio pai (pela segunda vez) e vive com a mãe, uma mulher desequilibrada emocional e mentalmente, que passa os dias em frente à TV e tem como tarefa diária rebaixar, humilhar e agredir a própria filha. Estas duas mulheres, presas em seus mundos de amarguras, compõem um cenário desolador, onde a falta de esperança e o excesso de rancor sobrepõem qualquer tipo de sentimento que possa ser considerado comum a um relacionamento entre mãe e filha.

A corajosa atuação da novata Gabourey Sidibe no papel-título é de deixar a platéia sem fôlego, tamanha a força da sua personagem – não à toa, ela ficou em lugar de honra na premiação da Academia, ao lado de Meryl Streep e Helen Mirren. Clareece é meiga apesar da aparência bruta, possui conflitos internos como qualquer adolescente de sua idade, nutre sonhos e tenta levar uma vida comum, mas sua realidade é tão áspera e rude que ela simplesmente se vê obrigada a guardar tudo para si, enfrentando ora com força ora com resignação toda a sorte de humilhações.

Quando se depara com uma situação extremamente vexatória, ela foge para um mundo de sonhos, onde é uma atriz famosa ou uma cantora de sucesso (algo semelhante ao que acontecia com a personagem de Monica Cervera no excepcional “20 Centímetros”, inédito por aqui) e, nestes delírios, Precious consegue ter por alguns instantes uma satisfação que, ela sabe bem, nunca conseguirá na realidade.

Ainda mais corajosa, e infinitamente arrebatadora, é a atuação de Mo’Nique como Mary, a odiosa, abusiva, desprezível e violenta mãe de Precious. Comediante reconhecida, Mo’Nique exibe aqui uma marcante composição dramática em um papel que lhe valeu prêmios em Sundance, no Globo de Ouro e no Sindicato dos Atores, além de um comemorado Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Sua última cena é de deixar qualquer um com a sensação de ter o coração parado por alguns segundos entre a garganta e a boca.

Lee Daniels conseguiu como poucos transpor uma história de natureza biográfica para as telas sem pesar a mão no dramalhão convencional – aquele que leva o público às lágrimas com fórmulas prontas e enquadramentos bem arquitetados. Em seu filme, baseado no livro “Push” da escritora Sapphire, as lágrimas podem vir, mas ficarão receosas e escondidas no canto dos olhos, dominadas pela tensão que as imagens e os diálogos imprimem na mente.

Nem a presença de dois astros da música pop disfarçados de atores compromete o resultado: Lenny Kravitz dá vida a um enfermeiro e uma irreconhecível Mariah Carey encarna uma assistente social – papéis pequenos, mas relevantes na trama. Só por conseguir extrair uma expressão convincente da cantora, Daniels já merecia um prêmio.

Com uma edição primorosa (também indicada ao Oscar), “Preciosa – Uma História de Esperança” monta, cena a cena, um mosaico de solidão e sofrimento, onde o desprezo e a baixa autoestima guiam a protagonista por caminhos tortuosos, conflitantes e quase sempre desprovidos de opções. A tal esperança do desnecessário subtítulo em português surge fraca e claudicante e só serve para apertar ainda mais o nó na garganta do espectador.

Imagem de Amostra do You Tube
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Preciosa – Uma História de Esperança

(Precious: Based on the Novel “Push” by Sapphire, EUA, 2009)

Lançamento em DVD

 ★★★★½ 

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+ Fabricio Ataide

Fabricio Ataide come, bebe e respira cinema. Fisioterapeuta por formação, bancário por necessidade, escritor por hobby e cinéfilo por vocação, assiste praticamente a todos os filmes que estreiam em circuito (inclusive os assumidamente ruins), vai estudar cinema (um dia) e dirigir um curta (outro dia). Mora em São Paulo e passa mais tempo nos cinemas da região da Paulista que na sua própria casa.

4 Comentários

  • FerdinandoNo Gravatar
    2 de julho de 2010 | Permalink | Responder

    Chorei quando ela disse que ninguem a amava e que o amor era inutil em sua vida. casos como esses existem na vida real , nuito realista ,realidade nua e crua.

  • SpiguelNo Gravatar
    14 de março de 2010 | Permalink | Responder

    Este Drama é realmente apelativo e consegue tirar lágrimas dos espectadores, com merecimento ganhou muitos prémios.
    Recomendo certamente que todos assistam.

  • ViníciusNo Gravatar
    25 de fevereiro de 2010 | Permalink | Responder

    Nossa, eu tava com receio de assistir. Mas depois de ver com esses olhos me deu uma baita vontade. Valeu ae por mais uma dica, querido!

  • 15 de fevereiro de 2010 | Permalink | Responder

    Este filme me parece que vai ser muito Bom mesmo,vamos aguardar !

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