Plano de Fuga traz Mel Gibson alucinado, mas por bom motivo

Não fosse por seus constantes “deslizes” pessoais (agressão física contra companheira, declarações racistas e antissemitas, prisões por dirigir embriagado e muitos etc), Mel Gibson ainda seria um herói de ação de Hollywood. Vide o caso desse “Plano de Fuga”, uma pequena pérola que foi completamente ignorada pelos cinemas dos Estados Unidos, exibida por lá apenas via video on demand, graças ao repúdio coletivo a seu astro.

É uma pena, afinal trata-se de um dos melhores trabalhos do ator nos últimos anos e tinha tudo para fazer sucesso nas bilheterias ao reunir o que os americanos gostam nos filmes de ação: abertura com perseguição automobilística, bastante humor em meio à violência gráfica e cenas de tiroteio, ambientação numa cultura latina exótica e um (anti) herói descendo a lenha nos bandidos mexicanos.

Mel Gibson interpreta um ladrão em fuga com uma pequena fortuna no carro, mas que acaba preso na fronteira do México e jogado no presídio El Pueblito, um inferno carcerário capaz de transformar as cadeias brasileiras em hotel cinco estrelas.

Como o protagonista diz, o lugar é um shopping center bizarro, com um mercado interno – desde refrigerante até heroína –, famílias com crianças morando com os detentos, e até festas particulares para os mais poderosos. Lá, o “gringo”, como é chamado pelo outros, vai precisar adaptar-se ao ambiente para planejar sua fuga e recuperar a grana roubada, que foi parar nas mãos de policiais corruptos.

Assim como aconteceu em “Um Novo Despertar” (2011), no qual Gibson faz um homem em depressão, é inevitável confundir personagem e ator, até porque aqui o astro também é autor do roteiro, ao lado de Stacy Perskie e Adrian Grunberg. E o inegável talento e carisma de Gibson são usados com mais precisão do que no filme de Jodie Foster, principalmente porque seu personagem é um adorável mau-caráter, que usa a lábia e os talentos como ladrão para se dar bem e, de quebra, ajudar uma mãe e seu filho a terem uma vida melhor e sair da cadeia.

É quase como se o próprio astro quisesse dizer que há um sujeito bom por trás daquele cara que diz besteiras cada vez que ultrapassa os limites do álcool que ingere.

Narrado em primeira pessoa, o roteiro esperto mistura situações impossíveis com diversas citações e referências divertidas, do criador da Playboy à “Vila Sésamo”, e coloca Gibson numa imitação de Clint Eastwood (“Gran Torino”) de arrancar risadas. Os muitos momentos engraçados, de fato, retiram um pouco do peso da violência constante.

Apoiado por um bom elenco, em destaque o núcleo mexicano, como Dolores Heredia (“Uma Vida Melhor”) e o garoto Kevin Hernandez (“O Babá(ca)”), Adrian Grunberg realiza uma ótima estreia como diretor.

Após fazer carreira como assistente de direção de Sam Mendes (“Soldado Anônimo”), Steven Soderbergh (“Traffic”), Peter Weir (“Mestre dos Mares”), Alejandro González Iñárritu (“Amores Brutos”) e do próprio Mel Gibson em “Apocalypto”, ele transmite grande segurança no comando das cenas e faz bom uso da câmera. E isso fica claro já na primeira sequência, em meio a uma perseguição automobilística.

Grunberg sabe utilizar a câmera a seu favor, seja simulando o estilo reportagem num momento de rebelião, vista de um helicóptero, ou então brincando com os elementos visuais: numa cena, a montagem mistura visita íntima e jogos de pebolim; noutra, o capô vermelho de um carro toma toda a tela, indicando subjetivamente o resultado de uma tortura.

Mais do que a violências estilizada dos submundos de Quentin Tarantino (“Pulp Fiction”) e Sam Peckinpah (“Meu Ódio Será Sua Herança”), Grunberg apela à supercâmera lenta ao estilo de Zack Snyder em “300”, com as gotículas de sangue flutuando lentamente aos olhos do espectador. É uma violência de desenho animado, extremamente bem filmada e com visual impecável, principalmente pela fotografia de Benoît Debie (“Irreversível”), que utiliza tons amarelados e avermelhados para reforçar o clima infernal daquele presídio.

A realidade, porém, está sempre em contraste com a fantasia. Filmado antes de Gibson ficar confinado na prisão moral que ele próprio se enfiou, “Plano de Fuga” não é capaz de realizar o resgate impossível de sua carreira. Apesar de todas as suas qualidades, tende a ser visto apenas como dano colateral.

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Plano de Fuga

Imagem de Amostra do You Tube
(Get the Gringo, EUA, 2012)

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 ★★★★☆ 

+ Leonardo Vinicius Jorge

Leonardo Vinícius Jorge é jornalista, crítico de cinema e autor do livro “12 de Setembro: O Cinema Hollywoodiano Após os Atentados Terroristas que Mudaram o Mundo”.

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