Morreu aos 76 anos o diretor italiano Pio Zamuner, um dos principais parceiros do ícone cinematográfico brasileiro Amácio Mazzaropi (1912-1981). Zamuner dividiu a direção com o próprio Mazzaropi nove vezes entre 1970 e 1980, inclusive nas duas produções internacionais do jeca, “Um Caipira em Bariloche” (1973), realizado na Argentina, e “Portugal… Minha Saudade” (1974), filmado num transatlântico a caminho da Europa e nas cidades portuguesas de Fátima, Coimbra e Lisboa.
Ele também foi responsável pela codireção dos dois últimos longas-metragens de Mazzaropi, “A Banda das Velhas Virgens” (1979) e “O Jeca e a Égua Milagrosa” (1980). “Pio e Mazzaropi contribuíram-se mutualmente. Parte da genialidade de Mazzaropi estava nas mãos, olhos e câmeras de Pio Zamuner”, declarou André Luiz Mazzaropi, filho do ator.
Filmagens de As Amorosas, de Walter Hugo Khouri
Zamuner estreou no cinema como ator, com um papel em “O Cabeleira” (1963), de Milton Amaral. Arriscou-se mais uma vez na atuação em 1967, no filme “O Santo Milagroso”, de Carlos Coimbra, mas no ano seguinte ele migraria para a função de diretor de fotografia, trabalho que o consagrou e o tornou respeitado entre os cineastas. Em 1968, foi responsável pela fotografia de “As Amorosas”, clássico de Walter Hugo Khouri, com Paulo José e Stênio Garcia no elenco.
A parceria entre Zamuner e Mazzaropi começou a se formar em 1969, quando o italiano foi convidado a ser o diretor de fotografia de “Uma Pistola para Djeca”, dirigido por Ary Fernandes e estrelado pelo jeca. Mazzaropi ficou satisfeito com o resultado e chamou Zamuner para repetir o trabalho em “No Paraíso das Solteironas” (1969), dirigido pelo próprio ator.
Mazzaropi em O Grande Xerife
Mais uma vez, Mazzaropi aprovou o resultado e permitiu que Zamuner estreasse na direção com “Betão Ronca Ferro” (1970) – ao lado do diretor Geraldo Affonso Miranda. O título faz uma referência à novela e fenômeno popular da TV Tupi, “Beto Rockfeller” (1968-1969), e o longa tornou-se um dos preferidos de Mazzaropi por se passar no ambiente circense – uma das paixões do ator.
Dois anos depois, Zamuner dirigiu o astro do humor brasileiro em “O Grande Xerife”, filme que representa toda a filmografia do jeca. Na história, o caipira (aparentemente) bobo mostra-se mais inteligente do que parece e é responsável pela prisão do bandido que importunava sua cidadezinha. Foi nesse filme que o jeca utilizou sua clássica espingarda de cano torto, “para matar viado na curva”.
Um Caipira em Bariloche
Eles estavam tão afinados que seus próximos passos foram mais ousados, indo filmar fora do território brasileiro. Em “Um Caipira em Bariloche”, Mazzaropi leva o jeca atrapalhado para conhecer a neve argentina após ser vítima de um golpe. No ano seguinte, a dupla foi mais longe e arrumou locações em terras lusitanas para filmar “Portugal… Minha Saudade”, filme que trazia o ator interpretando dois irmãos gêmeos.
De volta ao Brasil, os parceiros decidiram brincar com o sobrenatural, primeiro com “O Jeca Macumbeiro” (1975). Depois, com o celebrado “O Jeca Contra o Capeta” (1976), uma espécie de paródia do clássico hollywoodiano “O Exorcista” (1973). Os dois foram além – ou melhor ao além – , com “Jecão… Um Fofoqueiro no Céu” (1977), mostrando que Mazzaropi era capaz de causar confusão até entre os anjos.
O Jeca contra o Capeta
Zamuner dividiu a direção com Berilo Faccio na comédia do jeca que traz uma discussão séria: a questão racial. Em “O Jeca e Seu Filho Preto” (1978), o personagem de Mazzaropi é casado com uma mulher branca, mas eles têm um filho negro – algo que nunca o incomodou, mas resultará em preconceitos quando o garoto envelhece e se apaixona por uma menina branca de família rica.
Em 1979, Pio Zamuner voltou a codirigir com Mazzaropi, no filme “A Banda das Velhas Virgens”, sobre o maestro Gostoso (sim, esse é o nome dele…), que comanda um grupo musical formando por senhorinhas beatas. O título do longa deu origem ao nome da banda de rock Velhas Virgens, formada em 1986 por Alexandre Dias e Paulo de Carvalho. Ainda em 1979, Zamuner realizou o longa “Paixão de Sertanejo”, uma adaptação do romance “O Sertanejo”, do escritor José de Alencar (1829-1877).
Jeca e Seu Filho Preto
O cineasta também foi responsável pelo último trabalho de Mazzaropi nas telonas, em 1980. “O Jeca e a Égua Milagrosa” discute as eleições ainda com a ditadura em vigor e coloca o caipira para se casar com a égua (!) que realiza milagres. Após a morte de Mazzaropi, Zamuner dirigiu apenas mais dois filmes: “A Doutora é Boa Paca” (1984), em parceria com Tony Rabatoni, e “A Volta do Jeca” (1984), no qual presta homenagem ao amigo falecido.
Ao longo de toda sua filmografia, ele dirigiu 13 filmes e atuou como diretor de fotografia em mais de 40 produções. Além de sua parceria com Mazzaropi, Zamuner também colaborou com outros importantes cineastas, como Tony Vieira (“Traídas Pelo Desejo”, de 1976) e Alfredo Sternheim (“Violência na Carne”, de 1981).
O Jeca e a Égua Milagrosa
Foi também como diretor de fotografia que ele encerrou sua carreira, trabalhando nos filmes de sexo explícito de José Miziara, “Sem Vaselina” e “Deliciosas Sacanagens”, ambos de 1985. Seu último trabalho foi em “Gemidos e Sussurros” (1987), de Raffaele Rossi.
Zamuner foi encontrado morto em sua casa na sexta (20/1) pelo amigo Castor Guerra (que atuou em alguns de seus filmes). O ator foi à casa do diretor porque estranhou ele não atender a seus telefonemas na noite anterior.




































